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Esquimó Friskinho

Janeiro 7, 2009

Está na moda assacar as culpas do massacre levado a cabo pelos israelitas nestes últimos 12 dias ao “desgoverno” do Hamas. Sem grandes delongas, cronistas diversos e de diferente projecção, traçam a sua análise a régua e esquadro sem o menor titubear: a culpa é do Hamas. Exemplo acabado de uma análise tão superficial quanto despudorada encontra-se no último artigo de Miguel Monjardino.

Contudo, como dizia Asim Qasem, o coordenador da incipiente televisão palestiniana e dos homens que se encontram no terreno – ou seja, Gaza, porque os israelitas não deixam os jornalistas ocidentais entrar nos territórios ocupados – o que o exército israelita está a fazer não é a manifestação de um estado crítico, espécie de “gota d’água”, ou de outras expressões que conotam um limite. É apenas a maximização (e são palavras do próprio Qasem) do cerco a Gaza nos últimos 3 anos. Acrescentando que, não sabe como, mas a população de Gaza sobrevive e continuará a sobreviver.

Não sei se serei tão optimista como Qasem. Não seria a primeira vez que na conturbada história do mundo se risca um povo do mapa. Eventualmente, não será sequer a última. Mas o que mais preocupa é a dificuldade em reunir um protesto internacional suficientemente coeso. Tantas e tantas opiniões, por esses jornais e pela blogosfera fora, assombram-nos pela sua hipocrisia e cavilosidade; pela islamofobia mais rasteira; pelo viés e, no fundo, porque não chamarmos os bois pelos nomes, pela sua maldade.

O silêncio de Obama não augura nada de bom. Aliás, se Obama augurava alguma coisa, com esta sua atitude, deixou de o fazer. Já tudo perdeu e ainda nem sequer iniciou funções. A França põe-se em bicos dos pés: quer mediar qualquer coisa; o ego de Sarkozy não lhe dá um momento de sossego. Se conseguir negociar um cessar-fogo consistente antes dos americanos será certamente uma vitória para a França dos Droits de l’homme. A grande França, o beacon of freedom europeu que inaugura um recauchutado manto para se fazer às costas do neocolonialismo.

Outra coisa que está na moda, mais trejeito do que gesto, é citar, ou referir o livro de R. Frisk “The Great war for civilization”; o artigo de Monjardim é um dos que recorre a este expediente. E tenho-o visto citado ou referido em nota de rodapé por indivíduos que fariam Frisk dar voltas no túmulo, caso ele estivesse morto, mas que estando ele vivo apenas lhe devem dar uma valente dor no mastóideu. Fiquemos então com uma citação de Frisk, ao acaso, exemplo entre muitos onde o encontramos com o seu espírito crítico e igualmente mordaz, simultaneamente desencantado e sem ilusões, a páginas quinhentas e qualquer coisa: 

 

By 2002, 1.450 Palestinians will have been killed in the al-Aqsa intifada. Israel will have lost 525 lives, just over a third of the Palestinian death toll. And the Palestinians are the agressors.

Isto foi em 2002. A discrepância nesta última invasão de Gaza é gigantesca como é conhecido. Suponho que Monjardino gosta do título do livro, é disso sobretudo que ele gosta. Até porque, sem dúvida, se sentirá do lado certo da Grande Guerra pela Civilização.

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