A cidade intra-sitiada

Os muros cobertos de espigões de ferro, de cacos de vidros ou de arame farpado, não sei se são suficientemente dissuasores para os ladrões, mas o que com certeza são é definidores de zonas exclusivas. Os prédios do centro têm sempre um gradeamento, dentro do gradeamento encontra-se normalmente um guarda – invariavelmente negro – e é frequente ver cancelas no início das ruas impedindo o acesso a quem não pertence ao complexo habitacional. Não são condomínios fehados – que também existem e proliferam nos suburbúbios junto às praias -; trata-se antes de ruas vedadas a estranhos, com guardas e cancelas, apenas franqueadas pelos moradores. Se o nome não figurar na lista, o acesso é vedado; e mesmo nos prédios mais comuns para neles entrar é necessário estar numa lista. Visitando amigos, é bom que se tenha sido previamente colocado na lista, se não fica-se cá fora.

Os muros perto das praias onde se alongam os condomínios fechados e as casas de férias são encimados por camadas de arame farpado e dir-se-ia protegerem instalações militares. As garagens têm gradeados até ao tecto, não vá algum ladrão mais esguio insinuar-se pelo topo. A cidade está sitiada por dentro. 

Não seria absurdo dizer que esta geografia de exclusões e zonas proibidas se repete por toda a cidade e pelas práticas urbanas.  O Carnaval é disso imagem. Luta de classes no Carnaval da Bahia. Os pobres dos bairros clandestinos ficam literalmente a ver a banda passar. Os chamados trios electrónicos – os carros onde as bandas desfilam na avenida – exibem belas jovens loiras para quem o olhar endurecido dos pobres deve sugerir admiração, mas que eu advinho ser despeito e raiva. Se isto soa a imagem preconceituosa é porque acredito que nas desigualdades sociais se instilam sentimentos básicos que podem ou não serem cooptados por uma versão política desse mesmo descontentamento. 

Falo com dois activistas do Movimento dos Sem Tecto. Estas conversas, quer seja no Brasil quer em Portugal, com intelectuais da esquerda, fazem-se sempre nas melhores esplanadas da cidade, neste caso da Bahia, lá bem no topo, perto do hotel Pestana Convento do Carmo cujos hóspedes apenas se deslocam em transporte providenciado pelo próprio hotel, nunca se arriscando a passerar as suas belas máquinas fotográficas pelos esconsos da Bahia. Para mim é tudo exagero e disparate, embora a minha amiga Italiana que veio à caça da sexualidade negra (mito ou realidade, que interessa quando de facto é isso que se busca?) acabou por ver a máquina fotográfica caçada por um carteirista. Mito ou realidade, a criminalidade, a insegurança da Bahia? Pelo sim pelo não só tiro a máquina cá para fora em zonas cheias de turistas…Mas falava dessa conversa, na bela esplanada do hispano-brasileiro, um espanhol que se terá apaixonado por uma baiana e que se instalou ali para os lados da casa onde Jorge Amado escreveu os Capitães da Areia; essa esplanada dá para um retrato postal da baía, talvez o mais belo. E era aí que discutíamos o problema da ocupação e da repressão policial nos bairros clandestinos. Fiquei cativado, ofuscado, estupefacto com o fulgor e energia da minha interlocutora. E isso enquanto beberricava um suco de maracujá. Claro que reconheci a constelação de termos – construção, hegemonia, ideologia dominante e outras muletas do post-colonial vide gramscianismo reciclado. Todavia, as palavras, estas palavras, ali, possuiam um cunho de verdade; verdade política, arrisco. 

À noite ouço na Globo que um membro do movimento dos sem terra foi assassinado e nninguém sabe por quem. A minha interlocutora da tarde contara-me uma história semelhante de uma activista do Movimento dos Sem Tecto ter sido baleada juntamente com a família. Ingenuamente, pergunto se as coisas mudaram com o governo Lula. Responde-me que algumas coisas sem dúvida, mas que o Lula é apenas o presidente e que quem manda no país não é o governo. Desde sempre o suspeitei. Afirmam que o povo tem que se organizar para reivindicar políticas de esquerda. Agora é a minha vez de lembrar que o Brasil JÁ tem um governo de esquerda. É ainda assim um governo burguês – respondem. 

Acabo de beber o meu suco de maracujá e conheço o Marcus e a mulher que me oferecem a provar uma especialidade da Bahia: o escondidinho. Uma delícia. 

Porqui o samba nasceu lá na Bahia…

Acordamos com os sons quentes do samba e do kuduro. Nos corredores estreitos e penumbrentos que nos protegem da inclemência do sol, é um corropio de pessoas, crianças a brincarem, televisões a conversarem em línguas de novela, e mães que carregam os filhos ao colo, sopesando-os com carinho de berço. Saindo para a rua, deixando a penumbra do dédalo de corredores e varandas, é uma multidão de actividades que já acordam, fazem-se à vida e carregam homens e mulheres. Na rua os olhares das mulatas são franqueados com um sorriso, o canto do olho risonho e é o suficiente para abrir um sorriso recíproco cheio de dentes alvos e de promessas de sol.  Ainda mal o Carnaval se deitou e já começaram as correrias para os ônibus que levam ao centro da cidade. Velocípedes, carros e bicicletas passam de largo, numa cadência de mornas emprestadas do outro lado do Atlântico.

Verdade mesmo que toda gente tem o samba no pé e basta um batuque para dar início à ginga do corpo, que se alastra, de São Cristovão ao rio vermelho seguindo as pisadas aquáticas de Iemanjá. No caminho vão ficando rodízios e móteis e mesmo dunas de areias nívias vão de quando em vez fazendo a sua aparição. A avenida, acompanhada de palmeiras e a espaços salteada por bancas vendendo leite de côco. Um concerto de heavy metal destoa dos batuques africanos e dos passos sincronizados do samba. Vá lá saber-se o que leva os jovens a carregarem pesadas botas militares no país onde a alpercata até serve para inventar vestimentas. Na passerela, lá no alto do Pelourinho, desfilam os travestis com os seus vestidos emplumados e suas vozes gritadas. Ao lado vai passando a banda com trompetes e tambores, e é o som do tambor que abafa o dos trompetes, é sempre o som do tambor que se sobrepõe. E sim, é verosímil o Black Atlantic, pelo menos a crer nos batuques e nas origens africanas do samba, esse corpo negro, africano de fé e coração que até umas desajeitadas turistas polacas tentam imitar.

Ivete vai mudando de roupa no seu luxuoso camarote. Enverga uma túnica dourada e balança o corpo como uma odalisca no harém do sultão. Porém, não sem antes rezar, avé maria cheia de graça, com a família e os amigos, porque é preciso ter fé em deus e nos deuses antes de descer a avenida a cantar os seus mais conhecidos sucessos. Na banca do leite de côco, pousada na esquina da principal com a curva para o bairro de São Cristóvão,  lê-se, Jesus Cristo é o Senhor – arrependei-vos e lê-de o evangelho, e uma mulata que tem o cheiro do pecado colado às ancas segura num côco como as mães, mais cá em cima, perto do salão di sinukê e do cabeleireiro que promete em garrafais letras um Megahair, seguram nos filhos embalando-os na ginga do samba para que aprendam a sambar antes mesmo de saberem andar.

Na Bahia o Carnaval são sete dias!

Existem dois carnavais na Bahia. Um, massificado, gigantesca operação de marketing para as megabandas do momento. Neste Carnaval, aplica-se bem o refrão de Elis Regina “O Brezil não conhece o Brasil”. Tanto podia ser na Bahia como em Tóquio. É uma gigantesca aula de aeróbica com jovens de todas as cores e feitios aos pulos.  A multidão é compacta. Quase não nos deslocamos e o melhor é não oferecer resistência, deixarmo-nos ir com as marés de gente que desaguam bem no fim da Avenida. Na turba sufoca-se. Dezenas viram-se contra as paredes que ladeiam o desfile e urinam no meio da multidão. Quando vem a chuva (e ela chega sempre) a enxurarrada de pingos grossos e certeiros arrasta a urina, com a cerveja, com dejectos de toda a espécie. A multidão corre e dança no meio daquela lama que entretanto se vai tornando fétida. E mesmo assim continuam a chegar; aos milhares. Será mesmo provável que se encontrem no recinto e nas ruas circundantes mais de um milhão de pessoas. Depois vêm as brigas, os empurrões, os carteiristas que actuam em grupo e improvisam porfias para melhor poder enfiar os dedos ágeis dentro dos bolsos da audiência. Há uma violência latente que volta-e-meia explode: um soco assestado em alguém desprevenido, assim, sem mais nada, e aplica-se o velho adágio, no Carnaval ninguém leva a mal. Mas eis que vejo as ambulâncias passarem. Alguém levou a mal; alguém está mal…não interessa, a multidão quer é sangue; sangue e batida. Panis et circenses. Parece é que vai faltando o pão. 

(digressão sobre a arquitectura urbana da Bahia. Tirando o centro, velha herança colonial, a Bahia é um enorme, infindável, caos de habitações, sem traçado urbano, sem planeamento, sem lógica. As favelas intercalam bairros de alvenaria, mas que não deixam por isso de ser resultado dos méritos esforçados dos próprios habitantes. Bairros inteiros de casas autoconstruídas. E ficamos com a ideia que não poderia ser de outra forma. Que a única maneira de garantir uma habiação é serem os próprios a construi-la. São Cristovão nasceu assim. Por vezes tem manchas de favela, para logo ficar mais ordenado, mais enquadrado urbanamente, sendo tal coisa possível. No espaço de três ruas encontro quatro igrejas improvisadas: Jesus é o Senhor – lê-se nas fachadas de algumas. As igrejas improvisadas proliferam nestes bairros e a sua adesão é espantosa. Mas isso não impede que, contrariamente aos reptos dos puritanos pastores evangélicos, a população dos bairros da orla da Bahia não desça às suas avenidas para pular e dançar.)

O outro Carnaval é o da Bahia. Da Bahia mêmo! Onde desfilam as baianas com as suas saias alvas e turbantes estrelados. Onde se exibem os lutadores de capoeira numa ginástica mágica. Onde se ouvem os batuques em cada esquina. Onde se assiste às mulatas dançando o samba num ritmo frenético. Descobrem-se pequenos bailes nas traseiras das majestosas casas. Dança-se forró e samba. E é belo ver as mulheres da Bahia, pé prá frente, pé pra trás, tocando ao de leve os calcanhares, meneando as ancas ao ritmo da batucada. Porra que é belo. Os filhos de Gandhy (é assim mesmo que se escreve) passeiam as suas vestes heteróclitas pelas ladeiras do centro histórico da Bahia, aquele ao qual só se chega apanhando o elevador Lacerda, o Lacerda que está talhado na rocha e portanto é imorredoiro nas palavras do poeta. As mulatas vão enchendo as praças e não fosse a profusão de cores – das casas, das gentes, das crianças, do samba – dir-se-ia que era Lisboa, sem a sua tristeza nostálgica, essa tristeza a que demos o nome de saudade, e que o filósofo batizou de “saudade do futuro”. 

Converso com uma mulata bonita, doce e suave como o leito de um rio. Vai vagarosamente afagando os pés que começaram a doer de tanto sambar. É nova, muito nova. Conta-me que o seu sonho é visitar Portugal. Pergunto porquê. Não sabe a certo, mas vai acrescentando, deve ser muito bonito, ai sempre foi meu sonho. Pergunta-me se é maior que o Brasil. Rio e respondo que julgo que Portugal deve caber no comprimento da Avenida Paulista. Ela franze o nariz e julga que estou a brincar. Mas eu é que não tenho a certeza …Começa a ser o Brasil a desconhecer-se a si próprio. 

Sao Cristovao

O bairro de São Cristovão é um mosaico de cores… Bom na realidade é um mosaico onde predomina o negro. O lixo acumulado nos passeios é varrido pelas bátegas subitas que se abatem sobre os passeantes, desaparecendo cinco minutos depois repondo o calor e o sol. Os regueiros juntam garrafas e plásticos atirados desplicentemente para a rua pelos habitantes de São Cristovão. 

Música e barulho de gargalhadas; o beijú (não o beijo) comida tradicional de Salvador é vendido pequenos quiosques improvisados com cartão. Há muito movimento e o coméricio intercala cada construção clandestina, edifícios inacabados que se vão compondo lentamente…

Não há arruamentos,ou pelo menos o bairro é rasgado por uma rua principal asfaltada acompanhada por um rendilhado de caminhos improvisados. À noite os portões são fechados a cadeado e é por vezes necessário passar por dois ou três e destrancá-los até chegar a casa. São Cristovão tem água canalizada, centro de saúde, casa de bilhar e restaurantes abundantes em grelhados e farofa. Nas ruas os pequenos supermercados pontilham de lado a lado as desfeadas fachadas dos casebres. 

A música das estrelas do momento é copiosamente debitada para fora das janelas que dão para um corredor escuro. As gentes vivem entre o trabalho, a miragem da novela e as músicas inócuas de Ivete, Chiclete com banana, Netinho, e uma infinidade de bandas obscuras que aqui fazem as delícias das jovens adolescentes. Tem pouco a ver com os temas envolventes e coleantes de Caetano, Gil ou do velho samba. A bossa nova está morta e isso mesmo é reflectido nas ineptas letras de Ivette ou da banda Eva. No centro de Salvador, Ivette passa e atrás dela um cortejo de milhares de adeptos salta e empurra. Quando ela diz “voçê se fódeu” a multidão rejubila histericamente como se Ivette falasse a sua língua. Já não é mais “o Haitti não é aqui” porque assim de repente, dir-se-ia que sim, que é! Para dançar junto com Ivette e acompanhar a sua caravana é preciso pagar 1000 reais  e numa terra onde 80 %  são negros , eu só vejo brancos no cortejo da bela e desportiva Ivette.  Os negros fazem o cordao de seguranca. Voce se fodeu!

A doença infantil da democracia

Por vezes interrogo-me se gostaria que a esquerda europeia governasse. Sendo eu de esquerda – em espírito e convicções avulsas – questiono-me se me sentiria bem com um governo de esquerda. Da esquerda moderna, intelectual, palavrosa e educada, educadíssima. A esquerda que lê muito, e fala muito, e informa-se, e discute, mas que não vive no mundo onde a maioria das pessoas vive. No fundo esta esquerda não é muito diferente da direita, embora por razões tangencialmente opostas. A direita sofre do afastamento com a vida quotidiana que lhe proporcionam os condomínios fechados, os círculos de eleitos, as festas e os saraus das escolas de luxo onde os putos aprendem pelo menos três línguas – o esperanto dos novos cosmopolitas. Depois os passeios de iate pelas ilhas gregas, os hotéis de luxo de Santorino ou as reais comezainas nos restaurantes parisienses, afasta inexoravelmente a direita da malta que vai ao Panças na Amadora. E não é que o Panças fique a desmerecer para qualquer exemplo da gastronomia chique; são simplesmente mundos diferentes.

Precisamos, portanto, de regressar à ideia de mundo. Assim percebe-se porque razão a direita se encontra a léguas dos problemas da governação, que são, tão simples quanto isto, os problemas da distribuição. Aliás, uma e outra deveriam equivaler-se, não havendo muito mais para além disso. Assim também se compreende porque é que a direita do alto da sua competência herdada e biografia de sucesso despreza o insucesso. E no entanto uma democracia só pode partir da ideia de insucesso, porque a sua missão última é a de correcção. Ora, a direita, elite alcandorada aos lugares fáticos da governação, nas mais diversas esferas organizacionais, odeia o insucesso. Havendo algo que caracteriza esta elite de babados auto-contemplativos esse algo será o embevecimento com que admiram o seu sucesso. O centramento no sucesso individual, a excessiva atenção devotada aos ecos e ressonâncias de uma história singularmente bem sucedida são traços essenciais para conviver pacificamente com a desigualdade – até pensá-la como necessária, como intrínseca ao funcionamento dos mecanismos de distribuição. Torna-se notório que esta nunca pode ser a premissa de uma democracia. E nesse sentido, sendo a liberdade individual aferida consoante a fasquia do sucesso individual, a equação é prontamente mobilizada e fala a linguagem do respeito e da admiração: sucesso individual equals liberdade, escolha, realização.

Esta formação ideológica que assiste toda atitude de direita é de facto uma matriz para qualquer pensamento ou opção política no interior quer da actividade decisora quer das posições discursivas. Ela revela uma certa infantilidade que corrompe o exercício da governação, logo da distribuição, em favor de uma postura, de uma condição naturalizada como verdade. O nosso mundo tem sido orientado segundo este princípio. De há décadas para cá, esta tem sido a matriz através da qual se torna compreensível a actual organização social. Não admira que por vezes se surpreendam nas declarações de políticos, lideres organizacionais e institucionais um distanciamento da vida comum que somos levados a pensar que, ao contrário da promessa da cidadania, vivemos em mundos diferentes, quase hermeticamente selados. Mas estará a esquerda imune a esta tendência?

Dificilmente se compreenderia a estrutura das acções e atitudes das pessoas sem ter em conta esta pulsão actual para o sucesso individual. Nenhuma análise séria da organização social das sociedades contemporâneas pode pretender iluminar as interacções sociais sem colocar como premissa este fenómeno. Especular-se-á se o desinteresse pela política, na sua dimensão processual, não residirá justamente no antagonismo existente entre um projecto pessoal fortemente alicerçado no sucesso individual e a reacção e responsabilização colectiva que o pensar e agir político exigem. Com efeito, não seria absurdo sugerir que o problema da falta de participação não reside na fraca ressonância da mensagem dos políticos, mas sim nos termos radicalmente diversos, porventura incolmatáveis, que separam as estruturas democráticas e as individualizantes. Paradoxalmente, a forma de aproximar políticos e população, a forma de gerar uma proximidade maior entre representação e representados é justamente a personalização e não o envolvimento participativo aos mais diversos níveis do poder decisório. Por isso é que o projecto Europeu é um projecto fundamentalmente falhado.

Fenómenos como Sarkozy e Obama são disso exemplo. Em ambos os casos operou-se uma forte aposta em torno de biografias nas quais o sucesso individual era assinalável e a sua personalidade foi erigida como arquétipo do homem político. Podendo ou não ser verdade, o que importa salientar é que, embora em quadrantes diferentes, a construção do seu valor político alicerçou-se nos mesmos factores. Curiosamente, são as democracias ditas populistas da América Latina que enjeitam este modelo. Hugo Chavez e Lula não suscitam adesões por causa do seu sucesso individual, mas por causa da mais populista das invocações: a identificação imediata com o povo. Por isso convém não confundir a biografia em termos de sucesso individual com o geralmente designado culto da personalidade. São fenómenos diferentes que apelam a disposições e investimentos afectivos também eles diversos.

A questão premente é a de saber se a democracia é compatível com uma ideologia do sucesso individual. A resposta só pode ser negativa. Desde logo porque não se pode entender a democracia sem o seu potencial redistribuidor – de recursos, de direitos, de lugares. Se a democracia não for isto, pouco lhe vale ser participada ou não que significa apenas uma estrutura institucional para circulação das elites. Donde nos teremos que confrontar com o seguinte paradoxo: é o projecto populista que enuncia o povo como receptor da indispensabilidade distributiva da democracia que melhor capacidade apresenta para arregimentar a população. Este projecto está em profunda contradição com o projecto individualista – seja à direita, seja à esquerda. O que ele pede, ao contrário do mais inócuo processualismo, não é a individualização do direito universal da eleição. Pelo contrário, este projecto exige um sacrifício: a desmobilização do projecto de sucesso individual, e a sua substituição pela imersão no colectivo. Tenho as mais sinceras dúvidas que a maior parte da esquerda europeia esteja interessada numa tal alternativa.

Hoje é um dia feliz para a democracia

Me consumo y me consumiré gustosamente al servicio del hombre sufriente, de la mujer sufriente, del pueblo sufriente. Me consagro íntegramente al pleno servicio del pueblo. Todo lo que me queda de vida. Así lo juro, delante del pueblo, de mis hijas, de mis nietos. A menos que el pueblo decida lo contrario, este soldado será el candidato a las elecciones de 2012 para dirigir al país entre 2013 y 2019

(voto sacada do El País)

Archer pá fogueira

Ao chegar à conclusão de que o mediador entre a estrutura e o indivíduo é a “internal conversation” não estará Margaret Archer a introduzir no seu esquema analítico aquilo que é evidentemente uma alusão a uma das estruturas fundamentais do judaico-cristianismo?

Harold Bloom atribuiu na sua famosa opus magnum o surgimento do sujeito à sua capacidade monologante, particularmente manifestada na literatura ocidental cujas origens podiam ser traçadas até à Bíblia. Esta capacidade, por sua vez, teria conhecido o seu ápice no célebre monólogo de Hamlet, doravante constituído em Gestalt de todo o trabalho literário subsequente. A forma como esta confere espessura ao sujeito romanesco torna-se então um aferidor na qualidade literária, ou seja, a medida que permite inclui-lo ou exclui-lo de um cânon. 

Archer, pelo contrário, vê na conversa interior uma evolução da reflexividade. A fórmula mais insistente nos trabalhos de Archer é no reflexivity; no society. O que pressupõe a reflexividade como uma constante antropológica ao invés de ser um atributo da modernidade. Todavia, se esta se encontra presente em toda a forma de agrupamento social organizado, não deixa por isso de conhecer uma evolução, de formas mais incipientes para as formas mais elaboradas e complexas das sociedades actuais. Por conseguinte, temos que a complexidade das estruturas sociais articula-se com a exigência de maior reflexividade, e como esta equivale a uma “conversa interior” implica que essa mesma interiorização se complexifique. Tendo em conta que a reflexividade é uma conversa interior, ela complexificar-se-á tanto mais quanto conseguir mobilizar um maior conjunto de linguagens, símbolos, e imagens. Daí que ela seja desigualmente distribuída, apesar de ser uma capacidade de todo e cada indivíduo. Segundo Archer, com o advento da modernidade a reflexividade é por assim dizer “excitada”. Estamos no domínio de Giddens e Beck. A modernidade é o locus da explosão reflexiva. Todavia, convém salientar que, se para estes últimos, a reflexividade é uma propriedade que assiste a indivíduos e sistemas, para Archer apenas os indivíduos são dotados de reflexividade. Ora esta restrição aos agentes da reflexividade coloca uma dúvida substancial na ideia de reflexividade epocal. Com efeito, se a reflexividade é transhistórica porque razão seria o seu grau de complexidade correlacionado com uma época (a modernidade)? Qual é então a legitimidade de um conceito como o de reflexividade epocal? Se, contra Giddens e Beck, ela não é sistémica mas antes individual, porque razão seria o seu aumento correlato a uma época e não, como logicamente a individuação da reflexividade exige, a uma actividade? Neste sentido, será difícil negar que Sófocles e Aristóteles eram indivíduos com capacidades reflexivas bem maiores do que a maioria de nós, e isto contraria a ideia de reflexividade dependente da estrutura social. Da mesma forma, embora integrados em estruturas sociais radicalmente distantes quanto ao seu grau de complexidade, não seria a reflexividade de um monge medieval, fechado num mosteiro e obrigado, por crença e ritual, a auto-examinar-se diariamente bem mais expansiva do que a reflexividade de um condutor da Carris (sem desprimor para o condutor da Carris)?

Archer (2007) Making our way through the World. Human reflexivity and social mobility

Archer (2005) Structure, Agency and the Internal Conversation

Archer (1997) Realist Social Theory. The morphogenetic approach.