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Essa histeria chamada Ronaldo

Julho 7, 2009

No Barnabéu é natural que exultem, que se esmifrem e comprimam, para ver o seu ídolo agora em forma corpórea e não apenas em estampa de fim-de-semana. Mas o que é que nós temos a ver com isso?

Ronaldo é português, é bem certo. Nasceu na Madeira, certíssimo. A mãe de Ronaldo tem um típico ar de barraca portuguesa – não há dúvida. E depois? Ronaldo foi considerado o melhor jogador do mundo jogando num clube inglês; ganhou taças ao serviço desse mesmo clube; e atingiu a celebridade em virtude do mesmo. Isso faz dele motivo de orgulho e de identificação porquê?

Ontem num qualquer telejornal da SICN um anafado comentador regozijava com o facto de Ronaldo ter tido casa cheia no Santiago Barnabéu. E acentuou tal júbilo dizendo que era mais um recorde que Ronaldo batia, o de encher o Barnabéu numa apresentação de um jogador, rematando: é mais um que vem para cá! Mas para cá pr’á onde? Mais um recorde que vem para Portugal? Ronaldo enche um estádio em Madrid e é um recorde que nos cabe a todos festejar? Doido, estúpido, descerebrado. E os comentários foram sendo sistematicamente pontuados com este nível de idiotia mediática. Assim, estando um magote de gente com ar de pachorra à porta da loja dos Galácticos para comprar uma camiseta de Ronaldo por uns módicos 85 €, o jornalista salivava e truncava palavras com a emoção, falando de “uma verdadeira loucura”. Não haveria mais loucura na bicha para pagar o IRS numa qualquer repartição de finanças perto de si; mas ele lá perscrutou uma “verdadeira loucura” naquele ajuntamento. E assim sucessivamente.

Uma das perguntas que mais reiterada foi pelo rebanho de jornalistas que acampou em Madrid foi “porque viésté a ver el Ronaldo?”. E disto de jornalistas que embora já tenham passado por Espanha vezes sem conta, ainda dizem “y viésté ontem a ver Ronaldo?” a espanhóis argutos como demónios que conseguem perceber às primeiras que por detrás de um “ontem” rebarbativo se encontra um “ayer” jovial e transparente. E sim, vieram ontem e virão amanhã e depois e depois. Até que o grande Ronaldo se revele um logro; e isto não é o tal pessimismo invejoso de que tanto fala o José Gil – é apenas saber de experiência feita. No passado, receberam Beckham numa histeria semelhante – nunca com esta dimensão, verdade – e foi o que se viu. Figo, foi recebido por uma multidão ululante… e nunca mais jogou nem nada que se parecesse com o que jogara no Barcelona. Queiroz foi recebido com as entusiásticas palmas dos “aficcionados”, da torcida madrilena, e foi a desgraça que se viu. Desta maneira, assim como prevejo que o PSD + CDS irão ter maioria absoluta nas próximas legislativas, também prevejo que Ronaldo vai revelar-se uma fraude. O mundo do futebol é estranho e vive em permanente dissonância cognitiva: não percebeu que não é o jogador, mas sim a equipa. Ronaldo foi “RONALDO” no Manchester, assim como Mourinho foi “MOURINHO” no Chelsea. De resto, acabou.

Talvez, colocado perante a evidência de que não é divino, o novo Ronaldo quando novamente questionado sobre o melhor livro que leu (pergunta feita amiúde a jogadores de futebol que é tão cretina como perguntar a Eduardo Lourenço qual foi o melhor golo que marcou) não responda que foi a sua biografia. Por vezes, um abanão em direcção ao descentramento tem repercussões positivas. Veja-se o que aconteceu com a teoria heliocêntrica.    

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