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No Irão não mandam os que lá estão

Junho 13, 2009

É pouco provável que não tenha havido fraude eleitoral no Irão. E é pouco provável que não venha a haver mais tumultos e manifestações de rua. E ainda mais improvável que estas não sejam esmagadas pela Guarda. Mas há uma coisa que não é assim de interpretação tão directa: Ahmadinejad não é o líder execrado pelos iranianos que nos pretendem vender aqui no nosso canto ocidental. O que não quer dizer que não exista um despotismo dos muhlas e dp seu líder Ali Khamenei. Aliás, o Irão é aquele caso engraçado em que quem dá a cara – Ahmadinejad – pouco poder tem. Por isso quando Bush atacava Ahmadinejad tinha em mente deixar a teocracia iraniana intacta, desde logo porque nunca a ela se referiu directamente (e pudera: ele próprio instalou uma teocracia nos Estados Unidos).

Há dois anos atrás quando se atravessavam as ruas de Teerão ficava-se com a nítida sensação de que existia um descontentamento latente. E outro que nem é assim tão latente. Um descontentamento manifesto nos testemunhos dos comerciantes e sobretudo pela voz de uma burguesia ascendente, possuidora de uma educação bem para além dos ensinamentos corânicos e das disparatadas regras da sharia. Por outro lado, muitos eram os “buracos” no sistema e, nem a “lei” era tomada assim tão a sério, nem o estado controlava tão eficazmente a vida dos cidadãos.

Assim, era possível encontrar e aceder à internet em inúmeras lojas do centro de Teerão; e da mesma forma era possível estar informado sobre o mundo. Não raras vezes encontravam-se jovens que falavam um inglês impecável e o centro de Teerão está muito longe de ser Kabul. Comércio a perder de vista e pessoas a comprarem, com poder de compra e escolha como nas capitais europeias.

Dito isto, o Irão é, para além de uma teocracia, um regime patriarcal. Uma coisa geralmente implica a outra, é bem verdade. Mas se os jovens de Teerão estão fartos de um tal regime, já desconfio que a maior parte dos homens esteja. Num regime onde o poder dos homens é perfeitamente demarcado em regras religiosas e, sobretudo, nas instituições da sociedade alargada, é crível que esses mesmos homens queiram garantir a permanência dessa mesma hegemonia.

Por esse facto, não é de negligenciar que Ahmadinejad tenha de facto o apoio de uma grande parte da população iraquiana – e mais que a divisão entre província e cidade (que é obviamente operativa) talvez a clivagem interessante seja aquela que se define entre um poder de subjugação masculino e uma obrigação de sujeição feminina.

Estaríamos portanto perante uma República dos Homens. E seria interessante verificar qual o impacto do género no voto iraniano.

Todavia, não significa isto que os resultados eleitorais não tenham sido manipulados e adulterados. Tudo leva a crer que assim foi. Significa, no entanto, que existem, mais do que noutras ditaturas, razões estruturais para plebiscitar o despotismo dos clérigos.

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