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Estórias

Março 6, 2009

Duas ruas acima, três rapazes de cara destapada entraram uma farmácia de arma apontada para os clientes. Roubaram o dinheiro que se encontrava na caixa, levaram a roupa dos clientes (as t-shirts) e até as alpercatas que não se encontravam demasiado danificadas. Isto segundo o relato da empregada da farmácia. Reconheceu-os e vai fazer queixa à polícia. 

Do outro lado, perto da praia, uns dez km daqui, um casal de jovens desaparaceu quando se preparavam para sair com os pais. Foram encontrados quatro dias depois, mortos. A rapariga fora violada e as análises revelaram três tipos diferentes de esperma . O rapaz tinha sido brutalmente espancado. 

A C. tem vinte e quatro anos. Deixou uma filha de quatro com os avós. Trabalha perto de Salvador. Sai quase todas as noites com homens mais velhos e chega tarde a casa. A C. gosta particularmente de homens que lhe paguem a cerveja que bebe em quantidades apreciáveis. Se, no conjunto, lhe pagarem um jantar, ainda melhor. A C.vê a filha uma vez por mês. Veio de uma cidade do interior à procura de fama e fortuna em Salvador. 

O mais impressionante de Salvador não é a sua baía de contornos intermináveis. Não é a subida no elevador Lacerda levando à velha arquitectura do centro de “todos os santos”. Nem sequer são as praias bordejadas de coqueiros e com areais a perder de vista. O mais impressionante da Bahia de todos os Santos é a Suburbana. Quilómetros a perder de vista de favela. Talvez trinta, quarenta quilómetros, ininterruptos, de casas clandestinas, sem qualquer urbanização, crescendo desordenadamente colina acima até à orla do mar. Os rostos são pesados. Mesmo a alegria histérica do Carnaval não ficou imarcescível nos rostos das gentes da Suburbana. E bem lá no alto, na Plataforma, um interregno mais urbanizado, com a sua pequena igreja de outros tempos a lançar sombra sobre um pequeno jardim, um teatro. Um teatro moderno, num edifício novo. Um teatro com capacidade para duzentas pessoas; com tela para projectar filmes e aulas de teatro dadas por um professor formado em teatro. As raparigas vão chegando para as aulas de teatro. Deixam a Suburbana pelo sonho de Brecht. E ela diz: “sempre gostei do teatro de Brecht, com suas preocupações sociais e personagens sofridos. Foi isso que me levou ao teatro…”. Verdade ou não, acrescenta que vários foram os alunos que chegaram a teatros mais prósperos, mais elevados, nas grandes capitais como o Rio ou São Paulo.  

Sentado a comer uma piza, à minha frente pára um carro da polícia. Já é noite e da esplanada onde me encontro, aqui em São Cristóvão, dá para assistir à cena como se tratasse de um filme de Hollywood. Dizem que é uma “abordagem”. A polícia leva dois jovens dentre do grupo de cinco ou seis, não sem antes vasculhar as imediações com uma lanterna à procura de droga, sobretudo numa velha casa devoluta. É fácil encontrar quem venda crack ou cocaína aqui.

Teatros da vida; vida de teatros. 

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