Há limites para o disparate…ou não?

O PCP tem destas coisas: uma miopia agravada pela sua introversão progressiva. O que significa esta expressão verborreica e falsamente intrincada? Significa que o PCP limita-se a traçar a régua e esquadro uma linha divisória entre os maus dos imperialistas e os bons dos anti-imperialistas; e nisso não anda longe do maniqueísmo dos liberais conservadores.

O que deveria ser exigido ao editor e ao plumitivo era que nos explicassem exactamente o que defendem no Irão e no regime de Ahmadinejad? Se estão convictos que o Irão é uma espécie de bastião anti-capitalista então estão redondamente enganados.

(Numa das ruas centrais de Teerão, as vozes cantadas do muezines misturam-se com os sons surtidos que saem dos televisores de ecrã plano. À velha maneira dos bazares árabes, cada rua é especificamente dedicada a um tipo de comércio (lembrem a velha a Lisboa e as reminiscências de um tempo de mourama que nos legou ruas como a dos Correeiros ou a dos Fanqueiros, e por aí, haverá outras). Uma das maiores é exclusivamente dedicada à venda de electrodomésticos. É o capitalismo na sua expressão mais viva: o capitalismo consumista. E por lá se deslocam miríades de transeuntes, nas suas sóbrias vestimentas, e compram, e compram, como em qualquer grande capital do mundo ocidental (e já vem sendo tempo de atirarmos esta outra insidiosa divisória para o caixote do lixo). Nos passeios, jovens com ar cigano, expõem os seus DVDs piratas e alguns, cujas capas são mais atrevidas, onde uma perna de uma estrela de Holliwood sobressai na fotografia, estão semi-escondidos, tapados com folhas de jornal, mas que pedindo, são prontamente levantadas e as níveas trancas ficam ali à mão de semear. À mão, é como quem diz, que quanto muito ficam sujeitas aos cúpidos olhares dos homens que se passeiam de mão dada uns com os outros.

Há comércio a perder de vista. Aliás, se o capitalismo encontra um émulo à altura é a tradição comerciante árabe – ah, o velho Mediterrâneo. Mas porra estes não são árabes; nem gostam que assim sejam confundidos. Somos persas, diz-me a rapariga de dentes salientes enquanto se entretém a desenhar os belos caracteres pharsis no meu caderno de viagens (uso por vezes as folhas para limpar o cu quando não há papel higiénico – no Irão provou ser de grande utilidade).)

 Se está o PCP convicto que no Irão reina a liberdade e a decisão colectiva, então só podem estar ceguinhos.

(Apanhámos o comboio para Isphaan por volta das dez da noite. No compartimento que nos coube em sorte já se encontravam dois homens quando lá chegámos. Um tinha o ar rude dos trabalhadores de jorna e dormiu o caminho todo. O outro, estava bem escanhoado, falava algum inglês e possuía uma curiosidade difícil de satisfazer. Perguntou-nos quem éramos, porque estávamos no Irão, para onde é que íamos, o que é que procurávamos em Isphaan, se tínhamos amigos na cidade, etc. Sempre com a maior das delicadezas e até, julgo ter percepcionado bem, uma certa fleuma iraniana que nada tem a ver com a tradicional congénere inglesa, e que termina sempre a beber um chá sentado num banco de pele. Acompanhou-nos toda a viagem. À medida que íamos saciando a sua curiosidade, parecia ficar satisfeito e cada vez se interessava menos por nós.

O sol já rebentava por trás dumas colinas de pedra ocre. Viajáramos toda a noite e avistávamos agora a estação de Isphaan. No caminho, porque da estação para a cidade propriamente dita ainda distam uns bons quilómetros, passámos um complexo militar, onde, dizem, se encontram os famosos mísseis de médio-alcance do exército iraniano. Teríamos oportunidade de os conhecermos por diversas vezes nos interlúdios permanentes que a televisão iraniana nos oferecia com propaganda militar; até durante os programas infantis da manhã. Mas dizia eu que estávamos a chegar a Isphaan. O comboio reduzia a velocidade e  as pessoas preparavam as suas bagagens para sair. O homem que dormira todo o caminho acordou estremunhado, levou as mãos à cara como se elas contivessem água e esfregou-a vigorosamente. Depois, pegou na trouxa e despediu-se cordialmente. O nosso outro companheiro de viagem já se encontrava a pé e tinha a cabeça fora da janela. Quando assomámos à porta do compartimento cumprimentou-nos sorridente.

Fomos encaminhando-nos para a porta. O peso e o volume das bagagens dificultavam a deslocação no corredor que entretanto se enchera do vozear de homens, e só de homens, porque as mulheres viajam em carruagens separadas. O nosso companheiro, que tantas e tantas questões nos tinha colocado, não tinha bagagem. Por isso desceu do comboio com as mãos nos bolsos enquanto arrastávamos as sacolas para o cais onde se começavam a juntar as famílias que tinham vindo receber os seus familiares. O cais foi ficando vazio à medida que as famílias se juntavam e pressurosamente dirigiam-se para a saída. E nós também fomos nos deixando levar por aquele caudal de gente que lentamente se evaporava. Apenas o nosso companheiro de viagem ficou por ali, girando em torno dos postes como que a disfarçar o aborrecimento, com as mãos nos bolsos, e ainda hoje aposto que apanhou o mesmo comboio para voltar para Teerão. Afinal a sua missão estava cumprida: acompanhara-nos até Isphaan e pelo caminho ficou a saber a história das nossas vidas – nada a temer.

Que o regime de Teerão disponibilize alguém para controlar um grupo de passageiros estrangeiros diz bem da paranóia e, paralelamente, da eficácia com que as questões de segurança e controlo são assumidas.

Mais tarde, numa manifestação em prole do Hesbolah, seria abordado por um garoto que não teria para além de quinze anos. Dirigiu-se a mim num inglês perfeito, daquele que se aprende com as amas britânicas que ainda fazem serviço nas casas dos milionários da Quinta da Marinha, e perguntou: Sir, what is your propose in Iran? No meio do festival de lenços palestinianos e da gritaria dos miúdos que passeavam pela praça em formações militares (mas não tão organizadas que despertassem o temor dos incautos) aquela abordagem surgiu-me verdadeiramente inesperada. Expliquei que estava ali porque queria ver as mesquitas azuis antes que os americanos bombardeassem aquela merda. Ao que ele redarguiu que isso não iria acontecer porque o exército iraniano estava muito bem preparado e porque os iranianos eram um povo corajoso. Uns quinze anos bem endoutrinados, portanto.)

Porque insiste então o PCP numa versão tão patética dos acontecimentos? Porque não se informam; ou porque não se calam?  

O Novo PSD

A falta de articulação em enunciados verbais decorre do facto de o emissor não acreditar bem naquilo que está a dizer. E isso é uma característica que Manuela Ferreira Leite partilha com Cavaco – mais ainda do que a obsessão com o rigor ou do que o economicismo de mercearia. O truque está, obviamente, em mesmo que seja mentira acreditar-se pia e internamente naquilo que se diz: algo em que Sócrates é mestre. Mas nem Ferreira Leite nem Cavaco dominam inteiramente a técnica. Por isso, em tempos áureos, escudaram-se na lei da rolha e nas escusas à comunicação social.

Curiosamente, aquilo que mereceu comentários menos benignos ao primeiro-ministro não teve eco, por parte dos comentadores arregimentados, em relação a Ferreira Leite. E no entanto, a Ferreira Leite de ontem foi, igualmente, uma Ferreira Leite contranatura. Raras vezes se tinha visto (se é que alguma) Ferreira Leite a pontuar o seu discurso do rigor com tanto sorriso e gesticulação; e estes, de tal forma estudados que surgiram sempre como esgares aflitos (quando não aflitivos) de alguém que tem que usar uma máscara durante aqueles minutos de suplício. Por mim, preferia o rosto esfíngico de Ferreira Leite àquele festival de espasmos mal controlados onde se nota que a senhora não se encontra nitidamente à-vontade.

E quanto à substância? Aqui os comentadores dividem-se entre aqueles que se preparam para os tachos no governo PSD que já adivinham (Ricardo Costa, Henrique Raposo, António José Teixeira, etc) e os outros. A linha divisória é tão nítida que, aos apoiantes, lhes permite sufragar a crítica de Ferreira Leite (mais a acusação…) sobre o negócio da PT sem se deterem no paradoxo que é, se o negócio for para a frente, e o PSD ganhar as eleições, será este último a poder manobrar a informação da TVI. Mas eis que, estupidez, isso já ele faz, dado que a TVI é de facto uma televisão absolutamente alinhada com o PSD e sobretudo com o CDS-PP! Porventura será por isso que Ferreira Leite vem pressurosamente denunciar o negócio. Noutro caso, não faria sentido, na medida em que Estado é Estado e nele manda quem se encontra nas rédeas da governação (embora isto seja mais complicado, mas por ora não interessa).

Ferreira Leite foi o mais vaga possível nas propostas, mas foi sucintamente objectiva na acusação à PT e ao negócio da Média Capital. Donde se conclui que a coisa mais grave que se passa actualmente no país ser os 30% a que o Estado teria acesso em caso de o negócio da PT ir para a frente. O desemprego? Ferreira Leite não disse, ou não sabe, ou não se preocupa… ou, hipótese para a qual me inclino, não é mais do que o necessário numa economia neoliberal aberta. Daqui até ao famigerado “trabalho para os portugueses” vai um passo.

Também não disse como iria estimular a economia, sendo que parece apostada em controlar o défice e não gastar nem mais um cêntimo em obras públicas. Nós sabemos que isto é só retórica, e por isso é que surgem as frases mal articuladas. Sintoma? Sem dúvida. Basta atentar na parte em Ferreira Leite foi questionada sobre o BPN e o envolvimento de Dias Loureiro: sucederam-se frases desarticuladas em catadupa. Mas onde as coisas começam a soar a falso é, pese embora o zelo aforrador dos dois émulos de Salazar (Ferreira Leite e Cavaco) nós bem sabemos que os seus coadjuvantes – os Portas e os Santanas – são pródigos em gastar à tripa-forra. Não convém, quando se trata de governos PSD, ficarmos muito ofuscados pelo discurso dos líderes, porque são os seus sequazes que nos devem meter medo. E esses, temos já experiência que chegue, não se poupam a desmandos. O caso Santana Lopes é paradigmático. Faz obra. Boa ou má é irrelevante para o argumento. Mas não se coíbe de gastar o que tem e o que não tem. E isto desde os tempos da pala do Sporting.

É por isso que o PSD é um partido cheio de contradições internas, ambíguo nos seus traços e nas suas funções. Embora tenha sempre tentado salvaguardar-se através de uma imagem de rectidão e integridade dos seus líderes, na realidade esta tem sido apenas a “smoke screen” para a acção deletéria dos seus quadros. O PSD de Ferreira Leite não será diferente.

Allea jacta est

A quem vai favorecer a Nova Esquerda de Manuel Alegre? O voto de descontentamento com o governo de José Sócrates tem sido essencialmente canalizado para os partidos da esquerda, e dentre estes, especial destaque encontra-se reservado ao BE. Por isso, tornou-se consensual afirmar que o BE tem crescido à custa do esvaziamento do PS. Esvaziamento, quer na sua acepção numérica quer ideológica, dado que o eleitorado que virou as costas ao PS de Sócrates fê-lo porque não se revia mais no sua progressiva aproximação ao centro-direita. Perante esta movimentação de vontades e convicções, onde entra Manuel Alegre e a sua Nova Esquerda? Em princípio, o grande afectado com a emergência desta nova força política será o BE. Se este último tem crescido através da capitalização dos descontentes do PS, será provavelmente atingido agora que este eleitorado encontrou uma força centrípeta. É que apesar de descontentes com o PS, muitos temem ainda a radicalização política que auscultam no BE e no seu líder. Não são nem suficientemente contrários para saírem da esfera do PS, nem suficientemente apaniguados para lá continuarem empenhando para o efeito as suas convicções. E aqui medra o alegrismo.

A Nova Esquerda só é nova quando comparada à velha não-esquerda. Isto porque, logicamente, foi o BE que ocupou, de algum tempo a esta parte, o espaço político passível de ser representado por esse mesmo alinhamento político e ideológico. Qual será então o espaço de Alegre e da sua Nova Esquerda? Por paradoxal que pareça, Alegre será a tábua de salvação do PS de Sócrates. Se o BE rejeitou veementemente uma coligação com o PS de Sócrates, deixando este a navegar num mar de escolhos a quem a única salvação poderia ser o incipiente MEP, será Alegre a preencher essa lacuna, na realidade, esse vácuo, no jogo coligacional. E isto porque, seja pelo passado, seja pela sua estrutura organizativa, é mais plausível que Alegre se coligue ao PS caso este não venha a ter uma maioria absoluta, do que opte por fazer uma coligação com as forças de esquerda que se imponha como oposição ao bloco-central. Atente-se nas declarações de um dos porta-vozes ao referir que a Nova Esquerda “não tem medo de assumir o poder”, pressupondo-se assim que a velha esquerda estaria condenada a repeli-lo. Em caso de perda da maioria, mais que previsível, do PS de Sócrates, muito estranharia que Alegre fosse coligar-se a uma espécie de esquerda unida carregando assim o ónus de bloquear uma solução facilitadora da governação – ou da governabilidade como agora se repete até à exaustão. Por esse facto, o PS de Sócrates só tem a ganhar com a Nova Esquerda. Pela primeira vez aparece uma força política que compete directamente com o BE e que para crescer, assim como o BE fez ao PS, terá que convencer o eleitorado do primeiro a migrar para o seu seio. Até porque os descontentes do PS, aqueles que não se revêem de maneira nenhuma neste PS, já se encontram no BE. Por conseguinte, diríamos que a capacidade para convencer o eleitorado PS a migrar está praticamente esgotada. Mas mesmo que não esteja, as vítimas desta guerra calharão por igual ao PS e ao BE. Com o enfraquecimento do BE, deixa este de ser sequer parceiro interessante para coligações. A sua base de recrutamento ficará atrofiada e só lhe resta voltar-se ainda mais para a esquerda na senda de aumentar o seu eleitorado. Pela primeira vez iremos também assistir a uma guerra que estava adiada; não tanto por afinidades ideológicas, mas porque as bases de recrutamento complementavam-se: refiro-me ao PCP e ao BE. Com a emergência da Nova Esquerda as coisas não poderão ficar assim. Estes dois partidos vão ter que competir directamente, e adivinha-se, sobretudo da parte do PCP, uma luta sem tréguas.

Conclusão, a Nova Esquerda é o seguro de vida do PS e o adiamento eterno de um bloco maioritário de esquerda no parlamento.

Cuidado com os terroristas!

Unleashing a rabble of armed government forces on to the streets and claiming that all whom they shoot are “terrorists” is an almost copy-cat perfect version of the Israeli army’s public reaction to the Palestinian intifada. If stone-throwing demonstrators are shot dead, then it is their own fault, they are breaking the law and they are working for foreign powers.

When this happens in the Israeli-occupied territories, the Israelis claim that the foreign powers of Iran and Syria are behind the violence. When this happens on the streets of Iranian cities, the Iranian regime claims that the foreign powers of the United States, Israel and Britain are behind the violence.

Robert Fisk no Independent, a tal leitura obrigatória…

Genus proximum et (in)differentia specifica

Numa frase lapidar, o Eng. Mira Amaral, disse hoje de manhã tudo o que havia para dizer sobre a postura do PSD relativamente às próximas legislativas. Quando questionado sobre a razão de o PSD protelar a divulgação do seu programa partidário, respondeu, como quem não deve nada aos compadrios políticos, que se tratava de estratégia. Porém de uma estratégia com contornos muito particulares, para não dizer bizarros: adia-se a divulgação porque se irá passar o tempo a “dar cacetada em José Sócrates” (sic) e a não dispersar a atenção do eleitorado com minudências tais como alternativas para o governo do país, acrescento eu. Como argumento para uma tal estratégia não abona muito a favor da tal imagem de impoluta rectidão que bafeja a Dr.ª Manuela Ferreira Leite pelos dias que correm. Esqueceu-se, no entanto, e porque as independências posicionais não anulam as afinidades electivas, de acrescentar a razão de fundo que subjaz a esta dita “estratégia”. Suspeito que seja o facto de, no fundamental, não ser possível detectar diferenças entre o programa do PSD e o do PS. Consequentemente, o que menos interessa à liderança do PSD é dar o seu programa ao escrutínio da opinião pública com tempo suficiente para que esta se entretenha num exercício de detecção de simetrias políticas. Nada cairia pior num eleitorado que tem vindo a ser encantado com o canto das sereias da mudança.

E mais acrescentou o Eng. Mira Amaral, num acesso de lúcida frontalidade  tão pouco comum em comentadores e spinn doctors de todas as estirpes e jaez: Portugal é governado por um bloco de interesses financeiro-político. E mediático – acrescentaria eu.

Uma das coisas que o eleitor deve ganhar consciência é que, contrariamente ao que é propagandeado, revestido de pânico “nacionaleiro” e de Avé Marias pela vinda do apocalipse, Portugal não está a virar à esquerda. E isto não decorre logicamente do estafado argumento das políticas do PS serem de direita. Embora o sejam. Decorre directamente do facto de quem tem poder decisório neste país, seja a nível financeiro, seja legal, ser a direita. É a direita, e nela incluem-se sobretudo o PSD e o CDS-PP, que manda nas associações patronais; é uma cúpula de direita que preside aos destinos das associações de agricultores; é a direita que tem o pé bem fincado nas magistraturas; e é ainda a direita que monopoliza os “media” nacionais. Sim, é verdade: há uma pequena aldeia gaulesa que resiste, e essa são os sindicatos. Mas no contexto de uma inoperância cada vez maior dos direitos laborais e da flexibilização das regras do trabalho, estes  só possuem força em aparições esporádicas e em grupos muito determinados (que estão longe de serem os determinantes). Perante este panorama, os assustadiços do papão da esquerda podem bem dormir descansados.

Mas isto leva-nos por outros caminhos. A primeira coisa que devemos ter presente quando nos aproximamos de umas eleições é, consequentemente, que é a direita que manda em Portugal. E isto cingindo-nos ao período da chamada vigência democrática, porque mais para trás nem vale a pena discutir. Se assim é, então teremos que descontar todos estes avisos das Cassandras do status quo como ideologia e manipulação. E se a esquerda parece cativar o eleitorado, mormente enquanto catalizador do voto de protesto, não é menos verdade que o país é e continuará a ser de direita.

Ora, este país de direita, o país que tem poder e que decide quanto às coisas que verdadeiramente contam, apresenta fundamentalmente duas opções relacionais com o poder governativo estatal: ou de açambarcamento (caso em que o PSD e CDS se encontram no poder) ou de beneplácito (caso em que o PS governa). Por isso as políticas são fundamentalmente as mesmas. Mas enquanto o segundo sofre de problemas de margem de manobra (ideológica e operativa), no caso do primeiro a sobreposição entre os grupos de interesse é de tal forma perfeita que nem necessita de ter uma ideologia que o ajude a identificar-se no conspecto da ideologia vigente. Há um termo que agrada muito aos politólogos, mas que esconde, sob uma nuvem retórica, o seu valor analítico. Refiro-me ao catch all party. Neste sentido, o PSD seria o catch all party por excelência. Porém, ao contrário da intuição politológica mais banal, não significa isto que seja um partido particularmente aberto, onde todas as convicções, mais ou menos aplanadas, cabem, e onde a mecânica decisória seja orientada pela procura de consensos alargados. Bem pelo contrário. Os catch all parties dão-se ao luxo de dispensar a ideologia porque a coincidência entre eles e as estruturas hegemónicas (ideológicas e materiais) é tão perfeita que não necessitam de nenhuma identificação “forte” para a sua representatividade institucional. Daí que caiba às extremas-esquerdas e direitas o “ónus” do trabalho ideológico.

Iran regained

Os acontecimentos recentes no Irão mostram o quanto a islamofobia dos anos Bush era uma criação ocidental.

Durante anos fomos bombardeados (literalmente soterrados em falsa informação) com a noção que a democracia era uma impossibilidade teórica e prática nas comunidades islâmicas. Nomes sonantes (pelas falsas razões) como Huntington e Lewis tomavam a palavra por dá cá aquela palha para esgrimir os argumentos da incompatibilidade cultural entre um ocidente iluminado e um Islão atrofiado. A âncora desta retórica encontrava-se na constatação (putativa) segundo a qual os processos democráticos eram impossíveis nas terras onde medravam os sistemas teocráticos islâmicos. Com o cinismo correspondente, estas vozes e outras, embora de menor dimensão, espalhadas por esse mundo afora, reincidiam na crítica incendiária aos dois gigantes do Médio Oriente, o Irão e o Iraque. Encontrávamo-nos no tempo do eixo do mal, com as suas ressonâncias ideológicas de expedições medievais de purificação e pilhagem. Ao Iraque não coube melhor sorte do que a pilhagem por uma cáfila de fascistas oportunistas ajuramentados que decidiram vender ao mundo que se tratava de estar envolvido numa guerra infinita entre as forças do bem e as negras vontades do mal. Tal como no tempo das cruzadas, esta representação serviu à mil maravilhas para o programa objectivo que lhe subjazia: o roubo e a conquista.

Tivesse o bushismo permanecido mais um mandato, desta feita sob as peles nédias de McCain e Palin, e o Irão seria o objectivo seguinte. Tudo indicava nessa direcção. As provocações de Blair, as invectivas norte-americanas, a catalogação no eixo do mal, etc, etc. E nós tudo comíamos, com a mesma avidez com que achamos que a culpa da crise económica é do Estado.

Os falcões de Bush preparavam-se para mais um descalabro bélico, réplica da destruição iraquiana, sob o pretexto de que andariam a exportar a democracia. Mas salvo melhor aviso, parece que a democracia, lá para as bandas do Tio Sam e das roletas de Las Vegas, precisava era de ser importada, e que ao Irão, está bem patente, não dão os neocons lições de democracia. Da verdadeira, bem entendido. Daquela que mobiliza as massas e as une numa vontade comum.

Não espanta por isso, que aqui pelo nosso burgo, os acerados islamofóbicos da praxe, que tantas vezes se excitaram com a tese de que existe uma contradição entre democracia e estado islâmico, não tenham retirado as ilações que agora se impunham. Silêncio. Obviamente, que se perante o espectáculo de vontade popular que a última semana o Irão nos ofereceu se houvesse alguma destas lídimas personagens a repetir o mantra de Lewis e Huntington teria, suponho, o internamento garantido. E isto mostra também como as falsas consciências frutificam na nossa era da comunicação acelerada e como a ideologia é uma arma poderosa. É que, se alguém se lembrasse de aventar que certas crenças e valores associados ao Islão são incompatíveis com os valores ocidentais, bastava que lhe brandíssemos bem à frente dos olhos um cartaz com a frase “Where is my vote?”.

Enquanto na Europa avançada e mergulhada em valores ocidentais a abstenção cresce e o desinteresse por tudo o que não seja o bem-estar mais imediato é a única evidência de uma cidadania controvertida, no Irão, esse rogue state de gente incapaz de compreender a natureza do Ocidente, assistimos a uma lição de democracia… para esse mesmo Ocidente.  

Dilemas socráticos

É comum ouvir por estes dias que Sócrates está a fazer uma operação de charme e que a uma postura arrogante e brusca estaria a querer substituir por uma (falsa) atitude de concordância e diálogo. No fórum da TSF foi a litania mais reiterada dentre os testemunhos dos ouvintes pressurosos em maltratar o nosso primeiro. Contrariamente ao seu homónimo clássico, o nosso Sócrates não é muito dado a dialécticas preferindo atalhar caminho reclamando razão apriorística. Não se desse o caso de vivermos mergulhados num país de mentiras, mais fantasiado (mas não fantasista) do que o país imaginário de Alice, e qualquer pessoa constataria que do outro lado da trincheira se encontra um monstro de simpatia, bonomia e compreensão chamado Manuela Ferreira Leite. Mas a aparente inconsistência tem a virtude de remeter-nos para o fulcro dos diálogos socráticos, ou seja, ao obrigar-nos a escolher perante definições de uma mesma entidade aparentemente incongruentes, lança-nos em aporia. E dela, infelizmente, é que nunca mais saímos. Por isso, temos um partido da oposição a rilhar os dentes com acusações sibilinas de arrogância absolutista e de crueldade mongol ao nosso primeiro, quando o que tem para apresentar como cabeça de cartaz destacou-se em tempos como o paradigma nacional da sobranceria e do quero, posso e mando, mais conhecido por prepotência.

Se há assunto em que o velho ditado da memória curta tem cabimento é este relativo à comparação entre Sócrates e Ferreira Leite. Mas deve isto espantar-nos, quando Paulo Portas acusa as sondagens de serem meros instrumentos do governo, sendo que ele próprio foi o director de instituto de sondagens? Ele lá saberá, e a nós nada nos parece demasiado pérfido para que nos faça perder o sono. Veio moção de censura e ninguém (ou pelo menos eu) percebeu muito bem o que se censurou ao governo…para além da postura socrática, deste nosso Sócrates, que pouco tem de dialogante, ao contrário do outro que apenas queria demonstrar a nossa ignorância. E na ignorância ficámos todos perante o desconhecimento, agora agravado, do que seria uma alternativa do partido que apoiou a moção de censura, o PSD, levantada pelo CDS-PP. Ficámos, todavia, a saber que, no geral, não se trata de uma questão de políticas, mas sim de postura, dado que foi isso que apareceu repetido à exaustão pelos faustosos deputados do PSD e do CDS. Eles, coitados, que sempre se caracterizaram por uma postura humilde, bem figurada, à falta de melhor exemplo, no régio cartaz de campanha de Nuno Melo que parece dizer-nos Le Roi, c’est moi – e bem assim, acreditemos que seja o rei da falcatrua e do show-off. Pelo menos postura não lhe falta.

Encontramo-nos portanto perante um dilema: dois candidatos que não têm rigorosamente nada para oferecer se não as suas (más) posturas. Será uma batalha de posturas e não de titãs a que se avizinha. Mas será também uma batalha de artifícios. De um lado, Sócrates, abandonado pelas sondagens e pelo voto a tentar fazer uma operação de cosmética segundo a linhas enunciadas por António Vitorino: menos números e mais sentimento. Do outro, um candidato desesperadamente à procura de aprender a sorrir. É entre isto que o país vai escolher: beijinhos nas criancinhas e sorrisos apalermados, declarações ecuménicas e bonomia rasteira. O TGV e o desemprego são meros adereços perante estas questões de supina importância. O povo vai estar suspenso na incógnita dos centímetros de distância a que Ferreira Leite deixa as massas populares e saber se Sócrates conseguirá explicar às peixeiras do Bulhão o que foi o programa Novas Oportunidades, batendo assim Paulo Portas em ósculos e abraços num terreno que é tão do agrado deste último. Prevejo que estas vão ser as eleições do sentimento.

O fim da teocracia iraniana?

Enquanto por esse mundo fora os telejornais de referência concentram-se nos acontecimentos em Teerão, nos nossos telejornais passam coisas com a dimensão estrondosa de a mãe do Martim, cachopa de meros 15 anos, ter entrado em greve da fome pela posse do seu filho entregue para adopção. Outros blogs, que agora não recordo, notaram a ausência quase concertada do tema reacção às eleições iranianas nos telejornais nacionais; e se não ausência, com certeza a míngua de atenção que elas têm merecido pelos veteranos da verborreia noticiosa. Difícil explicar, sem dúvida. Há razões que a razão desconhece, por isso eximo-me a comentar as ínvias razões que possam estar subjacentes a tal desatenção. Sobretudo quando as manifestações iranianas parecem não apenas pressagiar uma nova época para o regime teocrático de Teerão como uma nova época para a política no Médio Oriente. É certo e sabido que os dois países mais alienados e anatemizados pela velha administração Bush, e, paralelamente pela reaccionária regência israelita, são aqueles que maior potencial democrático apresentam no conspecto do Médio Oriente e dos países árabes. Estes dois países são na realidade apenas um, dado que o outro é simplesmente um projecto eternamente adiado: a Palestina. O outro, claro está, é o Irão. E a dimensão do protesto nas ruas de Teerão – mas parece que é extensível a outras cidades menores – é a manifestação objectiva dessa vivacidade democrática, ou, se quisermos, dessa capacidade de intervir politicamente nos destinos do seu país. Por conseguinte, e isso também aqui já foi referido, à apatia dos sonâmbulos eleitores europeus contrapõem os iranianos a sua vontade democrática. Até quando perdurará ela, eis a questão.

No post anterior salientou-se que Ahmadinejad não é mais do que o testa de ferro de alguém bem mais importante e influente. Esse alguém é o líder supremo Ali Khamenei. É ele que tem a última palavra em matéria de nuclear e igualmente em assuntos de defesa. Por isso, e repetindo, quando a administração Bush nos vendeu Ahmadinejad como o lunático de quem os destinos do Irão – e do mundo – dependiam estava basicamente a fazer uma manobra de diversão, tão a seu gosto. Se os protestos se mantiverem e Ali Khamenei se deixar impressionar por eles, é natural que exija uma recontagem dos votos. Cenário pouco provável, deste logo porque Ahmadinejad é a sua criação e é pouco verosímil que o criador opte por destruir a sua criação. Afinal eles são Islâmicos, e não católicos apostólicos.

Mesmo que comece a existir oposição de dentro do parlamento iraniano e da parte dos Ayatholas, é preciso que os dois órgãos supremos se ponham de acordo sobre a anulação dos votos desta eleição. Esses órgãos são, o já mencionado Ali Khamenei, enquanto líder supremo da Revolução Iraniana e os seus próceres, o Conselho dos Guardiões, composto pelos seis teólogos nomeados pelo…líder supremo Ali Khamenei; por outro lado, integram este Conselho seis homens de leis cuja obrigação é zelar pela imposição da sharia. São estes últimos nomeados pelo Chefe da Justiça que por sua vez é designado pelo…líder supremo. Quanto a equilíbrio de poderes, estamos conversados: uns ratificam sistematicamente os outros.

Por esse facto, o que se passa actualmente no Irão e a possibilidade de recontagem dos votos depois de Ali Khamenei ter aceite a vitória eleitoral de Ahmadinejad, possui implicações bem mais vastas do que o simples plebiscito do candidato moderado Mousavi. Implica, a acontecer, um descrédito irreversível da hierarquia teocrática. Caso Mousavi acabe por ser confirmado, teria que lidar com uma comunidade internacional que doravante desconfiará – ainda mais – da teocracia iraniana. Mas mais grave do que isso, a hierarquia teocrática perderá a face, e em grande medida a influência, perante o povo iraniano. É isto que está em jogo nos protestos iranianos; é isto que Ali Khamenei terá que ponderar. O risco é muito grande e o meu palpite, infelizmente, é que a opressão às manifestações populares irá endurecer e muito. Mousavi eventualmente não terá um final feliz bem como os seus colaboradores mais próximos. A teocracia iraniana aproveitará para reforçar o seu poder, entre outras coisas prolongar o mandato presidencial para mais do que dois; e finalmente, Ahmadinejad tornará ainda mais difíceis as conversações com os Estados Unidos, agora que estes mostravam abertura e vontade de dialogar.

O outro cenário, que se me afigura remoto e improvável, conduzirá a uma nova revolução iraniana, mas desta feita, uma revolução de sinal contrário à teocrática. Se Mousavi sair vencedor a teocracia tem os dias contados; e não porque Mousavi lhe seja particularmente avesso, que não é – mas porque o povo iraniano assim o exigiria. Seja como for, a expressão do descontentamento nas ruas das cidades iranianas é uma lição para outras (pretensas) democracias que vêem líderes como Berlusconi serem reconduzidos ao poder sem se questionarem sobre a fidedignidade dos resultados. Será que os italianos aprenderão alguma coisa com os jovens iranianos?

No Irão não mandam os que lá estão

É pouco provável que não tenha havido fraude eleitoral no Irão. E é pouco provável que não venha a haver mais tumultos e manifestações de rua. E ainda mais improvável que estas não sejam esmagadas pela Guarda. Mas há uma coisa que não é assim de interpretação tão directa: Ahmadinejad não é o líder execrado pelos iranianos que nos pretendem vender aqui no nosso canto ocidental. O que não quer dizer que não exista um despotismo dos muhlas e dp seu líder Ali Khamenei. Aliás, o Irão é aquele caso engraçado em que quem dá a cara – Ahmadinejad – pouco poder tem. Por isso quando Bush atacava Ahmadinejad tinha em mente deixar a teocracia iraniana intacta, desde logo porque nunca a ela se referiu directamente (e pudera: ele próprio instalou uma teocracia nos Estados Unidos).

Há dois anos atrás quando se atravessavam as ruas de Teerão ficava-se com a nítida sensação de que existia um descontentamento latente. E outro que nem é assim tão latente. Um descontentamento manifesto nos testemunhos dos comerciantes e sobretudo pela voz de uma burguesia ascendente, possuidora de uma educação bem para além dos ensinamentos corânicos e das disparatadas regras da sharia. Por outro lado, muitos eram os “buracos” no sistema e, nem a “lei” era tomada assim tão a sério, nem o estado controlava tão eficazmente a vida dos cidadãos.

Assim, era possível encontrar e aceder à internet em inúmeras lojas do centro de Teerão; e da mesma forma era possível estar informado sobre o mundo. Não raras vezes encontravam-se jovens que falavam um inglês impecável e o centro de Teerão está muito longe de ser Kabul. Comércio a perder de vista e pessoas a comprarem, com poder de compra e escolha como nas capitais europeias.

Dito isto, o Irão é, para além de uma teocracia, um regime patriarcal. Uma coisa geralmente implica a outra, é bem verdade. Mas se os jovens de Teerão estão fartos de um tal regime, já desconfio que a maior parte dos homens esteja. Num regime onde o poder dos homens é perfeitamente demarcado em regras religiosas e, sobretudo, nas instituições da sociedade alargada, é crível que esses mesmos homens queiram garantir a permanência dessa mesma hegemonia.

Por esse facto, não é de negligenciar que Ahmadinejad tenha de facto o apoio de uma grande parte da população iraquiana – e mais que a divisão entre província e cidade (que é obviamente operativa) talvez a clivagem interessante seja aquela que se define entre um poder de subjugação masculino e uma obrigação de sujeição feminina.

Estaríamos portanto perante uma República dos Homens. E seria interessante verificar qual o impacto do género no voto iraniano.

Todavia, não significa isto que os resultados eleitorais não tenham sido manipulados e adulterados. Tudo leva a crer que assim foi. Significa, no entanto, que existem, mais do que noutras ditaturas, razões estruturais para plebiscitar o despotismo dos clérigos.