Skip to content

Iran regained

Junho 19, 2009

Os acontecimentos recentes no Irão mostram o quanto a islamofobia dos anos Bush era uma criação ocidental.

Durante anos fomos bombardeados (literalmente soterrados em falsa informação) com a noção que a democracia era uma impossibilidade teórica e prática nas comunidades islâmicas. Nomes sonantes (pelas falsas razões) como Huntington e Lewis tomavam a palavra por dá cá aquela palha para esgrimir os argumentos da incompatibilidade cultural entre um ocidente iluminado e um Islão atrofiado. A âncora desta retórica encontrava-se na constatação (putativa) segundo a qual os processos democráticos eram impossíveis nas terras onde medravam os sistemas teocráticos islâmicos. Com o cinismo correspondente, estas vozes e outras, embora de menor dimensão, espalhadas por esse mundo afora, reincidiam na crítica incendiária aos dois gigantes do Médio Oriente, o Irão e o Iraque. Encontrávamo-nos no tempo do eixo do mal, com as suas ressonâncias ideológicas de expedições medievais de purificação e pilhagem. Ao Iraque não coube melhor sorte do que a pilhagem por uma cáfila de fascistas oportunistas ajuramentados que decidiram vender ao mundo que se tratava de estar envolvido numa guerra infinita entre as forças do bem e as negras vontades do mal. Tal como no tempo das cruzadas, esta representação serviu à mil maravilhas para o programa objectivo que lhe subjazia: o roubo e a conquista.

Tivesse o bushismo permanecido mais um mandato, desta feita sob as peles nédias de McCain e Palin, e o Irão seria o objectivo seguinte. Tudo indicava nessa direcção. As provocações de Blair, as invectivas norte-americanas, a catalogação no eixo do mal, etc, etc. E nós tudo comíamos, com a mesma avidez com que achamos que a culpa da crise económica é do Estado.

Os falcões de Bush preparavam-se para mais um descalabro bélico, réplica da destruição iraquiana, sob o pretexto de que andariam a exportar a democracia. Mas salvo melhor aviso, parece que a democracia, lá para as bandas do Tio Sam e das roletas de Las Vegas, precisava era de ser importada, e que ao Irão, está bem patente, não dão os neocons lições de democracia. Da verdadeira, bem entendido. Daquela que mobiliza as massas e as une numa vontade comum.

Não espanta por isso, que aqui pelo nosso burgo, os acerados islamofóbicos da praxe, que tantas vezes se excitaram com a tese de que existe uma contradição entre democracia e estado islâmico, não tenham retirado as ilações que agora se impunham. Silêncio. Obviamente, que se perante o espectáculo de vontade popular que a última semana o Irão nos ofereceu se houvesse alguma destas lídimas personagens a repetir o mantra de Lewis e Huntington teria, suponho, o internamento garantido. E isto mostra também como as falsas consciências frutificam na nossa era da comunicação acelerada e como a ideologia é uma arma poderosa. É que, se alguém se lembrasse de aventar que certas crenças e valores associados ao Islão são incompatíveis com os valores ocidentais, bastava que lhe brandíssemos bem à frente dos olhos um cartaz com a frase “Where is my vote?”.

Enquanto na Europa avançada e mergulhada em valores ocidentais a abstenção cresce e o desinteresse por tudo o que não seja o bem-estar mais imediato é a única evidência de uma cidadania controvertida, no Irão, esse rogue state de gente incapaz de compreender a natureza do Ocidente, assistimos a uma lição de democracia… para esse mesmo Ocidente.  

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: