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De Davos com amor

Janeiro 29, 2009

 

 Será talvez o mais interessante desta ruptura de paradigma – em termos khunianos -, ou simplesmente mudança estratégica de paradigma – em termos soronianos (de George Soros, sic), o facto de a Europa se encontrar pela primeira vez após a II Grande Guerra num estado de espírito, com efeitos práticos, ,mais conservadora do que os Estados Unidos da América. Mas quando se diz mais conservadora, não é questão de desnível, de nuance, de pormenor – é realmente mais conservadora: estrutural e ideologicamente muitíssimo mais conservadora. Por exemplo, nos USA deflagrou uma espécie de pudor público pela extrema ostentação de riqueza que levou, recentemente, o CEO do Merry Linch a pedir desculpas pelo facto de o mobiliário do seu escritório ascender a mais de um milhão de dólares, e isto na televisão. Assim ficámos a saber que o tapete deste mesmo escritório tinha custado a um banco na falência a módica quantia de 87.000 $US. Embora o facto com que este CEO se apresentou na televisão, rosto consternado em penitência forçada, orçasse, eventualmente, os milhares de dólares, o povo americano vai julgando o homem pelo tapete que comprou. E está certo. Mas é incompleto.

Na Europa, a velha Europa, passa-se exactamente o contrário: as elites, uma nova aristocracia, sem margens para dúvidas, têm protegido com unhas e dentes os seus espólios; e para além desses, os seus privilégios escandalosos. Disso mesmo deu conta a empáfia de Jean Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, ao ser ontem entrevistado pela CNN. Trichet socorreu-se do europês, linguagem que consiste numa concatenação de termos esdrúxulos, mas que não significa rigorosamente nada. O europês é de há muito a língua franca das instituições europeias – campeia pela chamada comitologia, e faz sempre gala de reivindicar o maior quinhão nas prestações e declarações dos servidores da comissão. Se julgavam que o inglês era a língua que unia esta Europa, enganaram-se: é de facto o europês. Talvez a Comissão Barroso se distinga pelo seu particular zelo no uso do europês; ou talvez seja apenas sinal de uma inflação natural no uso corriqueiro deste esperanto. O certo é que Trichet falou em europês. E que distância de Soros, ou de Obama, do outro lado do Atlântico! Trichet é um sósia de Barroso, que falou europês durante todos estes anos a propósito dos perigos do terrorismo e da necessidade inexorável de nos juntarmos à cruzada neocon. Na mesma linha encontramos Sarkozy, e mais atrás Blair e Brown. Por isso o europês não é exclusivo das instituições europeias – é um método, uma técnica que resulta muitíssimo bem nas operações propagandísticas manipuladas pela elite europeia. Quando se trata de distribuição de recursos e de modificações no sistema de privilégios, surge o europês para de tudo fazer tabula rasa. Porém, assim como Barroso nos convenceu da bondade da sua cruzada mentindo (ao lado de Bush e de Aznar), o europês normalmente esconde mentiras. E não se tratam de mentiras piedosas, espécie de ersatz que a governança tem que usar para agradar a gregos e troianos ou atingir aquele ponto arquimediano que é, no fundo, para que serve a democracia. Pelo contrário, o europês e a sua operação de camuflagem cobre simplesmente TODA A VERDADE! Bem sei que isto soa a programa de televisão, ou não fosse o europês baseado em comprovadas técnicas de marketing. Em resumo, enquanto do outro lado do Atlântico, a administração liderada por Obama embarca na exigência de responsabilização (accountability) por parte das elites e dos conglomerados económicos, implicando as ajudas do Estado, contrapartidas do lado do mundo dos negócios, deste lado, Trichet fala em “confiança”. Traduzindo do europês, a palavra confiança quando reiterada mais de três vezes no mesmo trecho significa beneplácito. O que Trichet diz é que não temos que responsabilizar os tubarões da finança ou dos negócios, mas sim dar-lhes o beneplácito da dúvida e, assim fazendo, injectar-lhes capital sem exigir contrapartidas. Trichet fala europês, porque o europês compensa. Um seu conterrâneo, François Fillon, o primeiro-ministro francês, pega na deixa e fala de restituir confiança à economia francesa. Este encontra-se a ser entrevistado numa estação de televisão francesa. E mesmo a evidência trazida por uma reportagem que mostra diversos franceses, operários e outros trabalhadores, a queixarem-se dos baixos salários e das condições de trabalho cada vez mais precárias, não o demove nem o comove. A resposta de Fillon é a resposta do neoliberal da era Bush: é melhor que se portem bem, se ainda assim querem garantir os vossos empregos.

Do outro lado, também na CNN, George Soros. Sem papas na língua, diz ele que esta rabaldaria tem que acabar; que é urgente pôr cobro aos desmandos do mercado financeiro;

que a loucura pelo risco tem os dias contados; e que vivemos a situação escandalosa de uma minoria viver num luxo opíparo à custa de uma maioria. Se eu não visse Soros com os meus olhos, estes mesmos, os terrenos olhos que a tudo cor emprestam, julgaria que se tratava de um perigoso esquerdista. Mas não, era Soros. E ele tem razão – toda a razão. Stiglitz também estava por lá e disse mais ou menos a mesma coisa. Trichet continuava a enrolar a língua e a debitar o jargão que lhe servem todos os dias pela manhã na cafetaria do ECB. E Fillon, ecoando as ameaças de Sarkozi quanto a coarctar o poder sindical, bem ia avisando, de mansinho, os trabalhadores para não se porem com brincadeiras. Tão cedo não vamos ter os CEOs dos nossos bancos a pedirem desculpa na televisão. Mas acaso resulte na América, corremos o risco de ficarmos apropriadamente com o labéu de velha Europa

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