Skip to content

Sem olhos em Gaza

Janeiro 6, 2009

Qualquer visão sobre o conflito israelo-palestiniano, mesma a mais desinspirada ou preguiçosa, tem de partir da premissa de que Israel não está interessado num estado autónomo palestiniano. Na realidade, Israel nem sequer está interessado no povo palestiniano. Em última análise, seria para Israel um descanso que a própria ideia de povo palestiniano sucumbisse e que aqueles árabes refractários se deixassem conduzir pacificamente para o redil que lhes foi prodigalizado. Conformem-se – pois a utopia de um Estado palestiniano não passa disso mesmo; e o mais que podem almejar é a uma cidadania de segunda com o beneplácito do estado israelita. Muito foi escrito sobre isto; não acrescentarei nada. Mas para efeitos de sistematização, duas ou três ideias…apenas.

Primeiro, é hoje evidente que a estratégia de ataques do estado israelita seque uma calendarização prévia orientando-se esta, grosso modo, pelo estado de consolidação estrutural dos territórios que cabem aos palestinianos. Por essa razão, os bombardeamentos de Israel visaram não apenas as supostas (Cymerman juraria a pés juntos que assim foi) instalações militares do Hamas – incluindo os edifícios governamentais – mas também a Universidade Islâmica, completamente destruída, e a principal mesquita de Gaza, que conheceu o mesmo destino. Estamos perante uma estratégia Catch 22 da qual os palestinianos não mais sairão. Segundo Israel, é preciso desalojar o Hamas. Mas este último ganhou massivamente as eleições democráticas. É por isso que seja mais que provável que ele se encontre nas principais instituições, ou seja, nas instituições que são infraestruturantes de um qualquer projecto de Estado autónomo palestiniano. Mas Israel não está interessado em dar autonomia aos palestinianos. Por conseguinte, de tempos a tempos destrói as suas estruturas e os seus recursos principais. O bloqueio não é suficiente e não é porque, apesar de tudo, o mundo árabe ajuda os palestinianos. Como foi o caso da Universidade islâmica, financiada com a ajuda de fundações islâmicas. 

Segundo, Israel justifica a sua actuação pela necessidade premente de se sentir seguro. Sentimento que, citando o caloroso Ehud Barak, qualquer Estado tem o direito de ter e de assegurar aos seus cidadãos. Segundo esta doutrina, Israel que sistematicamente bombardeia Gaza, justifica a sua segurança com a ininterrupta condição insegura do seu adversário – os palestinianos. É ainda melhor do que a guerra preventiva da doutrina Bush. E diz o seguinte: eu arrogo-me o poder de transgredir a vossa segurança e autonomia quando e como quiser se isso me oferecer a mim segurança. É mais uma de antologia para as cem mais maquiavélicas razões para manter uma guerra. Obviamente que esta doutrina tem uma pecha: é que se Israel pode acusar os palestinianos de não lhe oferecerem segurança, já não os pode acusar de comprometer a sua autonomia. Ora, o contrário não é verdade. É por isso que a retórica da segurança esconde a real assimetria das forças em confronto; e não se trata de capacidades bélicas tout court. Trata-se sim de observar que apesar de ambos terem capacidade para perturbar a segurança um do outro, apenas um, Israel, tem a capacidade de confiscar a autonomia do outro – e fá-lo periodicamente.

A razão pela qual os territórios palestinianos são um espinho encravado na goela de Israel e, por essa razão, passíveis de serem motivo suficiente para uma das mais elaboradas limpezas étnicas de que há memória nos últimos 50 anos, é demográfica. Não é nem a economia, nem a religião, nem o fanatismo (que de qualquer das formas abunda em ambos os lados) nem a política. Ou melhor, são todas estas coisas em simultâneo no que à demografia e às suas tendências se referem. Israel sabe que no dia em que deixar os territórios onde vivem os palestinianos atingir os padrões de sobrevivência considerados aceitáveis, terá uma explosão demográfica dentro do seu território. Ora o modelo até agora utilizado foi o do bandustão que, tendo dado resultados comprovados na África do Sul, não é admissível que se prolongue ad aeternum numa democracia moderna. Com a agravante que no caso da África do Sul, os negros dos bandustões não terem qualquer suporte em particular do exterior. O mesmo não se pode dizer dos palestinianos que apesar de fechados nos guetos insalubres que dão pelos nomes de faixa de Gaza e West Bank têm o apoio de muitos dos países árabes (mas longe de serem todos). Nestas condições, o bandustão funciona quando é sujeito a periódicas matanças ou massacres, como melhor soar. Neste sentido, a estratégia israelita surge como perfeitamente racional; melhor, bio-politicamente racional, na medida em que se exerce sobre um conjunto populacional, do qual se pretende que exista enquanto realidade experimental. Exactamente como a sua congénere na África do Sul. Qual é o limite de uma tal disposição de forças? É o limite demográfico. Quando na África do Sul a população negra era bem mais do dobro da branca, os fundamentos do apartheid começaram a ficar fragilizados.

Israel tem prudentemente (ou não tanto) mantido este equilíbrio. Quer através dos bloqueios e das condições sub-humanas a que os palestinianos têm sido sujeitos quer através dos sucessivos massacres, a fasquia demográfica mantém-se perfeitamente contida. No entanto, se deixados ao destino, a configuração demográfica começaria a tomar proporções completamente diversas. Com uma taxa de crescimento populacional que se situa nos 3,2% para os Palestinianos contra 1,8% para os israelitas, segundo as previsões, em 2050 quer Israel quer os territórios ocupados estariam em paridade populacional com sensivelmente dez milhões e meio de pessoas cada um. Isto implicaria a perda de supremacia demográfica que Israel detém actualmente. Também por isso Israel pratica uma cidadania diferenciada, não concedendo a cidadania plena aos palestinianos.

Em resumo, e lendo este artigo, seja qual for o cenário, Israel será brevemente ultrapassado em número de pessoas pelos palestinianos. Percebe-se porque razão Israel se opõe ao regresso dos refugiados palestinianos, algo que apenas faria acelerar esta tendência. Percebe-se porque razão Israel se opõe à integração dos palestinianos numa cidadania plena do estado de Israel. É que, assim como assim, os próprios árabes israelitas já se reproduzem mais rapidamente do que os judeus.

O que parece enfim é que o único Estado do mundo que liga pertença de sangue a pertença religiosa se encontra apostado em não largar mão deste decrépito modelo. E é de facto difícil compreender como é que se pode conviver bem com esta noção. Em última análise, resume-se a isto: o sofrimento dos palestinianos tem a sua causa na renitência anacrónica em abandonar um estado religioso judaico. Convém que se pergunte, quem são na realidade os fanáticos?

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: