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O Novo PSD

Junho 25, 2009

A falta de articulação em enunciados verbais decorre do facto de o emissor não acreditar bem naquilo que está a dizer. E isso é uma característica que Manuela Ferreira Leite partilha com Cavaco – mais ainda do que a obsessão com o rigor ou do que o economicismo de mercearia. O truque está, obviamente, em mesmo que seja mentira acreditar-se pia e internamente naquilo que se diz: algo em que Sócrates é mestre. Mas nem Ferreira Leite nem Cavaco dominam inteiramente a técnica. Por isso, em tempos áureos, escudaram-se na lei da rolha e nas escusas à comunicação social.

Curiosamente, aquilo que mereceu comentários menos benignos ao primeiro-ministro não teve eco, por parte dos comentadores arregimentados, em relação a Ferreira Leite. E no entanto, a Ferreira Leite de ontem foi, igualmente, uma Ferreira Leite contranatura. Raras vezes se tinha visto (se é que alguma) Ferreira Leite a pontuar o seu discurso do rigor com tanto sorriso e gesticulação; e estes, de tal forma estudados que surgiram sempre como esgares aflitos (quando não aflitivos) de alguém que tem que usar uma máscara durante aqueles minutos de suplício. Por mim, preferia o rosto esfíngico de Ferreira Leite àquele festival de espasmos mal controlados onde se nota que a senhora não se encontra nitidamente à-vontade.

E quanto à substância? Aqui os comentadores dividem-se entre aqueles que se preparam para os tachos no governo PSD que já adivinham (Ricardo Costa, Henrique Raposo, António José Teixeira, etc) e os outros. A linha divisória é tão nítida que, aos apoiantes, lhes permite sufragar a crítica de Ferreira Leite (mais a acusação…) sobre o negócio da PT sem se deterem no paradoxo que é, se o negócio for para a frente, e o PSD ganhar as eleições, será este último a poder manobrar a informação da TVI. Mas eis que, estupidez, isso já ele faz, dado que a TVI é de facto uma televisão absolutamente alinhada com o PSD e sobretudo com o CDS-PP! Porventura será por isso que Ferreira Leite vem pressurosamente denunciar o negócio. Noutro caso, não faria sentido, na medida em que Estado é Estado e nele manda quem se encontra nas rédeas da governação (embora isto seja mais complicado, mas por ora não interessa).

Ferreira Leite foi o mais vaga possível nas propostas, mas foi sucintamente objectiva na acusação à PT e ao negócio da Média Capital. Donde se conclui que a coisa mais grave que se passa actualmente no país ser os 30% a que o Estado teria acesso em caso de o negócio da PT ir para a frente. O desemprego? Ferreira Leite não disse, ou não sabe, ou não se preocupa… ou, hipótese para a qual me inclino, não é mais do que o necessário numa economia neoliberal aberta. Daqui até ao famigerado “trabalho para os portugueses” vai um passo.

Também não disse como iria estimular a economia, sendo que parece apostada em controlar o défice e não gastar nem mais um cêntimo em obras públicas. Nós sabemos que isto é só retórica, e por isso é que surgem as frases mal articuladas. Sintoma? Sem dúvida. Basta atentar na parte em Ferreira Leite foi questionada sobre o BPN e o envolvimento de Dias Loureiro: sucederam-se frases desarticuladas em catadupa. Mas onde as coisas começam a soar a falso é, pese embora o zelo aforrador dos dois émulos de Salazar (Ferreira Leite e Cavaco) nós bem sabemos que os seus coadjuvantes – os Portas e os Santanas – são pródigos em gastar à tripa-forra. Não convém, quando se trata de governos PSD, ficarmos muito ofuscados pelo discurso dos líderes, porque são os seus sequazes que nos devem meter medo. E esses, temos já experiência que chegue, não se poupam a desmandos. O caso Santana Lopes é paradigmático. Faz obra. Boa ou má é irrelevante para o argumento. Mas não se coíbe de gastar o que tem e o que não tem. E isto desde os tempos da pala do Sporting.

É por isso que o PSD é um partido cheio de contradições internas, ambíguo nos seus traços e nas suas funções. Embora tenha sempre tentado salvaguardar-se através de uma imagem de rectidão e integridade dos seus líderes, na realidade esta tem sido apenas a “smoke screen” para a acção deletéria dos seus quadros. O PSD de Ferreira Leite não será diferente.

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