Papa-lagui

 

O Sumo Pontífice, fazendo jus a uma já longa lista de metáforas ecológicas relacionadas com o sexo (quer o oposto quer o mesmo), reiterou esta tradição recorrendo ao, a meu ver, feliz exemplo da floresta tropical, dizendo: – Protejamos a heterossexualidade assim como protegemos as florestas virgens. Note-se que virgem dizemos da floresta embora tenha ela sido inaugurada diversas vezes e de virgem pouco se lhe aproveite.

A antologia recebeu exemplos como o Grelo, significando este o sexo feminino, evocação sem dúvida associada à basta, quando não frondosa, vegetação púbica. E veja-se como a preocupação papal não é de todo descabida, dado que para aí andam múltiplos exemplos que desacreditam a conotação; terras despojadas das suas frondas, desflorestadas, onde a natureza capilar é bruta e feramente cerceada pela técnica anti-pilosidade. Maculação evidente da natureza pelos desmandos da técnica.

 

Outras expressões devem ser aduzidas. Ocorrem-me, assim de repente, a brenha, o mato, o matagal, etc, todas, sem excepção, contendo essa imaculada associação entre o órgão feminino e a botânica: Ah!, a sarça ardente!

E não é apenas o órgão feminino que carrega conotações vegetarianas. Veja-se por exemplo, o equivalente masculino, apodado de fruta, ou os apensos tomates. Verdade seja dita que se o eterno feminino se liga sobremaneira à vegetação indomada, está o masculino preso a extravagâncias hortícolas. Sugere-nos Pangloss e o seu encolher de ombros: vamos mas é cuidar da horta e deixemo-nos de merdas. Ou, muito haveria que acrescentar sobre a natureza (a que existe e a imaginária) de homens e mulheres.

 

A defesa da heterossexualidade feita pelo Papa surge assim em toda a sua beleza fitológica. Embora não me recorde de ouvir o Papa a defender as florestas tropicais, julgo que, por maioria de razão, quem defende a heterossexualidade será sem rebuço defensor sólido da Amazónia. É que são complementares: de troncos robustos e despontantes está a floresta atulhada, e mesmo a comparação, cara ao nosso Bocage, entre pau de embondeiro e caralho, não passou despercebida a sua santidade. Não o disse. Ou pelo menos não o tornou público. Mas certamente que a imagem de viril arvoredo não lhe foi alheia quando invocou a sua preocupação ecológica. E então agora recordo – e assim me contradigo – no vernáculo dedicado ao masculino pontuam igualmente expressões como verga, pau, madeiro, outras tantas, dignas da fantasia florestal. Claro que estas são ferramentas, ela própria uma aliteração, desdobrando-se se quisermos em sequências arrematantes que incluem bacamartes, martelos, e outrora, aríetes. 

Protegei pois as vergas selvagens – poder-se-á assim interpretar a missiva do santo padre. No que certamente é acompanhado por um coro de esmerados prelados que sonham com verga pródiga ou mesmo vergôntea envergonhada.

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BUM!

A irracionalidade (nada irracional, obviamente) do bombista suicida pressupõe uma forma de luta contra um poder de tal forma avassalador que a única forma de o enfrentar é o confisco da própria vida. Belo e heróico. Os bombistas suicidas são doidos? Confrontados com a prepotência, dir-se-ia melhor, a omnipotência do poder actual – militar, securitário, económico – entregam a sua própria vida na ara da consagração. O bombista suicida é o último homem com coluna vertebral a opor a Nietzshe e aos seus homens sem a mesma. Nada de doido nem alucinado.

We are the hollow men – escreveu T.S.Eliot. E seríamos caso não existisse o bombista suicida para nos lembrar que não precisamos de um fio de Ariana para nos orientar no labirinto; precisamos é de o cortar e de andar às cegas – de nos perdermos para que o verdadeiro desespero emerja. Quais choques eléctricos, descargas terríficas que nos arrancam da modorra das coisas seguras por câmaras de vigilância, vem sub-repticiamente o bombista suicida perturbar-nos, não nos deixando dormir, mantendo-nos em vigília. Se gostaria de morrer num atentado bombista como exemplo votivo a este sobressalto humano? Naturalmente que não! Para morrer que morram os outros: também não gostava de morrer na guerra, em bombardeamentos, em acções de limpeza étnica ou tão-pouco em rusgas policiais. A simetria entre os actos é evidente. Irracional é insistir que ela não existe. Afinal, parece que o único ente verdadeiramente racional nesta contenda acaba por ser – espanto! – o bombista suicida.

A morte pode sempre ficar impune desde que invocadas as razões certas. O que elas são tem sido alvo sempiterno de discussão: razão aliás para a refrega, motivo maior para o erguer dos impérios.

O mínimo que se pode dizer desta contenda é que ela é desigual. Ao ponte de opor sapatos contra bombas de refracção; cartazes contra batalhões tecnologicamente armados. Os exemplos de heroicidade sempre assim foram acolhidos: poucos contra muitos, desarmados contra armados. As lendas estão pejadas de tais situações; os cantos heróicos descrevem homens, recorrendo a esforços sobre-humanos, enfrentando perigos que a bondade racional levaria a recusar. David abatendo Golias; os 300 de Esparta contra os persas; Eurico, o presbítero, a reunir forças para desbaratar a mourama; El Cid, a fazer mais ou menos a mesmo coisa; Aquiles na compunção do desgosto a chacinar os troianos; e super-heróis de todo o jaez e originalidade a derrubarem exércitos do mal.

No mundo árabe, o bombista suicida, e seguindo esta sequência de efemérides fantásticas, os bombistas suicidas são justificadamente considerados heróis. Alucinação? Por que razão não o seriam se o arquétipo a que obedecem é exactamente o mesmo: poucos ou um que dá a vida para salvar um ethos?

No ocidente, os heróis do mundo árabe, são malquistos. Catalogados no índex dos loucos, dos assassinos imprevisíveis, de uma animosidade sub-humana (a contrapor aos seus émulos sobre-humanos) aparecem em fotografias de patíbulo em que a condenação está já acertada. E no entanto as manifestações no Iraque não são contra os atentados suicidas, mas sim contra as tropas ocupantes. Dirão mais tarde, coitados encontram-se num estado impróprio para compreender as premissas da democracia e em vez de nos saudarem em movimentos ondulantes de comoção espontânea vaiam-nos e queimam-nos as bandeiras! Mas os iraquianos sabem que assim não é. Aos americanos assestaram-lhes um sapato que ainda por cima falhou clamorosamente o alvo – a eles, iraquianos, destruíram um país e sabe-se lá quantas vidas.  

É desigual; escandalosamente desigual. Não se espantem pois com o bombista suicida.

Kalispera companheiros!

Os acontecimentos na Grécia têm suscitado as mais variadas reacções. Umas, escandalizadas com a erupção de violência apelam à paz e à razoabilidade. Outras, ofuscadas pela violência, intuem neles a grande mudança.

Júlio Machado Vaz, com a sua perspicácia usual, lembrou num programa de rádio que as manifestações na Grécia em nada se comparavam às suas congéneres do Maio de 68. As razões porque assim é são fáceis de identificar. Primeiro, porque o Maio de 68 era um movimento estético-político. Quer isto dizer que os interventores de Paris tinham a natural inclinação para subordinar a política à arte…sem se tornarem jograis. A subordinação da política à arte, ou a sua aliança cogitada, é o fémur (quando não a tíbia) do modernismo. A revolução é, nesse sentido, moderna, como bem viram quer comunistas quer fascistas. Por outro lado, esta invocação, ou redescoberta, do estético no político – criação-destruição, ciclos inalienáveis – liga-se estreitamente à ideia de utopia. E nisso foi o Maio de 68 pródigo. A utopia conduziu quer os estudantes de Paris quer os estudantes americanos que viam nas suas surtidas carregadas de múltiplos significados estéticos o germe da mudança. Este modo de estar abria o mundo à sua contingência e reforçava aquilo que era necessariamente a opção criativa no interior do espectro da política. A explosão, assim como as suas manifestações estéticas, confundia-se com um ímpeto juvenil que reivindica a libertação dos pai – dos inúmeros pais; do Uhr Vater.

E na Grécia? A esfinge perguntou a Édipo, e ele respondeu: o homem. Como bem nota Machado Vaz, na Grécia o que se regista é o desespero. Ainda o mesmo Machado Vaz a citar uma das mais emblemáticas palavras de ordem nas manifestações: devolvam-nos a vida! Isto é um grito de desespero e não um repto utópico. Quer o Viva la muerte!, quer o Non passaran de outros tempos não encontram eco neste desesperançado “Devolvam-nos a vida”. Este é um repto assustado, de animais acossados. Que a sua insatisfação se expresse em motins urbanos diz muito da falta de objectivos, concretos, programáticos, destes momentos de agravamento. Nem Sorel e a sua greve geral, total, espontânea; nem Gramsci e a orgânica partidária condutora do proletariado à vitória final. As manifestações gregas possuem em comum com os motins parisienses a falta de objectivos, a incapacidade de delinear uma estratégia global. Neste sentido, não são tácticas de guerrilha urbana postas em prática, como eram as surtidas dos jovens parisienses em Maio de 68 ou as manifestações de Washington. Ou se são, estão longe de serem tomadas de posição-acção parcelares cujo significado se poderia divisar numa vontade futura de sentido ainda turvo mas cuja convergência era passível de ser interpretada e integrada numa matriz: um cahier de dolences que se fazia acompanhar de um horizonte transformativo.

Embora Negri seja um dos autores que se auto-convenceu que as manifestações anti-alter-globalização enunciam um novo (ou novos, variados) cadernos de dolences, é difícil vislumbrar uma unidade, ou, para fugirmos às absolutizações sempre subjacentes aos desmandos unitaristas, uma sequência orientadora. 

Afinal, que vida querem os jovens gregos devolvida? Esta devolução pressupõe que já a possuíram; e se assim foi, por que razão a terão perdido? E que perderam os jovens gregos que os leva a optar pelo recurso à força? Possuíam eles anteriormente aquilo que agora reclamam? A vida, quando a tiveram? Essa vida sonhada, essa vida prenhe de ensejos libertários, tiveram-na alguma vez? Por isso, este “devolvam-nos a vida” surge mais como uma actualização de Antígona do que uma palavra de ordem.

Vale de Abraão

Revejo pela enésima vez o “Vale Abraão” de Manoel de Oliveira, o único Manuel que se escreve irritantemente com O. É de uma beleza extasiante. E uma outra palavra que poderia aqui ser empregue, aliás, a frase reescrita, seria: é de uma beleza extática. Porque Manoel compreendeu que extático e êxtase são complementares. Percebeu que a beleza que existe no movimento é efémera, sendo que apenas o que extático está pode criar a ilusão da grandeza.

 

Emma: Vou-me casar e nem sequer gosto dele. Na cena em que a jovem Emma é apresentada às tias Mellos não há qualquer coisa de profundamente linchiano? Porra! Aquilo é David Lynch puro. Ou o contrário. Lynch discípulo de Oliveira. Parece ridículo? Donde, que bestas os gajos que dizem que Oliveira não sabe filmar. E também, que linha de continuidade não se esconde entre um dos maiores cultores da tradição – um amor intransigente quanto às verdades telúricas – e um dos grandes pós-modernos? Obviamente, Lynch compreendeu igualmente que a beleza medra no extático.

 

 

O olhar directamente para a câmara – outra. Efeito de teatralização ou denúncia da mentira do cinema? No big brother toda a gente se encontra ciente que está a ser filmada…e por isso mesmo forja um comportamento natural: como se não soubessem que os seus actos e palavras ficarão irremediavelmente inscritos no digital. Esse sim, constitui o supremo efeito de teatralização. Saber-se visto e fingir que não se está a ser visto. Isso é, mais coisa menos coisa, representar, para todos os actos e situações da vida.

 

Lynch e Oliveira, dois compinchas na desmontagem da ilusão. Através da criação da mesma. O espelho, pois então. A consciência do espelho. E os espelhos abundam em Oliveira; em Lynch estão ausentes. Não há filme onde a imagem seja traída como reflexão. Em Oliveira, reflexões no interior de reflexões, refractadas. E haverá coisa mais extática do que a imagem do espelho ou a recordação dela?

Cogito ergo sum…Estado

O último texto de Mário Soares revela como o clarão da mudança pode repentinamente transformar-se no crepúsculo da desesperança. E assim chegamos à conclusão que esta convulsão económica, ao invés de anunciar um término, um esgotamento, provou a resistência do neo-liberalismo.

Os bancos, cuja dívida foi estatizada, mas cujos lucros se mantêm, e manterão, privados, provam o quanto o sistema é persistente e os seus mecanismos bem oleados. Ou não fosse grande parte da revolução neo-liberal a ocupação paulatina dos lugares fáticos coadjuvada pela sublime operação ideológica que a sociedade de consumo operou.

É uma realidade nada transcendente: a consideração que passa pela análise do neo-liberalismo através dos mecanismos ideológicos da sociedade de consumo. Por isso é que quando a esquerda assesta as suas baterias guerreiras contra o Estado está a visar o animal moribundo enquanto os verdadeiros rapaces planam alegremente sobre a carniça descendo, de quando em vez, para nela se saciarem.

 

Enquanto o mundo assim não for percebido, as possibilidades da tal mudança com carácter de epifania estarão sempre aquém do esperado. Um mundo de homens, feito por homens, como com toda a clarividência Marx intuiu. Esta constatação não é de somenos. Desde logo obriga a verificar as acusações contra o Estado. Se o Estado não pensa, como afirma Badiou, também é certo que não age. A conglomeração de forças que o atravessa não se reduz a um sujeito, ou entidade, autónoma e omnipresente. São forças sistemáticas que o atravessam; jogos de poder, lugares ocupados por homens com interesses objectivos, mas igualmente guiados por valores e sentimentos. Isto é o Estado – nem a consubstancialização do Espírito como queria Hegel, nem a máquina de poder-saber como o perspectivou Foucault. Acrescente-se a isso que esta rede de relações se encontra em permanente intercâmbio com o seu exterior – que apenas o é por relação a certas acções e prescrições, sendo que nada existe em si mesmo de auto-contido.

Se isto é o Estado, por que seria ele dotado de uma especificidade inclusiva que outras organizações não possuem? Por que razão exigiríamos do Estado uma inocência que apenas os anjos conhecem e da qual os homens são, salvo melhor aviso, despojados? Porque, e aí há que tirar o chapéu a Hegel, o Estado é percebido como uma projecção da nossa própria inocência. Quando um eleitor se reflecte no Estado, a imagem que lhe é devolvida é a da sua beleza incorpórea; um corpo sem falhas, contendo apenas virtudes. É esse também o sentido último da velha e consabida metáfora “Virtudes públicas, vícios privados”. O cidadão exige que o Estado se apresente em imagem, imaculada, gratificante em si mesma, espécie de escape para a sua própria natureza viciosa. Exige ao Estado aquilo que ele, cidadão, não é. Por isso mesmo vive mais cindido do que a divisão prometida no espelho lacaniano. Porque só é cidadão através do Estado, ou seja, a ele, e apenas a ele, deve a sua condição, falseia sistematicamente a sua origem. O Estado é imagem e como isso se torna operante. O cidadão é a refracção dessa imagem e procura nela completar-se. Se o Estado é o abutre de Prometeu, este último é em relação ao Estado a compaixão exigida pela cidadania. Sem Estado não há compaixão. O que é afinal o reino do senhor senão a instituição da compaixão?

Dois partidos – uma lógica.

A celeuma em torno do afastamento de Sá Fernandes revela uma certa maneira de estar na política. Uma maneira, como dizer, discrepante, parcelar, atrabiliária. Não, não é ao BE que me refiro. O BE, goste-se ou não, agiu com coerência. É sobretudo do lado do PS que veio o maior incómodo. Este foi fundamentalmente expresso numa fórmula tão árida quanto falaciosa. O Bloco só sabe ser oposição. Quando confrontado com as exigências do poder, tresmalha-se, extravia-se, perde o tino e acaba por não suportar a situação e ter que evacuá-la o mais depressa que conseguir.

O problema é que o PS tem um entendimento muito próprio do que são as exigências do poder. Nesta concepção de cartilha partidária incorpora-se habilmente a noção de compromissos estratégicos, que passam desde governar com o CDS-PP, tornando-se refém dos caprichos deste, até à boda oferecida aos accionistas do BPP. Na lógica do militante encartado do PS são torções necessárias para navegar na política e, por maioria de razão, na governação.

A governação torna-se assim uma acção sobre a qual o dilema da instituição da verdade não se coloca. Não pretendo enveredar pelos ínvios caminhos da verdade na sua acepção filosófica. Na acepção aqui utilizada a verdade é simplesmente uma fasquia a que nos propomos respeitar e da qual não transigimos. O dilema da instituição desta verdade é algo com que nos confrontamos diariamente – saber se desrespeitá-la não é mais prático e menos dispendioso, podia ser assim formulado na sua instância simplificada. Há claramente um fundo ético nestas escolhas. Essa mesma ética que, para o militante do PS, é facilmente tripudiada, quando não negada, caso se ofereçam condições para tal. Estou em crer que será difícil estabelecer o que são essas condições, pelo menos de uma forma, que se possa dizer heurística. Os factores são muitos e concorrem sempre em combinações diversas. Ou seja, é pouco provável que consigamos estabelecer um conjunto de factores fixos que levem a predições de atropelos éticos com grau de probabilidade aceitável. Por outras palavras, a ética é desvirtuada na medida em que a margem de manobra para a sua aplicabilidade – o que não estamos dispostos a transigir – encurta. Afigura-se isto a uma enunciação absolutamente pragmática, quando não instrumental, do dilema da verdade, que, como exemplificado, possui um fundamento ético. E talvez seja mesmo assim. De resto as questiúnculas que levaram ao afastamento de Sá Fernandes podem não manchar a coerência partidária – o acerto entre actuação e linha programática – mas são sobremaneira isso mesmo: questiúnculas.

Ficando salvaguardada a coerência militanto-partidária, resta saber se valeu a pena. Por exemplo, um atropelo ético da grandeza do empréstimo, por parte do Partido Socialista, a um banco privado com o nosso pecúlio, é uma chacina ética. As ilações que daí devem ser retiradas é que dificilmente poderá o governo assumir uma posição de autoridade que não caia esta acto contíguo na facécia. As manifestações dos professores aí estão para o provar. E enganam-se aqueles que pretendem que a política se compreende através de esferas autónomas, sem ligações temáticas entre as diversas reivindicações e posicionamentos. Porventura, o que oferece um tal poder de arregimentação às movimentações sindicais dos

professores – classe letrada e informada, como alguém já fez questão de salientar – não é tanto a questão da avaliação – que surge mais como um despoletador, um pretexto -, mas ao invés a perda de autoridade naquilo que princípios enunciados possam colidir com as acções. É esta sensação de falta de consequência na enunciação política que sobremaneira nos assola. Nesse sentido, só podem ser de louvar as irredutíveis decisões tomadas pelo BE. Assim seria, caso tivessem sido estas tomadas sobre algo que realmente afectasse a ética política, sobretudo a “verdade” política.

Objectivamente, de que se queixava o BE em relação a Sá Fernandes? Primeiro de ter este caucionado o fecho de uma praça para negócios privados. Nas imediações desta praça moram alguns militantes, membros e simpatizantes do BE. Heróis da gentrificação, aterraram em grande gáudio nas chamadas zonas históricas da cidade. E, talvez, tenha sido a proximidade de tão apetecido objecto – a praça e sua selecta esplanada – a causa de tão arreigada indisposição. Porque se dilema existia, resumia-se este a saber como e porque meios seria possível atenuar a dívida da Câmara. Parece lógico que a temporária “privatização” da praça se apresentava como possível solução. Trai isto alguma verdade inalienável? Não parece. Mas se o BE tinha ideias quanto a um plano de poupança que saldasse a dívida da Câmara deveria tê-lo por essa altura apresentado. Ao invés, apostou no arrazoado e na vexação.

O segundo pecado capital de Sá Fernandes foi ter-se solidarizado com a vereadora da habitação no terrível caso da habitação social, vulgo casa da Câmara. O motivo parece suficientemente mesquinho para sequer ser invocado, quanto mais fazer dele bandeira de dissenso político. Mas assim foi: o BE armou-se de toda a sua arrogância militante e vai de cascar em Sá Fernandes porque se colocou ao lado da vereadora. Em resumo, e perguntamo-nos: colocam estes motivos em causa princípios inalienáveis da mundividência política do bloco de esquerda? Fá-lo-iam, se pudéssemos garantir que nunca nenhum membro do BE pôs o pezinho em ramo verde. Hahahaha, gargalhada tonitruante.

E o que é que se perdeu? Uma aliança camarária com o PS? A possibilidade de ter alguém que comunga, em larga medida, do ideário BE e das suas opções para a Câmara de Lisboa? Espero que não se esgotem estas últimas em impedir o fecho de praças para operações de marketing ou na mais ingente questão da distribuição de casas. Se assim for, passe bem o BE e os seus inexoráveis valores. Como não será tanto assim – tenhamos esperança -, por que vocifera o BE? Para que corre o BE? Em contraste com o PS, para quem os verdadeiros valores se encontram entre a locupletação e o jogo de cadeiras, a solidariedade entre os seus membros surge como mais aritmética. Será isto assim tão negativo?