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Archer pá fogueira

Fevereiro 13, 2009

Ao chegar à conclusão de que o mediador entre a estrutura e o indivíduo é a “internal conversation” não estará Margaret Archer a introduzir no seu esquema analítico aquilo que é evidentemente uma alusão a uma das estruturas fundamentais do judaico-cristianismo?

Harold Bloom atribuiu na sua famosa opus magnum o surgimento do sujeito à sua capacidade monologante, particularmente manifestada na literatura ocidental cujas origens podiam ser traçadas até à Bíblia. Esta capacidade, por sua vez, teria conhecido o seu ápice no célebre monólogo de Hamlet, doravante constituído em Gestalt de todo o trabalho literário subsequente. A forma como esta confere espessura ao sujeito romanesco torna-se então um aferidor na qualidade literária, ou seja, a medida que permite inclui-lo ou exclui-lo de um cânon. 

Archer, pelo contrário, vê na conversa interior uma evolução da reflexividade. A fórmula mais insistente nos trabalhos de Archer é no reflexivity; no society. O que pressupõe a reflexividade como uma constante antropológica ao invés de ser um atributo da modernidade. Todavia, se esta se encontra presente em toda a forma de agrupamento social organizado, não deixa por isso de conhecer uma evolução, de formas mais incipientes para as formas mais elaboradas e complexas das sociedades actuais. Por conseguinte, temos que a complexidade das estruturas sociais articula-se com a exigência de maior reflexividade, e como esta equivale a uma “conversa interior” implica que essa mesma interiorização se complexifique. Tendo em conta que a reflexividade é uma conversa interior, ela complexificar-se-á tanto mais quanto conseguir mobilizar um maior conjunto de linguagens, símbolos, e imagens. Daí que ela seja desigualmente distribuída, apesar de ser uma capacidade de todo e cada indivíduo. Segundo Archer, com o advento da modernidade a reflexividade é por assim dizer “excitada”. Estamos no domínio de Giddens e Beck. A modernidade é o locus da explosão reflexiva. Todavia, convém salientar que, se para estes últimos, a reflexividade é uma propriedade que assiste a indivíduos e sistemas, para Archer apenas os indivíduos são dotados de reflexividade. Ora esta restrição aos agentes da reflexividade coloca uma dúvida substancial na ideia de reflexividade epocal. Com efeito, se a reflexividade é transhistórica porque razão seria o seu grau de complexidade correlacionado com uma época (a modernidade)? Qual é então a legitimidade de um conceito como o de reflexividade epocal? Se, contra Giddens e Beck, ela não é sistémica mas antes individual, porque razão seria o seu aumento correlato a uma época e não, como logicamente a individuação da reflexividade exige, a uma actividade? Neste sentido, será difícil negar que Sófocles e Aristóteles eram indivíduos com capacidades reflexivas bem maiores do que a maioria de nós, e isto contraria a ideia de reflexividade dependente da estrutura social. Da mesma forma, embora integrados em estruturas sociais radicalmente distantes quanto ao seu grau de complexidade, não seria a reflexividade de um monge medieval, fechado num mosteiro e obrigado, por crença e ritual, a auto-examinar-se diariamente bem mais expansiva do que a reflexividade de um condutor da Carris (sem desprimor para o condutor da Carris)?

Archer (2007) Making our way through the World. Human reflexivity and social mobility

Archer (2005) Structure, Agency and the Internal Conversation

Archer (1997) Realist Social Theory. The morphogenetic approach.

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One Comment leave one →
  1. Fevereiro 16, 2009 3:48 pm

    E, já agora, como é que primatas aparentemente desprovidos de reflexividade, como alguns símios africanos, conseguem manter e fazer evoluir sociedades bem complexas?

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