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A paralax view, sem view

Junho 9, 2009

No debate ontem na RTP sobre o chamado “rescaldo das europeias” reiterou-se uma ideia que merece ser salientada e analisada. Prende-se ela com o discurso erróneo da esquerda que vê nestes resultados uma penalização das políticas de direita. Das políticas de direita, note-se; posto que se se aventasse a possibilidade de uma penalização dos partidos de direita a análise seria para além de errónea, alucinada. Donde se utilize um artifício: a ideia segundo a qual o eleitorado penalizou os partidos socialistas pela sua colagem à direita e, obviamente, pela prática de políticas de direita. Neste sentido, ouvem-se velhos dichotes como “o original vale mais do que a fotocópia” ou, o mais contemporâneo, “as pessoas preferem o original aos clones”. E o que é curioso é que eles, os dichotes, são matéria para glosa tanto à esquerda como à direita dos ditos partidos socialistas. Só isto já constituía razão suficiente para reflectir.

O artifício mencionado nem sequer é difícil de desmobilizar: a direita, pese embora a abstenção crescente, ganhou em toda a linha; logo é pouco crível que se possa daqui inferir que o eleitorado europeu tenha pretendido penalizar as políticas de direita. Mais. Não só não quis penalizar as políticas de direita, como se deixou, quase num estado de absorvida catalepsia, encantar (no sentido mágico do termo) com o discurso do défice, do despesismo e da perda de soberania. Porque foi basicamente isso que lhes foi vendido nos diversos contextos europeus onde o eleitorado escolheu caucionar os velhos neocons. E nisso tem toda razão Mário Soares quando hoje refere a décalage entre esta Europa e os alicerces da obama-mania. Enquanto de um lado os cidadãos escolheram uma nova postura, mais alerta aos problemas das desigualdades, das injustiças e contrária ao açambarcamento oligárquico de recursos, deste lado, os cidadãos escolheram reiterar o seu voto de confiança absoluto nos mesmos que deram o aval à voragem neoliberal. E eles aí estão – sólidos e destemidos.

A esquerda, a verdadeira esquerda, tem culpas no cartório; e dessas não se livra ela. Bem pode esgrimir os argumentos estafados da fotocópia e do original, porque a realidade nua e crua é que na hora da escolha os europeus também não se reviram nos seus projectos emancipatórios. E se o discurso do original e da fotocópia pode encher de orgulho aqueles a quem incumbe garantir a veracidade do original – a verdadeira direita, a neoliberal-cristã – compreende-se menos que seja motivo de regozijo para a esquerda – a verdadeira esquerda, a socialista radical. Sucede que a preferência pelo original faz lembrar o drama de Weimar quando a retórica do “verdadeiro” se encontrava ao rubro. E deu no que deu. Neste momento particular dá que pensar, perante as evidências de uma crise gerada pelos figurões que agora receberam a bênção dos europeus, o que é que afinal esses mesmos europeus extraíram dessa experiência. Nada ou muito pouco, obviamente.

Pode ser traçada uma analogia (talvez um pouco forçada) entre o resultado das eleições e o BPN, e da mesma forma, com as atitudes da esquerda. No rescaldo das falcatruas financeiras parece que o maior culpado é Vítor Constâncio, o regulador. De repente, saíram de cena os administradores – onde é que eles estão? São entrevistados pelos jornalistas? Aparecem no telejornal da TVI? – e somos bombardeados com a “presunção de culpa” do governador do Banco de Portugal. Até Nuno Melo, em mais um daqueles artifícios em que os membros do CDS-PP são pródigos, desviou a sua sanha justiceira dos prevaricadores para o regulador. Bem à maneira da democracia-cristã a culpa é sempre do Estado. E a esquerda faz coro. Da mesma maneira, e recorrendo a uma analogia ainda mais forçada, ouve-se Pedro Rolo Duarte, sentado numa cadeira gentilmente cedida pelo canal público de televisão, num programa que faz o epíteto “tiazoca” ganhar contornos de filosofia do ser (Fala com Elas, de seu nome), dizer que os portugueses são particularmente atreitos a estarem “ao colo do Estado”.

To cut a long story short, o que pretendo salientar é que a vitória da direita foi construída sobre um discurso contra o estado, a intervenção deste e o poder regulador do mesmo. Discurso um tanto ou quanto esquizofrénico quando somos convocados diariamente a reapreciar a necessidade de regulação, de qualquer regulação, desde a do mercado, passando pelas instituições que administram a justiça, até ao sistema de ensino. Quando na realidade somos confrontados quotidianamente com a impossibilidade de continuarmos numa espiral (mortal) desreguladora…

Que esta retórica funcione é sinónimo que os europeus engolem a forma mais paradoxal de fazer política sem sequer pestanejarem. E onde reside esse paradoxo? No simples facto de os críticos da regulação estatal pretenderem sistematicamente apoderarem-se do, para falar “althusês”, aparelho (ideológico) do estado. Esta contradição vai mais longe: são justamente aqueles que mostraram ter menos respeito pelo projecto europeu – Berlusconi à cabeça – que viram os seus delegados políticos serem catapultados para o Parlamento Europeu. O caso da lista Berlusconi é a este respeito ilustrativo: haverá maior desrespeito perante a instituição da democracia europeia do que nomear uma lista de modelos fotográficos? Se a esta juntarmos a eleição da filha do presidente da Roménia, a Paris Hilton do Balcãs, então temos um retrato fiel do que quer e como pensa o eleitor médio europeu. E por favor não me venham dizer que os europeus quiseram penalizar as políticas de direita dos governos socialistas.

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