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A cidade intra-sitiada

Fevereiro 27, 2009

Os muros cobertos de espigões de ferro, de cacos de vidros ou de arame farpado, não sei se são suficientemente dissuasores para os ladrões, mas o que com certeza são é definidores de zonas exclusivas. Os prédios do centro têm sempre um gradeamento, dentro do gradeamento encontra-se normalmente um guarda – invariavelmente negro – e é frequente ver cancelas no início das ruas impedindo o acesso a quem não pertence ao complexo habitacional. Não são condomínios fehados – que também existem e proliferam nos suburbúbios junto às praias -; trata-se antes de ruas vedadas a estranhos, com guardas e cancelas, apenas franqueadas pelos moradores. Se o nome não figurar na lista, o acesso é vedado; e mesmo nos prédios mais comuns para neles entrar é necessário estar numa lista. Visitando amigos, é bom que se tenha sido previamente colocado na lista, se não fica-se cá fora.

Os muros perto das praias onde se alongam os condomínios fechados e as casas de férias são encimados por camadas de arame farpado e dir-se-ia protegerem instalações militares. As garagens têm gradeados até ao tecto, não vá algum ladrão mais esguio insinuar-se pelo topo. A cidade está sitiada por dentro. 

Não seria absurdo dizer que esta geografia de exclusões e zonas proibidas se repete por toda a cidade e pelas práticas urbanas.  O Carnaval é disso imagem. Luta de classes no Carnaval da Bahia. Os pobres dos bairros clandestinos ficam literalmente a ver a banda passar. Os chamados trios electrónicos – os carros onde as bandas desfilam na avenida – exibem belas jovens loiras para quem o olhar endurecido dos pobres deve sugerir admiração, mas que eu advinho ser despeito e raiva. Se isto soa a imagem preconceituosa é porque acredito que nas desigualdades sociais se instilam sentimentos básicos que podem ou não serem cooptados por uma versão política desse mesmo descontentamento. 

Falo com dois activistas do Movimento dos Sem Tecto. Estas conversas, quer seja no Brasil quer em Portugal, com intelectuais da esquerda, fazem-se sempre nas melhores esplanadas da cidade, neste caso da Bahia, lá bem no topo, perto do hotel Pestana Convento do Carmo cujos hóspedes apenas se deslocam em transporte providenciado pelo próprio hotel, nunca se arriscando a passerar as suas belas máquinas fotográficas pelos esconsos da Bahia. Para mim é tudo exagero e disparate, embora a minha amiga Italiana que veio à caça da sexualidade negra (mito ou realidade, que interessa quando de facto é isso que se busca?) acabou por ver a máquina fotográfica caçada por um carteirista. Mito ou realidade, a criminalidade, a insegurança da Bahia? Pelo sim pelo não só tiro a máquina cá para fora em zonas cheias de turistas…Mas falava dessa conversa, na bela esplanada do hispano-brasileiro, um espanhol que se terá apaixonado por uma baiana e que se instalou ali para os lados da casa onde Jorge Amado escreveu os Capitães da Areia; essa esplanada dá para um retrato postal da baía, talvez o mais belo. E era aí que discutíamos o problema da ocupação e da repressão policial nos bairros clandestinos. Fiquei cativado, ofuscado, estupefacto com o fulgor e energia da minha interlocutora. E isso enquanto beberricava um suco de maracujá. Claro que reconheci a constelação de termos – construção, hegemonia, ideologia dominante e outras muletas do post-colonial vide gramscianismo reciclado. Todavia, as palavras, estas palavras, ali, possuiam um cunho de verdade; verdade política, arrisco. 

À noite ouço na Globo que um membro do movimento dos sem terra foi assassinado e nninguém sabe por quem. A minha interlocutora da tarde contara-me uma história semelhante de uma activista do Movimento dos Sem Tecto ter sido baleada juntamente com a família. Ingenuamente, pergunto se as coisas mudaram com o governo Lula. Responde-me que algumas coisas sem dúvida, mas que o Lula é apenas o presidente e que quem manda no país não é o governo. Desde sempre o suspeitei. Afirmam que o povo tem que se organizar para reivindicar políticas de esquerda. Agora é a minha vez de lembrar que o Brasil JÁ tem um governo de esquerda. É ainda assim um governo burguês – respondem. 

Acabo de beber o meu suco de maracujá e conheço o Marcus e a mulher que me oferecem a provar uma especialidade da Bahia: o escondidinho. Uma delícia. 

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