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Panis ohne Circences

Setembro 15, 2009

 

Apresentado com pompa e circunstância como “O” duelo da TV, o debate entre Merkel e Steinmeier surtiu em grande desilusão. Apesar da provocações insistentes do painel de jornalistas, apostado em verter sangue a qualquer preço, o par Merkel-Steinmeier foi quase sempre cordato, não se hostilizando e somente aparentando alguma sanha contra os próprios jornalistas. Claro que o desconcerto, para quem tinha preparado um espectáculo de gladiadores, não poderia ter sido maior. A páginas tantas diz um jornalista: “vocês parecem um casal velho”. E, curiosamente, a única coisa que soa a estranho é o facto de o tal casal não poder ripostar mandando o jornalista à merda. Até porque, de sorriso assanhado e sobranceria q.b., se faz o jornalismo das grandes entrevistas actualmente. E esta era sem dúvida uma delas.

Contrariamente ao que se passou cá pelo nosso burgo, os eleitores alemães tiveram o direito a apenas um debate entre os dois lideres da futura oposição. Como estão os dois ainda em coligação – a grande coligação que governa a Alemanha desde 2005 com Merkel à cabeça – o debate não se revelou um combate até à morte. E seria suspeito que o fosse. Porque razão deveriam os dois contendores atacar-se mutuamente quando fazem parte do mesmo governo há cinco anos? Por isso, as eleições que, coincidência, têm a mesma data que as portuguesas, vão ser ou um referendo para a continuação da velha coligação ou uma tentativa de Merkel se coligar com os liberais de Weltweller. A primeira hipótese afigura-se a mais provável, donde ser totalmente descabido um desabrir de hostilidades em público.

Sendo que esta é a solução mais provável para um futuro governo alemão, cabe perguntar porque razão estariam os jornalistas expectantes pelo duelo do século. Não aconteceu; nem era suposto acontecer. Aliás, julgo que a forma cordata com que os candidatos se trataram contrasta largamente com as acusações e a agressividade libertada por cá. Ganhámos em esclarecimento político? Não creio.

Vejo portanto com bons olhos que, para desilusão geral, Merkel e Steinmeier fossem contra a corrente de quem vê na política um espectáculo mediático e que não admite nada menos do que carnificinas públicas.

Contraste óbvio com as entrevistas levadas a cabo por Ricardo Araújo Pereira aos candidatos a primeiro-ministro. É preciso sublinhar que estamos no grau zero da seriedade política, mas que o mecanismo de artificialização da figura pública entra aqui fulgurante. Pois não se trata de conhecer a pessoa por detrás da figura pública – como essa outra tenebrosa ideia de retratar os candidatos na sua vida quotidiana, logo real. Até porque a suposta vida “real” é tão ou mais judiciosamente preparada quanto a mediática. Mas para além disso, é óbvio que a cavalo de uma ideia aparentemente rebelde e refractária, o programa dos Gatos esconde a mais perniciosa arregimentação. Primeiro, constata-se que, com ou sem provocação – e ela até existiu – assistimos a um prolongamento de campanha eleitoral. E se assim é, então deveríamos dar o direito a todos, sem excepção, todos os candidatos ao cargo de primeiro-ministro de Portugal. Segundo, porque atando as pontas, percebendo os fios com que a preparação do programa se coseu, não nos resta senão verificar que a direcção de programas da SIC quis prolongar o pico de audiências que obtivera durante os debates, ditos sérios. Logo tratou-se de uma estratégia de marketing televisivo.

Que os Gatos Fedorentos, paroxismo da irreverência e da inconformidade, embarquem nestes esquemas, só diz daquilo que se tornaram, ou seja, os lulus da estação de Carnaxide. Quando a irreverência obedece a estratégias de audiência e é manipulada por direcções de informação – lembremos que foi Ricardo Costa que andou a focinhar para convencer o nosso primeiro a ir àquela chocarreira, por isso não teve nada de improvisado – deixou, por definição, de ser irreverente. A título de exemplo, basta comparar com os Contemporâneos…

Eu detesto dizer “I told you so”, mas a verdade é que disse. Os Gatos foram ao fundo, continuam a ir, e o centro da terra é o limite. Agora, a perplexidade emerge quando um grupo de humoristas consegue ter influência ao nível de candidatos a primeiro-ministro. É natural que, em plena campanha, a última coisa que estes senhores e senhoras quereriam gramar, era estarem no papel de jograis para inteiro engrandecimento da SIC e dos Gatos Fedorentos, nem que seja por meia hora. Coloquemo-nos no papel de um dos candidatos, atarefado em campear ruas e comícios (salvo MFL), a dar tudo por tudo para ser ouvido e persuadir, ver-se de repente arrastado para uma meia hora de recreio no jardim infantil dos Gatos Fedorentos…Obviamente, que a única coisa que isto sugere é que os candidatos se encontram reféns das estratégias de estrelato…dos Gatos. Só abona a favor dos últimos, o poder que granjearam nos últimos anos. Não abona minimamente a favor do humor ou da dita irreverência.

Por isso, julgo que prefiro o casal senil Merkel e Steinmeier, mesmo sem grandes aparatos verbais, sem deixas para parangonas jornalísticas e caixas oportunistas, do que este simulacro de ver e dar a ver. Afinal, quando a exigência passa por esventrar os candidatos segundo desígnios jornalísticos, a única resistência que estes podem oferecer é justamente ancilosar estes exercícios. Como? Furtando-se a dar panis et circenses.  

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