De Davos com amor

 

 Será talvez o mais interessante desta ruptura de paradigma – em termos khunianos -, ou simplesmente mudança estratégica de paradigma – em termos soronianos (de George Soros, sic), o facto de a Europa se encontrar pela primeira vez após a II Grande Guerra num estado de espírito, com efeitos práticos, ,mais conservadora do que os Estados Unidos da América. Mas quando se diz mais conservadora, não é questão de desnível, de nuance, de pormenor – é realmente mais conservadora: estrutural e ideologicamente muitíssimo mais conservadora. Por exemplo, nos USA deflagrou uma espécie de pudor público pela extrema ostentação de riqueza que levou, recentemente, o CEO do Merry Linch a pedir desculpas pelo facto de o mobiliário do seu escritório ascender a mais de um milhão de dólares, e isto na televisão. Assim ficámos a saber que o tapete deste mesmo escritório tinha custado a um banco na falência a módica quantia de 87.000 $US. Embora o facto com que este CEO se apresentou na televisão, rosto consternado em penitência forçada, orçasse, eventualmente, os milhares de dólares, o povo americano vai julgando o homem pelo tapete que comprou. E está certo. Mas é incompleto.

Na Europa, a velha Europa, passa-se exactamente o contrário: as elites, uma nova aristocracia, sem margens para dúvidas, têm protegido com unhas e dentes os seus espólios; e para além desses, os seus privilégios escandalosos. Disso mesmo deu conta a empáfia de Jean Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, ao ser ontem entrevistado pela CNN. Trichet socorreu-se do europês, linguagem que consiste numa concatenação de termos esdrúxulos, mas que não significa rigorosamente nada. O europês é de há muito a língua franca das instituições europeias – campeia pela chamada comitologia, e faz sempre gala de reivindicar o maior quinhão nas prestações e declarações dos servidores da comissão. Se julgavam que o inglês era a língua que unia esta Europa, enganaram-se: é de facto o europês. Talvez a Comissão Barroso se distinga pelo seu particular zelo no uso do europês; ou talvez seja apenas sinal de uma inflação natural no uso corriqueiro deste esperanto. O certo é que Trichet falou em europês. E que distância de Soros, ou de Obama, do outro lado do Atlântico! Trichet é um sósia de Barroso, que falou europês durante todos estes anos a propósito dos perigos do terrorismo e da necessidade inexorável de nos juntarmos à cruzada neocon. Na mesma linha encontramos Sarkozy, e mais atrás Blair e Brown. Por isso o europês não é exclusivo das instituições europeias – é um método, uma técnica que resulta muitíssimo bem nas operações propagandísticas manipuladas pela elite europeia. Quando se trata de distribuição de recursos e de modificações no sistema de privilégios, surge o europês para de tudo fazer tabula rasa. Porém, assim como Barroso nos convenceu da bondade da sua cruzada mentindo (ao lado de Bush e de Aznar), o europês normalmente esconde mentiras. E não se tratam de mentiras piedosas, espécie de ersatz que a governança tem que usar para agradar a gregos e troianos ou atingir aquele ponto arquimediano que é, no fundo, para que serve a democracia. Pelo contrário, o europês e a sua operação de camuflagem cobre simplesmente TODA A VERDADE! Bem sei que isto soa a programa de televisão, ou não fosse o europês baseado em comprovadas técnicas de marketing. Em resumo, enquanto do outro lado do Atlântico, a administração liderada por Obama embarca na exigência de responsabilização (accountability) por parte das elites e dos conglomerados económicos, implicando as ajudas do Estado, contrapartidas do lado do mundo dos negócios, deste lado, Trichet fala em “confiança”. Traduzindo do europês, a palavra confiança quando reiterada mais de três vezes no mesmo trecho significa beneplácito. O que Trichet diz é que não temos que responsabilizar os tubarões da finança ou dos negócios, mas sim dar-lhes o beneplácito da dúvida e, assim fazendo, injectar-lhes capital sem exigir contrapartidas. Trichet fala europês, porque o europês compensa. Um seu conterrâneo, François Fillon, o primeiro-ministro francês, pega na deixa e fala de restituir confiança à economia francesa. Este encontra-se a ser entrevistado numa estação de televisão francesa. E mesmo a evidência trazida por uma reportagem que mostra diversos franceses, operários e outros trabalhadores, a queixarem-se dos baixos salários e das condições de trabalho cada vez mais precárias, não o demove nem o comove. A resposta de Fillon é a resposta do neoliberal da era Bush: é melhor que se portem bem, se ainda assim querem garantir os vossos empregos.

Do outro lado, também na CNN, George Soros. Sem papas na língua, diz ele que esta rabaldaria tem que acabar; que é urgente pôr cobro aos desmandos do mercado financeiro;

que a loucura pelo risco tem os dias contados; e que vivemos a situação escandalosa de uma minoria viver num luxo opíparo à custa de uma maioria. Se eu não visse Soros com os meus olhos, estes mesmos, os terrenos olhos que a tudo cor emprestam, julgaria que se tratava de um perigoso esquerdista. Mas não, era Soros. E ele tem razão – toda a razão. Stiglitz também estava por lá e disse mais ou menos a mesma coisa. Trichet continuava a enrolar a língua e a debitar o jargão que lhe servem todos os dias pela manhã na cafetaria do ECB. E Fillon, ecoando as ameaças de Sarkozi quanto a coarctar o poder sindical, bem ia avisando, de mansinho, os trabalhadores para não se porem com brincadeiras. Tão cedo não vamos ter os CEOs dos nossos bancos a pedirem desculpa na televisão. Mas acaso resulte na América, corremos o risco de ficarmos apropriadamente com o labéu de velha Europa

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De povos e manias

Já imaginaram ter um jornalista assim em Portugal? Eu também não. Entretanto vamo-nos distraindo com os Tavares e os Oliveiras no cat-walk. E as estes ainda concedo alguma admiração, porque o resto…nem vale a pena falar.

Mas o melhor mesmo é ouvir o homem. George – go ahead!

Natal é quando o burro quiser

Não falei do Natal. Do espojar no universo dos brinquedos, da eterna juventude e resfolegar como suínos no sopé da árvore de Natal, que se arroga a montanha tal o simbolismo que ganha no centro, ou no canto, no mais recôndito canto, da sala de jantar.

Ah, e a família, a dessacralizada família – onde caíram os desígnios de santificação? Penso que terá sido à entrada e à saída destas alegres efemérides familiares; entre a maledicência e a inveja; a perturbante cagança e a não menos desconcertante modéstia cristã; tudo enrolado com peru (ou teriam sido camarões com jindungo, trés africano, trés pós-neo-colonial, como il faut) e o recheio?, aquelas piadas e chocarrices atiradas no ripanço da lareira ou do jardim de Inverno…o cão, com o focinho sobre os joelhos a babar-se, continuamente a babar-se, e para ele, que se foda o presépio – espero angustiadamente os resquícios da perna de peru: pensa o cão, que não é como nós, como queria um famigerado poeta, mas simplesmente mais anafado. 

Uma prima (muito antiga!) comenta uns quadros…pensando, em boa verdade, nos preços e não na estética. E no natal, desde quando a estética interessa a alguém? Contaram-se os cartões de crédito; empreenderam-se verdadeiras viagens às superfícies comerciais, e comprou-se, como quem faz amor, amor verdadeiro. Isto seria uma crítica se eu não gostasse de me passear pelas insuportáveis superfícies comerciais e observar as belas mulheres nas suas esguias pernas (quando não roliças e nédias) a afeiçoarem o pezinho às suas novas botinas. E penso que também isto é o natal – foder, foder, foder…depois comer, comer, comer (ou na ordem inversa?). Quererei eu dizer que o natal, para além (ou mesmo dentro) das aventuras do presépio é uma festa de sensualidade, na realidade, de desabrido erotismo? Nem pode ele ser outra coisa. A família guarda desejos obscenos. Desejos prodigalizados uns aos outros: o avô à prima; o primo à tia, e por aí fora. Uma festa de dar e receber que não escondesse as suas conotaçõezinhas sexuais não seria uma festa de prazer e de luxúria. A imaculada, a mãe, a que concebe sem pecado, teria que ser ultrapassada pela festa da lascívia, do sexo, do não mais do que pecado, compro para pecar, e tudo muito bem enrolado nos cânones do erotismo…da juissance, ouço dizer? Arrematado, por aquela senhora ali ao fundo, aquela do negligé negro e das mamas transbordantes; aquela, a que sopesa o menino, com um mamilo carinhosamente abocanhado pelos lábios quentes da criança…E o burro? Quer levar o burro, também? Bem, não estava de facto previsto – o burro é um dos figurantes. Mas se assim insiste…porque não?

Esquimó Friskinho

Está na moda assacar as culpas do massacre levado a cabo pelos israelitas nestes últimos 12 dias ao “desgoverno” do Hamas. Sem grandes delongas, cronistas diversos e de diferente projecção, traçam a sua análise a régua e esquadro sem o menor titubear: a culpa é do Hamas. Exemplo acabado de uma análise tão superficial quanto despudorada encontra-se no último artigo de Miguel Monjardino.

Contudo, como dizia Asim Qasem, o coordenador da incipiente televisão palestiniana e dos homens que se encontram no terreno – ou seja, Gaza, porque os israelitas não deixam os jornalistas ocidentais entrar nos territórios ocupados – o que o exército israelita está a fazer não é a manifestação de um estado crítico, espécie de “gota d’água”, ou de outras expressões que conotam um limite. É apenas a maximização (e são palavras do próprio Qasem) do cerco a Gaza nos últimos 3 anos. Acrescentando que, não sabe como, mas a população de Gaza sobrevive e continuará a sobreviver.

Não sei se serei tão optimista como Qasem. Não seria a primeira vez que na conturbada história do mundo se risca um povo do mapa. Eventualmente, não será sequer a última. Mas o que mais preocupa é a dificuldade em reunir um protesto internacional suficientemente coeso. Tantas e tantas opiniões, por esses jornais e pela blogosfera fora, assombram-nos pela sua hipocrisia e cavilosidade; pela islamofobia mais rasteira; pelo viés e, no fundo, porque não chamarmos os bois pelos nomes, pela sua maldade.

O silêncio de Obama não augura nada de bom. Aliás, se Obama augurava alguma coisa, com esta sua atitude, deixou de o fazer. Já tudo perdeu e ainda nem sequer iniciou funções. A França põe-se em bicos dos pés: quer mediar qualquer coisa; o ego de Sarkozy não lhe dá um momento de sossego. Se conseguir negociar um cessar-fogo consistente antes dos americanos será certamente uma vitória para a França dos Droits de l’homme. A grande França, o beacon of freedom europeu que inaugura um recauchutado manto para se fazer às costas do neocolonialismo.

Outra coisa que está na moda, mais trejeito do que gesto, é citar, ou referir o livro de R. Frisk “The Great war for civilization”; o artigo de Monjardim é um dos que recorre a este expediente. E tenho-o visto citado ou referido em nota de rodapé por indivíduos que fariam Frisk dar voltas no túmulo, caso ele estivesse morto, mas que estando ele vivo apenas lhe devem dar uma valente dor no mastóideu. Fiquemos então com uma citação de Frisk, ao acaso, exemplo entre muitos onde o encontramos com o seu espírito crítico e igualmente mordaz, simultaneamente desencantado e sem ilusões, a páginas quinhentas e qualquer coisa: 

 

By 2002, 1.450 Palestinians will have been killed in the al-Aqsa intifada. Israel will have lost 525 lives, just over a third of the Palestinian death toll. And the Palestinians are the agressors.

Isto foi em 2002. A discrepância nesta última invasão de Gaza é gigantesca como é conhecido. Suponho que Monjardino gosta do título do livro, é disso sobretudo que ele gosta. Até porque, sem dúvida, se sentirá do lado certo da Grande Guerra pela Civilização.

Liliputianos em Pequim

O capitalismo não é, nem pode ser, “bom” ou “mau”. Ao capitalismo não se podem atribuir grandezas morais. Apenas ao que é dotado de reflexividade se pode considerar como moralmente responsável. Nenhum sistema é dotado de reflexividade – os sistemas não são reflexivos: apenas as pessoas o são. Por esse facto, os agentes do capitalismo podem ser classificados enquanto bons ou maus, mas não o sistema capitalista. Dado que os agentes são reflexivos, apenas eles, e só eles, são capacitados de intuições e julgamentos morais.

Aliás, essa mesma destrinça estava já contida no título “A superioridade moral dos comunistas” e não a superioridade moral do “comunismo” que é uma impossibilidade. Não está em causa se ela é verdade ou sequer defensável; mas este pormenor faz toda a diferença e mais uma vez César das Neves passa em claro o essencial para se dedicar ao acessório: é um vício inextripável dos seus raciocínios.

Como tal, a comparação entre a bondade ou a maldade do capitalismo e a superioridade moral dos comunistas só faz sentido quando colocada ao mesmo nível analítico, ou seja, superioridade moral dos comunistas versus superioridade moral dos capitalistas. Apenas esta comparação tem interesse discutir, posto que é a única que é passível de compreender grandezas morais.

Todavia, convém não esquecer que ninguém (um agente dotado de reflexividade) é transversalmente mau ou transversalmente bom. Quer isto dizer que o indivíduo bom ou mau não existe. O que existe sim são situações onde o indivíduo pratica más ou boas acções. O resto pertence àquilo que os psicólogos chamam apropriadamente o efeito de halo: a extensão de um traço definidor a todos os contextos possíveis. Parece que no mundo prático isto não se verifica e que as variâncias são situacionais.

Dito isto, será o comunista moralmente superior ao capitalista? Em princípio a resposta só pode ser afirmativa apesar de em última análise ter esta de ser desmobilizada por ser contraditória com o pressuposto anterior: a da correlação situacional dos comportamentos. Mas imaginemos que nos colocamos apenas num plano abstracto onde a única coisa em jogo são os princípios. O capitalista afirma o primado do individualismo, acrescentando que os seus interesses egoístas, apesar de o serem, concorrem para uma solução optimizada. Assim, cada um de nós prosseguindo os seus próprios interesses terá por resultado agregado um equilíbrio optimizado. Ao pensar assim o capitalista opera um desinvestimento moral delegando essa mesma intervenção no concerto de todas as acções possíveis de serem efectuadas pelos agentes em confronto. Por isso, a mão invisível institui uma moralidade que não é reflexiva. O moral actor de Smith é sempre um agente que se exclui da esfera da reflexividade ajoujando as consequências das suas decisões para o sistema. É aqui que o sistema surge como entidade moral (cont.).

É a estupidez, economistas!

Tresleio o livro de Santos Pereira cujo título promete grandes revelações: A Economia portuguesa e os seus mitos. Leio com mais detença o capítulo dedicado à produtividade. Santos Pereira explica-nos que existem diversas mistificações em torno da mesma. Primeiro, a produtividade dos portugueses não é tão má como se julga: quando observada em períodos longos rivaliza facilmente com as suas congéneres europeias. Segundo, a espada de Dâmocles que está constantemente a pairar sobre o lombo do Estado não tem assim tanta razão de ser. Ao Estado não lhe deve ser assacada a culpa total da baixa produtividade nacional. Terceiro, uma quota-parte da culpa cabe aos gestores e aos sindicatos.

É no terceiro ponto que a controvérsia se acende e que vale a pena pensar um pouco, sendo os pontos anteriores questões que de tão invocadas já perderam a novidade.

Comecemos com os gestores. Segundo um estudo da conceituada consultora Mckinzey, realizado em 4000 empresas nacionais, calhou-nos em sorte os piores gestores do total dos países desenvolvidos. Como se isso não bastasse, são também aqueles que menores habilitações académicas possuem quando cotejados com os restantes países da UE. Porque a culpa não pode morrer solteira, Santos Pereira agita o dedo acusador contra os sindicatos, verberando contra eles o facto da sua militância tão irredutível quanto anacrónica ou a insistência em tratar os gestores como os inimigos. Um clima de guerra, por conseguinte, que Silva Pereira identifica nas manobras políticas sindicais.

A inescapável pergunta é a seguinte: se os nossos gestores são os piores do mundo desenvolvido – segundo o estudo da Mckinzey – por que razão são dos mais bem pagos?

Sem olhos em Gaza

Qualquer visão sobre o conflito israelo-palestiniano, mesma a mais desinspirada ou preguiçosa, tem de partir da premissa de que Israel não está interessado num estado autónomo palestiniano. Na realidade, Israel nem sequer está interessado no povo palestiniano. Em última análise, seria para Israel um descanso que a própria ideia de povo palestiniano sucumbisse e que aqueles árabes refractários se deixassem conduzir pacificamente para o redil que lhes foi prodigalizado. Conformem-se – pois a utopia de um Estado palestiniano não passa disso mesmo; e o mais que podem almejar é a uma cidadania de segunda com o beneplácito do estado israelita. Muito foi escrito sobre isto; não acrescentarei nada. Mas para efeitos de sistematização, duas ou três ideias…apenas.

Primeiro, é hoje evidente que a estratégia de ataques do estado israelita seque uma calendarização prévia orientando-se esta, grosso modo, pelo estado de consolidação estrutural dos territórios que cabem aos palestinianos. Por essa razão, os bombardeamentos de Israel visaram não apenas as supostas (Cymerman juraria a pés juntos que assim foi) instalações militares do Hamas – incluindo os edifícios governamentais – mas também a Universidade Islâmica, completamente destruída, e a principal mesquita de Gaza, que conheceu o mesmo destino. Estamos perante uma estratégia Catch 22 da qual os palestinianos não mais sairão. Segundo Israel, é preciso desalojar o Hamas. Mas este último ganhou massivamente as eleições democráticas. É por isso que seja mais que provável que ele se encontre nas principais instituições, ou seja, nas instituições que são infraestruturantes de um qualquer projecto de Estado autónomo palestiniano. Mas Israel não está interessado em dar autonomia aos palestinianos. Por conseguinte, de tempos a tempos destrói as suas estruturas e os seus recursos principais. O bloqueio não é suficiente e não é porque, apesar de tudo, o mundo árabe ajuda os palestinianos. Como foi o caso da Universidade islâmica, financiada com a ajuda de fundações islâmicas. 

Segundo, Israel justifica a sua actuação pela necessidade premente de se sentir seguro. Sentimento que, citando o caloroso Ehud Barak, qualquer Estado tem o direito de ter e de assegurar aos seus cidadãos. Segundo esta doutrina, Israel que sistematicamente bombardeia Gaza, justifica a sua segurança com a ininterrupta condição insegura do seu adversário – os palestinianos. É ainda melhor do que a guerra preventiva da doutrina Bush. E diz o seguinte: eu arrogo-me o poder de transgredir a vossa segurança e autonomia quando e como quiser se isso me oferecer a mim segurança. É mais uma de antologia para as cem mais maquiavélicas razões para manter uma guerra. Obviamente que esta doutrina tem uma pecha: é que se Israel pode acusar os palestinianos de não lhe oferecerem segurança, já não os pode acusar de comprometer a sua autonomia. Ora, o contrário não é verdade. É por isso que a retórica da segurança esconde a real assimetria das forças em confronto; e não se trata de capacidades bélicas tout court. Trata-se sim de observar que apesar de ambos terem capacidade para perturbar a segurança um do outro, apenas um, Israel, tem a capacidade de confiscar a autonomia do outro – e fá-lo periodicamente.

A razão pela qual os territórios palestinianos são um espinho encravado na goela de Israel e, por essa razão, passíveis de serem motivo suficiente para uma das mais elaboradas limpezas étnicas de que há memória nos últimos 50 anos, é demográfica. Não é nem a economia, nem a religião, nem o fanatismo (que de qualquer das formas abunda em ambos os lados) nem a política. Ou melhor, são todas estas coisas em simultâneo no que à demografia e às suas tendências se referem. Israel sabe que no dia em que deixar os territórios onde vivem os palestinianos atingir os padrões de sobrevivência considerados aceitáveis, terá uma explosão demográfica dentro do seu território. Ora o modelo até agora utilizado foi o do bandustão que, tendo dado resultados comprovados na África do Sul, não é admissível que se prolongue ad aeternum numa democracia moderna. Com a agravante que no caso da África do Sul, os negros dos bandustões não terem qualquer suporte em particular do exterior. O mesmo não se pode dizer dos palestinianos que apesar de fechados nos guetos insalubres que dão pelos nomes de faixa de Gaza e West Bank têm o apoio de muitos dos países árabes (mas longe de serem todos). Nestas condições, o bandustão funciona quando é sujeito a periódicas matanças ou massacres, como melhor soar. Neste sentido, a estratégia israelita surge como perfeitamente racional; melhor, bio-politicamente racional, na medida em que se exerce sobre um conjunto populacional, do qual se pretende que exista enquanto realidade experimental. Exactamente como a sua congénere na África do Sul. Qual é o limite de uma tal disposição de forças? É o limite demográfico. Quando na África do Sul a população negra era bem mais do dobro da branca, os fundamentos do apartheid começaram a ficar fragilizados.

Israel tem prudentemente (ou não tanto) mantido este equilíbrio. Quer através dos bloqueios e das condições sub-humanas a que os palestinianos têm sido sujeitos quer através dos sucessivos massacres, a fasquia demográfica mantém-se perfeitamente contida. No entanto, se deixados ao destino, a configuração demográfica começaria a tomar proporções completamente diversas. Com uma taxa de crescimento populacional que se situa nos 3,2% para os Palestinianos contra 1,8% para os israelitas, segundo as previsões, em 2050 quer Israel quer os territórios ocupados estariam em paridade populacional com sensivelmente dez milhões e meio de pessoas cada um. Isto implicaria a perda de supremacia demográfica que Israel detém actualmente. Também por isso Israel pratica uma cidadania diferenciada, não concedendo a cidadania plena aos palestinianos.

Em resumo, e lendo este artigo, seja qual for o cenário, Israel será brevemente ultrapassado em número de pessoas pelos palestinianos. Percebe-se porque razão Israel se opõe ao regresso dos refugiados palestinianos, algo que apenas faria acelerar esta tendência. Percebe-se porque razão Israel se opõe à integração dos palestinianos numa cidadania plena do estado de Israel. É que, assim como assim, os próprios árabes israelitas já se reproduzem mais rapidamente do que os judeus.

O que parece enfim é que o único Estado do mundo que liga pertença de sangue a pertença religiosa se encontra apostado em não largar mão deste decrépito modelo. E é de facto difícil compreender como é que se pode conviver bem com esta noção. Em última análise, resume-se a isto: o sofrimento dos palestinianos tem a sua causa na renitência anacrónica em abandonar um estado religioso judaico. Convém que se pergunte, quem são na realidade os fanáticos?