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O descalabro

Julho 6, 2009

A famosa máxima de Nietzsche: Und wenn du lange in einen Abgrund blickst, blickt der Abgrund auch in dich hinein (loosely translated: E quando tu olhas demoradamente para o abismo, o abismo olha para dentro de ti). E a frase que a precede, talvez ainda mais relevante, mas menos conhecida (digo eu…) e que é qualquer coisa como “Quem combate monstros que se acautele para não se tornar num deles” (loosely translated). Estes poderiam ser belos epitáfios para a esquerda portuguesa nos dias de hoje.

Encontramo-nos na iminência de ver a direita catapultada para as belas e atraentes esferas do poder, de todo o poder, do poder que ainda não lhe cabia em sorte; ou pelo menos, ainda não totalmente. Estamos à beira de ver a direita portuguesa apoderar-se de uma assentada do poder parlamentar e autárquico. Na Europa – essa ilha prodigiosa que foge aos destinos do mundo como o conde Dracul foge do amor dos homens – a direita estendeu o seu reinado e os seus tentáculos de uma maneira inédita, como não acontecia desde antes de 45. Acho que as pessoas não notaram esse indecente pormenor: nunca, após 45, foi a Europa tão de direita como actualmente. Mas a Europa é um continente gelado que fica lá bem longe e que só se aproxima por ocasião de uma qualquer PAC de má memória ou de uma indesejável PESC. Deixemos portanto a Europa, o continente frígido e concentremo-nos na nossa pátria, a terra das patranhas, pátria patranheira sem eira nem beira… E nesta, o que se avizinha é o descalabro. A esquerda, à custa de tão elevado esmero a bater no PS conseguiu conceder todo o campo da política portuguesa a essa mesma direita que tanto execra. Estranho paradoxo, estranha forma de vida. Será esta a parta do drama, depois da farsa dos professores e demais grupos profissionais? É que recordo tempos em que a estratégia era sensivelmente a mesma, mas na altura era manipulada pelo PCP a solo. A história tem destas ironias e passava-se assim: o PCP derrubava os governos PS, geralmente com grande pompa e alarido. Vociferava-se (não, não é novo) libelos contra a política de direita do PS; discutia-se as similitudes entre este e a direita; e, invariavelmente, mandavam-se abaixo os governos PS para depois entregar maiorias absolutas ao PSD, sozinho ou em coligação. E a história irá repetir-se com a mesma infalibilidade da lei da taxa de lucro decrescente postulada há uns séculos por Marx (não liguem aos economistas que andaram este tempo todo a tentarem convencer-nos do contrário – são uns aldrabões!). Porém, não me interessa propriamente a taxa de lucro decrescente; antes, a repetição da história e como a seguir à farsa vem seguramente a tragédia. E ela está prestes a bater-nos à porta.

Havemos – e nisso a curta história da democracia portuguesa também tem sido pródiga em exemplos – de implorar pelo regresso de Sócrates e do que  presentemente seria apropriadamente designado de “socratismo” (não obteve um ismo talvez porque se confundiria com qualquer coisa vinda da filosofia clássica, senão teria direito a expressão equivalente a um… cavaquismo, por exemplo). Mas dizia, havemos de achar que afinal não era assim tão mau, como pensámos após Durão Barroso ter subido ao poder, ou depois de Cavaco ter tido a sua segunda maioria. A história repete-se. A esquerda apostou numa estratégia de risco, em tempos que não estão para grandes riscos. Apostou em tirar a maioria absoluta ao PS – no que será bem sucedida – e reforçar os seus espaços políticos – no que tem tido moderado sucesso – para que assim possa influenciar a política do governo. Hélas – e aqui entra novamente a história, essa madrasta -, com a sua estratégia de “campo minado” tudo leva a crer – e faço orgulhosamente futurologia, mas com a presciência que me caracteriza – que irá dar uma maioria absoluta à direita. Então, e não vem sendo já tempo de o PS assumir as suas responsabilidades sem utilizar os usuais bodes expiatórios da chamada “esquerda radical”? Até pode ser, e com certeza não se exime das responsabilidades no descalabro vindouro. Mas eu, que nada me move em defesa do PS e muito menos de Sócrates, gostaria que a esquerda não se congratulasse tanto cada vez que dá um tiro no pé. É desconfortável, e chega mesmo a ser esquizofrénico. É que, quer a nível autárquico, quer agora legislativo, a barragem de fogo que foi assestada ao PS terá como resultado o regresso da direita a TODO o poder estatal. Ó muito me engano, ou a esquerda não vai conseguir mobilizar o eleitorado para constituir uma maioria absoluta na Assembleia (com o PS dentro). Assim como a estratégia europeia foi um erro crasso, também em Portugal a esquerda vai mandar pela janela – e desta feita será de um quadragésimo oitavo andar – o bebé e a água do banho. Tudo isto seria de somenos se daqui a quatros meses não tivéssemos Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas a banhar os pezinhos nessa mesma aguazinha e a comer, qual Cronos, a cabeça do bebé.  

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One Comment leave one →
  1. Setembro 15, 2009 6:57 pm

    é uma análise justissima.
    a atitude do Bloco e do PC e o papel que tiveram na criação do clima de “condicionamento da democracia” foi das coisas mais deprimentes que me foi dado assistir na vida política portuguesa das últimas décadas. Pode ser que as pessoas cordem (um pouco…) no momento de votar.

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