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Críticos de merda

Novembro 28, 2008

 

 Jorge Mourinha no Público e a propósito de Ensaio sobre a cegueira de Fernando Meireles

 

Por um lado, a alegoria de uma civilização reduzida ao primitivismo por uma misteriosa cegueira epidémica (luminosa em vez de escura, indetectável contudo real) não sobrevive à opção hiper-estilizada de Meirelles em concentrar a acção no interior do pavilhão de quarentena. Ao fazê-lo, o cineasta neutraliza a carga apocalíptica da metáfora, que apenas surge sempre que o filme sai para fora daquela prisão improvisada ou que há contacto com gente de fora (a arrepiante cena em que Moore e Mark Ruffalo estão na mira de soldados apenas por quererem pedir medicamentos).

Assim que, no “terceiro acto”, a acção se transfere para a metrópole abandonada, povoada por cegos que vagueiam pelas ruas, “Ensaio sobre a Cegueira” ganha (mesmo que por pouco tempo) o embalo perturbante que lhe escapou anteriormente, consegue sugerir a angústia indizível de um mundo que acabou (que, por exemplo, “Eu Sou a Lenda” de Francis Lawrence conseguia instalar rapidamente).

 

Ainda não vi o filme. Mas o que é certo é que Mourinha não leu o livro. Nem daí viria mal ao mundo – Mourinha tem lá sua vida e há mais livros na terra do que marinheiros no mar. Todavia, Mourinha escreveu uma crítica sobre um filme que deliberadamente se assume como sendo baseado num livro. Livro esse, lembremos, que é quase certo que Mourinha nunca passou da página trinta. E, mais uma vez, daí não viria mal nenhum ao mundo – há livros que nos prendem e os desbastamos como as escavadoras desbastam a Amazónia, e outros há que nos tornam sonolentos e que afastamos na primeira oportunidade. Contudo, Mourinha escreveu uma crítica onde diz

 

Por um lado, a alegoria de uma civilização reduzida ao primitivismo por uma misteriosa cegueira epidémica (luminosa em vez de escura, indetectável contudo real) não sobrevive à opção hiper-estilizada de Meirelles em concentrar a acção no interior do pavilhão de quarentena.

 

Se Mourinha tivesse lido para além da contracapa, saberia que “concentrar a acção no interior do pavilhão de quarentena” não se deveu à “opção hiper-estilizada de Meireles” mas mais prosaicamente ao facto de a narrativa se encontrar concentrada no pavilhão de quarentena. Por conseguinte, não leu o livro. Porém, insiste. Se o filme “Ensaio sobre a cegueira” instalasse a acção imediatamente no exterior transmitindo-nos prontamente a “angústia indizível” de um mundo que terminou conseguiria o efeito de “Eu sou a lenda”. Pois é, não leu o livro. Três quartos do livro são passados dentro do pavilhão de quarentena. Tomada a opção pelo exterior, seria talvez o “Eu sou a lenda” ou mesmo o “Wall-E”. Mas não é. Trata-se de “O Ensaio sobre a cegueira”, livro de Saramago que não pretende – algo que nem sequer coloco à discussão – transmitir a “angústia indizível” do fim do mundo exterior, mas sim, a angústia indizível do mundo interior. Daí os espaços claustrofóbicos; daí a miséria humana concentrada em cativeiro; daí a alegoria – que tem pouco a ver com “o fim do mundo” de Romero ou de Carpenter -, representação inequívoca da natureza humana, da sua volubilidade, e enfim da sua mesquinhez.

O Ensaio sobre a cegueira não encerra “nenhuma carga apocalíptica”, e ainda menos no registo de Romero e de Carpenter. Pouco tem a ver com O Regresso dos Mortos Vivos ou com o “Eles Vivem”. Se metáfora há é, evidentemente, a da cegueira. E este Mourinha julga que os outros são ceguinhos. Não leu o livro, o tratante.

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