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Mediatização

Setembro 14, 2009

Findos os rounds políticos que colocaram frente-a-frente os nossos candidatos a primeiro-ministro, uma coisa é possível de extrair: a mediatização da política não deixa espaço para a política propriamente dita. Porém, a política da mediatização, essa sim, ocupa, orgulhosa e só, o pódio da vocação politizante.

Neste sentido, o exercício dos debates entre candidatos não constitui propriamente uma expressão de esclarecimento democrático, de confronto de ideias, contextualização e argumentação das mesmas. Bem pelo contrário, constrói-se este exercício segundo as linhas de uma máquina que se retroalimenta, fornecendo energia para os diversos palcos mediáticos, para os sujeitos que neles se deslocam, e para a ressonância da mensagem jornalística. Esta última não tem que ser, e na maioria das vezes está longe de o ser, necessariamente esclarecedora. Basta-lhe que se reinvente, numa compulsão controlada em multiplicar-se e em diversificar os seus espaços de mediatização. Isto significa que o circo pode bem ser todo montado para uso e usufruto exclusivo dos palhaços.

A lógica mediática é predatória. Reduz os diversos eventos e situações a um denominador comum, ou seja, a audiência. Logo a seguir aos debates, a conclusão rejubilante de uma democracia vertiginosamente saudável foi prontamente aduzida: nunca antes, nos nossos , anos de democracia consolidada, tanta gente tinha assistido a debates políticos. O país estaria, por conseguinte, em estado de meditação profunda, cosendo e descosendo mentalmente as melhores opções para a dita governabilidade, sopesando num e noutro prato da balança rupturas e continuidades, e etc. Sucede que o país terá ficado em suspenso porque aprecia com particular malícia as vitórias e derrotas mediáticas. Vitórias de Pirro, como bem mostra o exemplo de os jornalistas e comentadores, quase em uníssono, terem enaltecido a prestação de MFL por esta se encontrar acima das expectativas. Com tão baixas expectativas pergunta-se por que raio estaria ela a caminho de um lugar de tamanha responsabilidade. Porém, o mais assinalável vazio desta feira de pregões gastos e repetidos, foi uma pequena rubrica, enfiada a martelo entre os ditos comentários “sérios” de politólogos e especialistas de política (paga-se a quem conhecer a diferença…), e que consistia num comentário, assaz animado, sobre as posturas dos candidatos. Uma jovem balzaquiana (de há uns tempos para cá, com a evolução tecnológica, deixou de ser contraditório), invadindo o ecrã com uma gesticulação ousada conquanto excessiva, debitava, do alto da sua expertise de controlo estratégico de imagem, a cartilha para banha da cobra e outros objectivos afins a partir da apresentação corporal. Assim, decorria desta incessante actividade investigatória, que o corpo dava-se a ler e era só preciso conhecer a chave para ficar de posse dos códigos que permitem decifrar os enigmas do subliminar político. A Sara Batalha, de quem se poderia dizer que o corpinho dava a ler uma bíblia inteira, não fosse a conjunção entre esse mesmo corpo e o livro sagrado uma invocação blasfema, lia nas posturas e nos ademanes dos candidatos tal qual os antigos druidas liam nas entranhas dos animais domésticos. Este tipo de análise possui o estigma de não levar em conta a recepção. Desta forma, enquanto a Sara diz que a postura convicta e agressiva de Paulo Portas foi exagerada, esquece que essa mesma postura tem uma aceitação alargada no eleitorado a quem ela se dirige. Da mesma maneira, bem pode a Sara dizer que Jerónimo de Sousa sorri muito que não deixa de transparecer no eleitorado que ele não é talhado para as interrupções e mera persuasão afectiva. E, finalmente, bem pode dizer que MFL transborda certeza naquilo que diz, que não afectará minimamente a sua fraca prestação enquanto debatente.

Do outro lado desta incontinência verbal que, sublinhe-se, está longe de ser exclusivo português, encontra-se o dito comentário sério. Aqui, a tecitura do comentário é feita de frases lapidares, sem concessões a deus e ao diabo, frases do tipo daquelas a que o exame de Marcelo nos habituou. E a propósito deste mesmo exame, vejam como o professor, em característico registo de imparcialidade, sovou o pobre do Jerónimo acusando-o de ser manifestamente incapaz para debates televisivos, enquanto salvava a sua candidata de eleição contra toda a evidência em contrário. É por isso que os debates entre os candidatos, cujo objectivo é supostamente o de abrirem um espaço excepcional no marasmo democrático da política gestionária, só ingenuamente se podem considerar como singularidades dentro deste panorama. E é por isso também que eles não constituem, ou melhor, são ultrapassados, pela miríade de outros debates que acontecem subsequentemente ou em paralelo. Ora, a catadupa de comentários que normalmente sucedem estes happenings são uma continuação dos debates, dado que cada comentador é alinhado com uma das forças políticas e nem sequer tem a ombriedade de o disfarçar. Só assim se pode conceber que um comentador de luxo como MRebelo de Sousa tenha escamoteado as fracas prestações da sua candidata; obviamente, porque é a sua candidata.

A conclusão é que esta panóplia de comentadores e respectivas opiniões deveria, a justo título, ser contabilizada como propaganda eleitoral e não como exegese política. Afinal de contas, era preciso que o próprio jornalismo não fosse politicamente alinhado para haver, não comentário, mas análise. Porém, esse seria o drástico caso em que a máquina se revoltaria contra o próprio criador.

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