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A doença infantil da democracia

Fevereiro 17, 2009

Por vezes interrogo-me se gostaria que a esquerda europeia governasse. Sendo eu de esquerda – em espírito e convicções avulsas – questiono-me se me sentiria bem com um governo de esquerda. Da esquerda moderna, intelectual, palavrosa e educada, educadíssima. A esquerda que lê muito, e fala muito, e informa-se, e discute, mas que não vive no mundo onde a maioria das pessoas vive. No fundo esta esquerda não é muito diferente da direita, embora por razões tangencialmente opostas. A direita sofre do afastamento com a vida quotidiana que lhe proporcionam os condomínios fechados, os círculos de eleitos, as festas e os saraus das escolas de luxo onde os putos aprendem pelo menos três línguas – o esperanto dos novos cosmopolitas. Depois os passeios de iate pelas ilhas gregas, os hotéis de luxo de Santorino ou as reais comezainas nos restaurantes parisienses, afasta inexoravelmente a direita da malta que vai ao Panças na Amadora. E não é que o Panças fique a desmerecer para qualquer exemplo da gastronomia chique; são simplesmente mundos diferentes.

Precisamos, portanto, de regressar à ideia de mundo. Assim percebe-se porque razão a direita se encontra a léguas dos problemas da governação, que são, tão simples quanto isto, os problemas da distribuição. Aliás, uma e outra deveriam equivaler-se, não havendo muito mais para além disso. Assim também se compreende porque é que a direita do alto da sua competência herdada e biografia de sucesso despreza o insucesso. E no entanto uma democracia só pode partir da ideia de insucesso, porque a sua missão última é a de correcção. Ora, a direita, elite alcandorada aos lugares fáticos da governação, nas mais diversas esferas organizacionais, odeia o insucesso. Havendo algo que caracteriza esta elite de babados auto-contemplativos esse algo será o embevecimento com que admiram o seu sucesso. O centramento no sucesso individual, a excessiva atenção devotada aos ecos e ressonâncias de uma história singularmente bem sucedida são traços essenciais para conviver pacificamente com a desigualdade – até pensá-la como necessária, como intrínseca ao funcionamento dos mecanismos de distribuição. Torna-se notório que esta nunca pode ser a premissa de uma democracia. E nesse sentido, sendo a liberdade individual aferida consoante a fasquia do sucesso individual, a equação é prontamente mobilizada e fala a linguagem do respeito e da admiração: sucesso individual equals liberdade, escolha, realização.

Esta formação ideológica que assiste toda atitude de direita é de facto uma matriz para qualquer pensamento ou opção política no interior quer da actividade decisora quer das posições discursivas. Ela revela uma certa infantilidade que corrompe o exercício da governação, logo da distribuição, em favor de uma postura, de uma condição naturalizada como verdade. O nosso mundo tem sido orientado segundo este princípio. De há décadas para cá, esta tem sido a matriz através da qual se torna compreensível a actual organização social. Não admira que por vezes se surpreendam nas declarações de políticos, lideres organizacionais e institucionais um distanciamento da vida comum que somos levados a pensar que, ao contrário da promessa da cidadania, vivemos em mundos diferentes, quase hermeticamente selados. Mas estará a esquerda imune a esta tendência?

Dificilmente se compreenderia a estrutura das acções e atitudes das pessoas sem ter em conta esta pulsão actual para o sucesso individual. Nenhuma análise séria da organização social das sociedades contemporâneas pode pretender iluminar as interacções sociais sem colocar como premissa este fenómeno. Especular-se-á se o desinteresse pela política, na sua dimensão processual, não residirá justamente no antagonismo existente entre um projecto pessoal fortemente alicerçado no sucesso individual e a reacção e responsabilização colectiva que o pensar e agir político exigem. Com efeito, não seria absurdo sugerir que o problema da falta de participação não reside na fraca ressonância da mensagem dos políticos, mas sim nos termos radicalmente diversos, porventura incolmatáveis, que separam as estruturas democráticas e as individualizantes. Paradoxalmente, a forma de aproximar políticos e população, a forma de gerar uma proximidade maior entre representação e representados é justamente a personalização e não o envolvimento participativo aos mais diversos níveis do poder decisório. Por isso é que o projecto Europeu é um projecto fundamentalmente falhado.

Fenómenos como Sarkozy e Obama são disso exemplo. Em ambos os casos operou-se uma forte aposta em torno de biografias nas quais o sucesso individual era assinalável e a sua personalidade foi erigida como arquétipo do homem político. Podendo ou não ser verdade, o que importa salientar é que, embora em quadrantes diferentes, a construção do seu valor político alicerçou-se nos mesmos factores. Curiosamente, são as democracias ditas populistas da América Latina que enjeitam este modelo. Hugo Chavez e Lula não suscitam adesões por causa do seu sucesso individual, mas por causa da mais populista das invocações: a identificação imediata com o povo. Por isso convém não confundir a biografia em termos de sucesso individual com o geralmente designado culto da personalidade. São fenómenos diferentes que apelam a disposições e investimentos afectivos também eles diversos.

A questão premente é a de saber se a democracia é compatível com uma ideologia do sucesso individual. A resposta só pode ser negativa. Desde logo porque não se pode entender a democracia sem o seu potencial redistribuidor – de recursos, de direitos, de lugares. Se a democracia não for isto, pouco lhe vale ser participada ou não que significa apenas uma estrutura institucional para circulação das elites. Donde nos teremos que confrontar com o seguinte paradoxo: é o projecto populista que enuncia o povo como receptor da indispensabilidade distributiva da democracia que melhor capacidade apresenta para arregimentar a população. Este projecto está em profunda contradição com o projecto individualista – seja à direita, seja à esquerda. O que ele pede, ao contrário do mais inócuo processualismo, não é a individualização do direito universal da eleição. Pelo contrário, este projecto exige um sacrifício: a desmobilização do projecto de sucesso individual, e a sua substituição pela imersão no colectivo. Tenho as mais sinceras dúvidas que a maior parte da esquerda europeia esteja interessada numa tal alternativa.

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2 comentários leave one →
  1. Fevereiro 19, 2009 12:49 pm

    ui, ui, ui, isto está muito bom, fazia ja uma declaraçao de amor se gostasse de apanhar na bufa

    essa ideia de elite que atribuis a direita nao é uma elite if u know what i mean, é uma anti-elite, a quem so falta o chicote para por a criadagem na ordem

    nem o salazar, monge asceta, quase monge asceta, cabe na vestimenta com que queres vestir a direita, há por ai muita direita que tem concepçao platonica de poder e elite, ie, um punhado de eleitos que abdicando dos seus interesses individuais contribui para o todo social

  2. nunocastro permalink*
    Fevereiro 22, 2009 6:35 pm

    apanhar na bufa, dlm…Isso nem parece seu dlm!!

    mas venha essa declaracao de amor, caramba!

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