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So what?

Fevereiro 12, 2009

Num debate público em que se enfrentavam Zizek – o mediático – e Bernard-Henri Lévy – a raposa – com uma audiência nova-iorquina ululante, o primeiro propôs-se enunciar os três pilares do comunismo futuro, encetando assim um debate sobre os seus prolegómenos. O que Zizek disse não diferiu – nem poderia – do que está escrito no final do Paralax View e entronca com o que Negri anda a berrar há uma boa dezena de anos. Temos assim os três pilares do comunismo estribados numa visão, que se pretende nova, dos comuns. Resumindo: protecção ambiental, porque a natureza é de todos e sobre todos actua; comunalidade da propriedade intelectual, em larga medida pela sua disseminação imparável através das novas tecnologias de informação; preocupação com a tecnologia genética e a manipulação do genoma humano a qual deve ser sujeita ao controlo colectivo.

 

A velha raposa não fez mais do que anuir, respondendo: se isso é ser comunista então também eu sou comunista. Acrescentando, em tom dubitativo: se isso é ser comunista. É claro que o pensamento de Zizek é bem mais complexo e, reiteradamente, é vítima das simplificações a que o palco o obriga. Mas também foi ele que escolheu o palco – devia saber que o enredo tem que estar conjugado. Ou não. Mas então não é a mensagem que vale, mas a estética. Não interessa.

Importa sim notar que os termos são de tal forma consensuais que, dando razão a Lévy, qualquer um pode actualmente afirmar-se comunista que, sendo esse o sentido do conceito, é apenas sinal de razoabilidade.

Constata-se que a maior parte das propostas de esquerda são ricas em ressonância, mas pobres em substância. Proliferam expressões como “ruptura”, “acontecimento”, “acto”, “afirmação de partido”, “verdade”, “partisanismo”, etc, etc. Porém, quando nos questionamos sobre a substância destas expressões as respostas são tristemente exíguas.

Não será exagerado identificar na hipótese bartlebiana de Zizek um impulso individualista. Afinal, Bartleby recusa…e fá-lo individualmente. A recusa de participar no jogo do capitalismo parece ainda assim algo que partiria de uma instrumentalidade individual. E é por isso que Zizek nunca chega bem a explicar como é que se aplicariam os três princípios acima enunciados que, quer queiramos quer não, estão carregados de normatividade. Não vale a pena perguntar a nenhum dos negrianos que por essas águas voguem porque a resposta será invariavelmente vaga e desarticulada. A forma que se arranjou para justificar esta falta de articulação foi agarrar nos preceitos deleuzianos e transformá-los numa metodologia. Desta forma caucionamos a desarticulação – ou a falta de ideias e horizontes alternativos materializáveis – com razões como sermos contra a fixidez, pela mobilidade, pela deslocação dos conceitos, anti cristalização programática, e outros que tais. Porventura este respaldo conceptual encobre simplesmente a magreza da retórica que anuncia a(s) alternativa(s), a qual nunca chega a ser concretizada.

Mas pode haver uma outra razão. Essa é que a esquerda, assim como o Bartleby de Zizek, abraça, no fundo, um modelo individual; e que em virtude de se encontrar emersa nesse mesmo modelo não consegue sequer vislumbrar uma sua transformação. Até porque, tornando consequentes as suas admoestações e críticas o que surgiria seria um modelo social nos antípodas do individualismo. Por exemplo, como concilia Zizek a ideia de sociedade de classes com a estratégia Bartleby? Se existe um antagonismo fundamental e este é a oposição de classes, como se coaduna a sua superação com a estratégia Bartleby? Sucede que as duas entidades são estruturalmente antagónicas e é aí que reside a incapacidade de encontrar, imaginar, invocar, o concreto, de uma alternativa.

É hoje por demais evidente que a crítica abunda e frutifica. Encontramo-nos numa situação em que estamos saturados de crítica. Múltiplas conferências, seminários, cursos, propõem diversas leituras da sociedade actual, muitas delas frutuosas outras nem por isso. Mas o que certamente não abunda é uma ideia clara dos fundamentos dessa mesma alternativa que a crítica se esgota em propor retoricamente. Os Grundrisse como lhes chamou Marx – e nem sequer significa que tenhamos que seguir o marxismo ou outro qualquer ismo – estão estranhamente ausentes.

De um lado, a balofice do indivíduo prometeico, sem limites, dono de uma alma criativa sem freio, de uma vontade dionisíaca, que a ideologia neo-liberal inventou. Também esta, quando confrontada com os estragos dessa mesma criação divina transformada num Frankenstein do século XXI se acanha perante tamanha incongruência. São no entanto lágrimas de crocodilo. O maior segredo do neoliberalismo perturba quando revelado: que todas estas promessas de liberdade sem fim e sem antagonismos para além dos micro-antagonismos da sociedade agónica do mercado competitivo, escondia na verdade os enraizados interesses de uma elite, monopolizadora e manipuladora que não conhece a ideia de responsabilidade colectiva.

 Do outro lado, os reptos ao “outro mundo possível”, ao corte, à acção, que nunca chegam a definir a ordem desse mesmo possível. No meio, a vida que se leva todos os dias com as suas imbricações, adesões e compromissos ao consumo, ao hedonismo, à anarquia, à descoberta pessoal; e é de notar que estes não são factores isolados: pertencem antes a uma dinâmica de articulações que confere sentido ao todo. Este todo é pregnante. E essa mesma pregnância detecta-se nos paradoxos que ele está constantemente a gerar. Por exemplo, os manifestantes anti-globalização deslocam-se para as manifestações contra o fórum mundial nas companhias de low-cost, essas mesmas que pertencem aos grandes conglomerados económicos que vivem da globalização neo-liberal. Por um lado enchem-se de brios e afinam a voz para as palavras de ordem por uma alter-globalização, mas antes de o fazerem terão que largar o seu pecúlio para olear a máquina da globalização neo-liberal. É de facto uma teia complicada. Quem se preocupasse com isso ou levasse um tal paradoxo a sério cairia obviamente na inércia. Nem isso minora a importância de tais manifestações e de quem a elas adere. Mostra apenas que a sociedade actual, hiper-diferenciada, permite que duas lógicas aparentemente irreconciliáveis possam conviver pacatamente sem com isso gerarem fricção.

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