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O fim da teocracia iraniana?

Junho 15, 2009

Enquanto por esse mundo fora os telejornais de referência concentram-se nos acontecimentos em Teerão, nos nossos telejornais passam coisas com a dimensão estrondosa de a mãe do Martim, cachopa de meros 15 anos, ter entrado em greve da fome pela posse do seu filho entregue para adopção. Outros blogs, que agora não recordo, notaram a ausência quase concertada do tema reacção às eleições iranianas nos telejornais nacionais; e se não ausência, com certeza a míngua de atenção que elas têm merecido pelos veteranos da verborreia noticiosa. Difícil explicar, sem dúvida. Há razões que a razão desconhece, por isso eximo-me a comentar as ínvias razões que possam estar subjacentes a tal desatenção. Sobretudo quando as manifestações iranianas parecem não apenas pressagiar uma nova época para o regime teocrático de Teerão como uma nova época para a política no Médio Oriente. É certo e sabido que os dois países mais alienados e anatemizados pela velha administração Bush, e, paralelamente pela reaccionária regência israelita, são aqueles que maior potencial democrático apresentam no conspecto do Médio Oriente e dos países árabes. Estes dois países são na realidade apenas um, dado que o outro é simplesmente um projecto eternamente adiado: a Palestina. O outro, claro está, é o Irão. E a dimensão do protesto nas ruas de Teerão – mas parece que é extensível a outras cidades menores – é a manifestação objectiva dessa vivacidade democrática, ou, se quisermos, dessa capacidade de intervir politicamente nos destinos do seu país. Por conseguinte, e isso também aqui já foi referido, à apatia dos sonâmbulos eleitores europeus contrapõem os iranianos a sua vontade democrática. Até quando perdurará ela, eis a questão.

No post anterior salientou-se que Ahmadinejad não é mais do que o testa de ferro de alguém bem mais importante e influente. Esse alguém é o líder supremo Ali Khamenei. É ele que tem a última palavra em matéria de nuclear e igualmente em assuntos de defesa. Por isso, e repetindo, quando a administração Bush nos vendeu Ahmadinejad como o lunático de quem os destinos do Irão – e do mundo – dependiam estava basicamente a fazer uma manobra de diversão, tão a seu gosto. Se os protestos se mantiverem e Ali Khamenei se deixar impressionar por eles, é natural que exija uma recontagem dos votos. Cenário pouco provável, deste logo porque Ahmadinejad é a sua criação e é pouco verosímil que o criador opte por destruir a sua criação. Afinal eles são Islâmicos, e não católicos apostólicos.

Mesmo que comece a existir oposição de dentro do parlamento iraniano e da parte dos Ayatholas, é preciso que os dois órgãos supremos se ponham de acordo sobre a anulação dos votos desta eleição. Esses órgãos são, o já mencionado Ali Khamenei, enquanto líder supremo da Revolução Iraniana e os seus próceres, o Conselho dos Guardiões, composto pelos seis teólogos nomeados pelo…líder supremo Ali Khamenei; por outro lado, integram este Conselho seis homens de leis cuja obrigação é zelar pela imposição da sharia. São estes últimos nomeados pelo Chefe da Justiça que por sua vez é designado pelo…líder supremo. Quanto a equilíbrio de poderes, estamos conversados: uns ratificam sistematicamente os outros.

Por esse facto, o que se passa actualmente no Irão e a possibilidade de recontagem dos votos depois de Ali Khamenei ter aceite a vitória eleitoral de Ahmadinejad, possui implicações bem mais vastas do que o simples plebiscito do candidato moderado Mousavi. Implica, a acontecer, um descrédito irreversível da hierarquia teocrática. Caso Mousavi acabe por ser confirmado, teria que lidar com uma comunidade internacional que doravante desconfiará – ainda mais – da teocracia iraniana. Mas mais grave do que isso, a hierarquia teocrática perderá a face, e em grande medida a influência, perante o povo iraniano. É isto que está em jogo nos protestos iranianos; é isto que Ali Khamenei terá que ponderar. O risco é muito grande e o meu palpite, infelizmente, é que a opressão às manifestações populares irá endurecer e muito. Mousavi eventualmente não terá um final feliz bem como os seus colaboradores mais próximos. A teocracia iraniana aproveitará para reforçar o seu poder, entre outras coisas prolongar o mandato presidencial para mais do que dois; e finalmente, Ahmadinejad tornará ainda mais difíceis as conversações com os Estados Unidos, agora que estes mostravam abertura e vontade de dialogar.

O outro cenário, que se me afigura remoto e improvável, conduzirá a uma nova revolução iraniana, mas desta feita, uma revolução de sinal contrário à teocrática. Se Mousavi sair vencedor a teocracia tem os dias contados; e não porque Mousavi lhe seja particularmente avesso, que não é – mas porque o povo iraniano assim o exigiria. Seja como for, a expressão do descontentamento nas ruas das cidades iranianas é uma lição para outras (pretensas) democracias que vêem líderes como Berlusconi serem reconduzidos ao poder sem se questionarem sobre a fidedignidade dos resultados. Será que os italianos aprenderão alguma coisa com os jovens iranianos?

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