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Presunção de inocência

Novembro 26, 2008

Sinceramente, não consigo enxergar a razão para tanto espanto perante o comunicado de Cavaco Silva. A menos que, como alguns desmemoriados, se pensasse que Cavaco era uma pessoa recta, admiravelmente idónea, e de uma ética impoluta. Tratava-se, evidentemente, de um outro Cavaco e não aquele que eu acompanhei durante duas maiorias parlamentares. Como bem lembra Baptista Bastos, e ao contrário do Daniel Oliveira, que se calhar por essa altura ainda era muito novo, o reinado de Cavaco foi um terror e mereceu justificadamente o rótulo de cavaquistão. A memória é sempre um brinquedo perigoso. E, condenados a não a respeitar, condenamo-nos a repetir os erros que ela tende a olvidar.

Notícia agora o 24 horas que a teia do BNP se estende até à Assembleia Regional da Madeira entretecendo-se com offshores e personalidades de gabarito do PSD Madeira. Espero que tais revelações não suscitem o mesmo espanto que o atiçado pelo comunicado de Cavaco Silva. Se bem que não fosse difícil perceber, servindo-nos apenas de especulação e imaginação, que o poder de Jardim teria que estar respaldado em qualquer lado, para além do político, obviamente. E constitui também mais uma daquelas novidades que toda a gente conhecia, mas que, por qualquer razão incompreensível, é poucas vezes evocada quanto mais escalpelizada. Refiro-me ao facto dos offshores da Madeira e do seu papel nas lavagens de dinheiro e fuga aos impostos.

Está ainda para ser feita a história do cavaquismo. As banalidades costumeiras que sobre este período são alinhavadas, não chegam para analisar quão funda terá sido a penetração dos interesses a ele ligados na distribuição do poder e de recursos no Portugal após 25 de Abril. Vamos conhecendo esta teia aos soluços. Hoje, revela-se mais um pouco. Desde ligações com a Madeira passando por generosas doações vindas de altos cargos do BPN ao PSD, sobretudo à campanha presidencial de Cavaco, os indícios parecem cada vez mais prenunciar que as ligações entre o BPN e o PSD eram um pouco mais do que fortuitas. E que Cavaco tem mais razões para se preocupar do que o seu singelo comunicado fazia antever.

Torna-se evidente que, por mais encómios que sejam desbaratados sobre o homem Cavaco, dificilmente poderia ele não estar ao corrente desta teia de interesses. Até porque, dado o lugar de referência que sempre ocupou entre as hostes do PSD, é pouco crível que não tivesse ele próprio contribuído para a extensão e consolidação desta mesma teia. Note-se que foi necessário haver uma maioria absoluta PS para que a investigação chegasse onde chegou.

Donde a preocupação de Cavaco ser genuína e não ser fruto de uma má gestão de imagem. Não quero com isto dizer que Cavaco esteja directamente implicado nas burlas do BPN. A suspeita que se insinua é, ou Cavaco é demasiado crédulo e anda rodeado de malfeitores sem disso se aperceber – o que não abona em favor da sua inteligência -, ou tem convivido bem com a situação, ao ponto de se achar na obrigação de defender directamente um dos seus conselheiros de Estado aparentemente implicado nas falcatruas. Seja qual for a hipótese mais provável, uma coisa é certa, da desconfiança já não se livra.

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