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Moral e bons costumes

Junho 8, 2009

Ferreira Fernandes, um plumitivo do mais alto gabarito, mostrou-se incomodado com a revelação das fotografias da Villa Certosa e das orgias de Berlusconi. Estranha bitola, esta de Ferreira Fernandes que não se mostra nada agastado com o facto de Berlusconi ter censurado as fotos e em Itália; e tão-pouco, o que ainda me parece mais estranho, que um só homem o possa fazer e ainda se falar de democracia no país de Dante.

Logo de seguida, e porque não há uma sem duas e, fiel aos ditados, ainda aparecerá uma terceira, vem Fernanda Câncio e revela-se apoquentada pelo artigo, aliás justíssimo, de Saramago sobre a “a coisa” Berlusconi. Passou despercebido a esta outra plumitiva o artigo bem mais contundente de Miguel Mora que tem por título Anatomia de Berluscolandia publicado no mesmo El País que deu à estampa a “coisa” de Saramago.

Descontem-se as exortações à moral e bons costumes que ambos os plumitivos são pródigos. Tão pródigos que chegam a dar vómitos. Atente-se antes no olhar selectivo com que os dois brindam Saramago com o seu moralismo condescendente. E se fosse só isso estaríamos perante mais um caso de “onde está o meu ódio de estimação ou como alvejar Saramago sem sair da cadeira de pretenso jornalista”, espécie de émulo de “Onde está o Wally” para democracias senescentes e grupelhos de fiéis amigos. Mas não é. O problema é que a reverência subjacente aos preocupados comentários alinhavados por estes dois jornalistas só é comparável à admiração caquéctica que o nosso Pacheco Pereira devota ao Cavallieri. Esta sim, um primor de coerência e de rectidão quando se pensa que PPereira é um dos últimos paladinos contra a manipulação da informação mediatizada. Até porque invocar Berlusconi em assuntos de ética é o mesmo que invocar o Marquês de Sade para assuntos de castidade.

E, em última análise, a discussão sobre a moral jornalística é um empecilho não despiciendo às leituras que devem ser extraídas do reinado Berlusconi. É por que esse é de facto o mal menor perante a enormidade que é a berlusconização. Quem não tiver isso bem presente, é o mesmo que estar a salvaguardar as purgas estalinistas sob pretexto de que é necessário proteger a “liberdade individual”…do líder.

Pensando bem, o raciocínio moralista levar-nos-ia por caminhos bem infaustos e ínvios. Razão tem portanto Miguel Mora ao colocar a pergunta sacramental: la pregunta no es lo que pasa o ha pasado en Villa Certosa, sino lo que habría ocurrido en Estados Unidos si se hubiera sabido que Obama ha pasado las vacaciones de Navidad con 30 vedettes de 18 años y sin su mujer, o en Alemania si se descubriera que Angela Merkel veranea con 30 gigolós macizos”.

É isso mesmo. Que Ferreira Fernandes ou Fernanda Câncio não tomem isso como condição sine qua non para julgar da imoralidade da revelação da vida privada de Berlusconi, diz muito do que se passa nestas cabecinhas. É uma sistemática confusão entre o que é “apropriado” e o que é “necessário”. Reparem que a direita raramente se comove com estas dicotomias e frequentemente investe sem rebuço no segundo termo. É esta esquerda parda, mal sintonizada, com dificuldades de identificação ideológica que normalmente se enterra nestas convulsões da moral apriorística.

A berlusconização é um fenómeno preocupante. A leitura do artigo e Miguel Mora com o seu detalhe humorístico dá disso conta. Foi também essa mesma berlusconização da Europa que se sagrou ontem vencedora nas eleições europeias. Por esse facto, é bom que existam testemunhos que a ponham a nu; que a mostrem tal e qual ela é: uma aristocracia plutocrata que gere os destinos da Europa. Estes paninhos quentes são de gente que não sabe bem ao que vem nem o que quer.  Depois não se admirem de o PS levar nos cornos.

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2 comentários leave one →
  1. TRalha permalink
    Junho 8, 2009 7:04 pm

    A Fernanda Cansi-o? Também a mim. É por isso que não a leio. Talvez seja de fazer o mesmo com o Ferreira Fernandes…

  2. Junho 8, 2009 10:46 pm

    Quer portanto o Nuno dizer que, desde que seja contra adversários que achemos de relevo, vale tudo?

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