Deontológicas.

É sem dúvida nenhuma incaracterístico um país que fica semanalmente a salivar por notícias incriminatórias para um primeiro-ministro. Ou melhor: seria incaracterístico se os interesses e prioridades da política e do trabalho político a que todos somos chamados realizar em condições de pluralismo democrático não se reduzissem cada vez mais ao broche feito por uma secretária ao presidencial membro do representante do povo americano ou às tendências sexuais dos ministros de sua majestade, a rainha. As prioridades estão invertidas. Facto. E isso explica por que razão nos solidarizamos tão facilmente com um jovem jornalista que escreveu uma crónica desbocada no DN sobre o nosso primeiro-ministro e execramos o acto, mais que razoável, desse mesmo primeiro-ministro ao pretender defender a sua honra e processar o jornalista por difamação.

Uma tese ainda mais incaracterística, defendida com unhas e dentes por Daniel Oliveira, é a de que o primeiro-ministro, cumprindo as expectativas que o obrigam a uma postura de estado, deveria planar sobre estas coisas. Falaríamos de anjos e não de homens. E que eu saiba, o nosso primeiro está muito longe de caber na primeira acepção. Mais: a bem da sanidade política, não vejo porque razão, para além do pressupostamente louvável sentido de estado, deveria o primeiro-ministro pairar sobre os opróbrios que lhe são lançados. Por maioria de razão, e obedecendo a uma deontologia caldeada em séculos de profissão, deveria o jornalista respeitar a presunção de inocência do visado. Ou a moralidade nos negócios da política só deve caber aos excelsos incumbentes da razão de estado enquanto todos os outros se acham no direito de prevaricar e opinar a seu bel-prazer? Estranha concepção de liberdade esta que o Daniel nos propõe.

A liberdade jornalística deve ser tanto ou mais colocada em causa quanto a coadunação entre o ofício de primeiro-ministro e o homem que o habita diariamente. Primeiro, não deve entrar em nenhuma discussão como um pressuposto. Provem-me antes que os jornalistas não obedecem a interesses fora do mero exercício estilístico ou crítico, que não são manipulados por cliques com estratégias bem definidas, que vogam sim num espaço de liberdades autárcicas e vontades individuais, e eu disponho-me a tomar a ideia de liberdade jornalística como sendo mais do que um jargão, mormente estafado por essa mesma classe. Segundo, e corolário do anterior, a afamada liberdade jornalística não pode ser extrínseca a um objectivo para essa mesma liberdade. Mais uma vez, parece pressupor-se que liberdade para dizer o que lhe apetece será positivo em si mesmo, quando é justamente as consequências, os efeitos, dessa mesma liberdade que devem mensurar o seu grau de benefício.

Diz Daniel que a crispação do primeiro-ministro gera ruído. Novamente, tudo a bem da transparência inconturbada exigida pela razão de estado. Parece-me, ao invés, que é a falta de critérios jornalísticos que geram ruído, um ruído ensurdecedor, que nem esclarece nem alimenta uma discussão lógica; apenas funciona como agit prop. Se o jornalista quer assumir esse papel está no seu direito; mas então que seja claro e não caucione hipocritamente as suas intervenções por detrás de chavões como o de liberdade de expressão e afins.

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Polivocal

O discurso de Cavaco por ocasião do 25 de Abril foi igual ao homem que o proferiu: medíocre e insincero. Porém, por razões que a razão desconhece (e portanto ou vêm do coração ou do fígado) este discurso absolutamente inepto foi incensado por uma legião de jornalistas. Os comentadores do costume, as figuras partidárias da direita, teceram loas variadas ao discurso da figura presidencial; e esses estão no seu direito e usam apenas de razão estrutural típica dos homens do aparelho. Mais difícil é perceber a horda de arregimentados da comunicação social que lança encómios gritantes a Cavaco. Por outro lado, nada disto é assim tão complicado: Cavaco sempre foi uma criação dos jornalistas. Desde a exagerada deferência contida na exclusividade com que o trato professoral lhe era reservado até às mitómanas asserções sobre o self-made man e a sua escorreita dignidade e rectidão, tudo isso, e mais alguns elementos, não existem nem são verificáveis na pessoa real Cavaco Silva. Por isso não admira que um discurso sensaborão como o que foi proferido ontem na Assembleia da República se preste a uma infinidade de interpretações, leituras e sobreleituras, invenções e diatribes. É que os jornalistas da ordem recriam Cavaco. Perante uma figura tão plana, convencional, e sobretudo, convencionalmente cínica, os jornalistas sentem uma necessidade infrene de multiplicar o seu personagem de eleição. Por isso não existe apenas um Cavaco, mas múltiplos cavacos. Cavaco, na realidade, surge como o paradigma da heteroglossia por excelência, mormente quando glosado pela torpe trupe de jornalistas arregimentados, quando na realidade deveria apenas ser o exemplo acabado de diglossia.  

Micro-embustes

Há algum partido que devessemos tomar por ocasião dos festejos do 25 de Abril? Sim – sermos contra o crédito para as micro-empresas. O que é uma micro-empresa? Para além daquilo que o prefixo imediatamente indica, a micro-empresa é o salão de cabeleiro da esquina, o ginásio da musculação que fica no fim da rua, a boutique que enfeita uma rua decadente do centro da cidade, um restaurante à beira mar, etc, etc. Quem já observou com alguma atenção o comportamento típico de um dono de uma das famigeradas micro-empresas, não terá com certeza deixado de notar que usualmente pára o seu Mercedes ou BMW à porta da micro-empresa, sai do seu bólide com os óculos escuros da moda e dirige-se em passo estugado para os portões do seu empreendimento. Julguemos por momentos estes espécimes com objectividade. Na mais das vezes trata-se de empresas familiares, pai, mãe, e filhos adultos todos dão uma mãozinha para o negócio contribuindo assim para a renda e heranças familiares. Quando assim não é, a micro-empresa geralmente explora um(a) brasileiro(a) ou, mas isto em tempos idos, um cidadão proveniente do Leste europeu. Ora isto nem sequer implica que não se possa estabelecer uma relação de simbiose entre as partes envolvidas no processo. Não só pode, como é frequente acontecer. Significa no entanto que a micro-empresa se aproveita geralmente de mão de obra barata – muito barata – não cria riqueza para além daquela que é aproveitada pelo seu dono, não oferece emprego para além do estritamente necessário para as dimensões do negócio, e mais importante, não é substancialmente inovadora. Neste sentido, a micro-empresa para além da sua existência e dos serviços cobiçados por quem ao pé dela mora, pouco acrescenta à economia nacional. Na verdade, um tecido económico, como é o português, em que quase 80% das empresas são PME é um pantanal para a própria economia. Trata-se de um terreno de sanguessugas. Donde revolve-se-nos o estômago quando vimos uns senhores de umas corporações do comércio perorar por mais apoios estatais. Leia-se, mais dinheiro dos contribuintes. A sensação que eu fico é de estar a contribuir para mais uma casinha nos arrabaldes, mais um carro topo de gama, mais umas férias no Brasil, e por aí fora. Há qualquer coisa de obsceno na centralidade e ênfase que é colocada nesta exigência. Qualquer coisa que poderia bem ser resolvida numa inventariação dos bens de luxo do proprietário da micro-empresa e só depois, quando se concluísse que não havia mais património passível de ser alienado, se procederia ao apoio estatal. É que, como o nome indica, as micro-empresas deveriam fazer micro-negócios e não alimentar macro-luxos. Obviamente, que a administração estatal não tem capacidade para levar a cabo um escrutínio tão alargado. Por conseguinte, de tanto ecoar nas ondas hertzianas os reptos ao apoio dos coitados que gerem micro-empresas ficamos todos a acreditar que é medida que aproveita a todos e ao país. Desenganemo-nos.

Da liberdade

Regresso a Portugal; regresso ao blog. Regresso assumidamente solipsista, porque tomei a decisão de não mais escrever para o leitor (os poucos). O regresso a Portugal é sempre traumático. Este trauma inscreve-se quer na espinha da expectativa cívica quer na relutância das aproximações pessoais. Portugal é um país de espelhos…foscos. O que não reflecte é-lhe tão consubstancial que se reflectisse correria a pôr uma máscara como a personagem do fantasma da ópera quando se viu queimado pelo ácido. E isto soa a uma apropriação psicanalítica do país; algo que várias luminárias foram avisando que se tratava de escorregar rampa infindável abaixo. Pois eu acho que o país, todo ele deveria estar no divã!

Sou recebido por uma música que reza o seguinte: “filhos de uma pátria ausente/à procura de um tempo transparente”. Deixemos de lado a pobreza da rima…uma pátria ausente? Mas que raio de merda, como é que no ano de 2009 da graça de nosso senhor ainda se fala em “pátria ausente”? Sobretudo porque não se trata do coro dos espoliados de África, nem tão-pouco os veteranos do Ultramar. Trata-se de uma banda contemporânea que anda para aí a fazer sensação nas rádios da moda, como a Radar, por sinal a minha preferida. Mudo de canal, mudo de caneiro, escorrego paulatinamente pelo encosto do divã. Um jornalista maltratado, sujeito a um processo por difamação da pessoa do nosso primeiro, diz umas abestalhadas tiradas num programa para encher os bolsos de mais uns oportunistas da nova ordem. O programa chama-se Governo sombra (mas poderia chamar-se carcaças ao léu) e o meritíssimo jornalista – que por sinal até ali veste toga – escoiceia uma frase mal parida a propósito das opiniões dos portugueses sobre a liberdade. Parece que 60% dos portugueses acha que o desemprego ameaça a liberdade, e o senhor plumitivo considera a opinião “pateta” posto que não vislumbra o que terá o desemprego a ver com a liberdade. Apenas um processo? Meu deus: façam-lhe um auto-de-fé, por favor!

O pequeno incidente integra-se num programa, documentário, forma de gastar película, o que lhe quiserem chamar que tem por eixo entrevistas conduzidas com estrangeiros sobre a temática de Portugal versus liberdade. Brilhante! À falta de sangue e violações o que se querem é mais ideias originais e, em certa medida, rebeldes, sobre o tema da liberdade. Passam desde empresárias Suecas que estão encantadas com a liberdade quotidiana, mas que desconfiam da liberdade das instituições até a uma senhora inglesa que diz que a justiça está podre e que ninguém se sente seguro. A esta contrapõe-se a opinião de um Brasileiro a trabalhar actualmente na TAP e que diz que nunca na vida se sentiu tão seguro: não sente nem ansiedade nem calafrios ao ver um sinal vermelho, passeia o cão sem tropeçar nos maltrapilhos das favelas que juncam os passeios do Leblon como dantes as naus dos portugueses juncavam os mares das índias. E estamos esclarecidos sobre a liberdade vista pelos estrangeiros, pessoas a quem interessa particularmente saber a opinião sobre a ingente questão: é Portugal um país livre? Pois eu acho que não. E nem sequer é pelo Sócrates, pelo jornalista de língua viperina, pelas pressões ou emasculações dos magistrados, nem tão-pouco pela Maddie enterrada ou rediviva nem sequer pelo Freeport – enterrado ou redivivo. Não. É porque o Pinto da Costa não está na prisão e porque o Durão Barroso tem o apoio do governo de Portugal para se recandidatar à presidência da Comissão e, last but not the least, porque o Jaime Neves vai ser promovido a general (e já tardava, cum corno!); ah, e obviamente porque o Barroso (um outro) decidiu lixar o Amor de Perdição. Actos elementares que atentam contra o meu sentimento de liberdade, seja lá ele qual for.