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As bicicletas da discórdia

Novembro 23, 2008

 

Respigado nas profundezas reverberantes do raciocínio do Maradona, surge à tona a questão das bicicletas em Lisboa. Bicicletas de Pequim; Ladri di biciclette; e finalmente as famosas bicicletas em Lisboa. Filme cómico-satírico com tonalidades surrealistas, mas de grande potencial alucinatório.

Assim de repente a ideia parece uma treta, um enorme engodo para papalvos, uma daquelas tentativas, como diz o Maradona, de importar ideias do norte da Europa que quando transferidas transformam-se em sandices. Algumas nem são importações da Europa, são da América, ou mesmo do Japão. Cada um dos nossos autarcas tem tido a sua quota-parte de megalomania parola. Exemplos? O Luna Park do saudoso Abecassis. Um gigantesco parque de diversões pespegado à frente dos Jerónimos. O teleférico do Campo Santana do inimitável João Soares. Um monstro de betão a esmagar os frágeis casinhotos da Graça. O túnel do Marquês, do relapso Santana. Este por acaso, megalómano ou não, dá um jeito tremendo.

Em comparação com estes empreendimentos, o plano das bicicletas até parece modesto e contido. Helas, tem razão o Maradona quando salienta que Lisboa não é cidade para bicicletas, caralho! (com a devida vénia).

E todavia, alguns dos argumentos não são famosos. Quer dizer os argumentos, quase que esbrancejantes, sôfregos sem dúvida, negam as capacidades pulmonares das quais o próprio se gaba. Ou melhor: tem a ver com as pernas, circulação sanguínea, batimentos cardíacos, e enfim, caixa toráxica…pulmões. Principalmente o argumento da metereologia. Então comparando com as cidades do norte da Europa, onde a bicicleta possui o mesmo estatuto que as vacas na Índia, Lisboa é um perigo para os velocípedes e seus condutores? Esta não lembra nem ao caralho (com a devida vénia)! Lisboa está para o norte de Europa em termos climitéricos como o mar morto está para a costa de Peniche. No norte da Europa é que não são maricas como os queques da linha e montam-se nas bicicletas contra ventos e tempestades, intempéries várias e, se for preciso, até em dia de terramoto. Ou seja, está-lhes na massa do sangue. Lisboa, climatericamente falando, seria o paraíso das bicicletas! Mas desculpemos o absurdo, porque no fundamental e no que se segue tem ele absoluta razão.

A topologia da cidade. Infernal para qualquer pedal mais entusiasta. Verdade. Contudo, existe uma fatia inexplorada que, mais uma vez, faria as delícias dos amantes do ciclismo: ao longo do Tejo, toda a faixa que vai desde Cascais até à expo – que imenso corredor, que via privilegiada! Seria isso o suficiente para justificar o sistema das city bikes? Duvido. Mas que é uma ideia do caraças, lá isso é. Helas!, temos o mostrengo do porto de Lisboa, que ao contrário do de Pessoa, não dá três voltas e desaparece, a tapar, no fundo, a bloquear, a usurpar, toda a faixa junto ao Tejo. Repare-se que sem esse pedaço faz pouco sentido uma ciclovia. Diferente é a marginal. Não só seria uma solução consonante com as velocidades com que se é obrigado a andar em alguns troços, como tiraria, eventualmente, trânsito da referida marginal. Significaria que os utentes passariam a ir de bicicleta para o trabalho, tentando assim baixar os infames índices de colesterol que cabem por sorte aos portugueses? Pouco provável. Até porque os utentes da marginal, a linha do Estoril, cultivam um estilo que evita os transportes públicos como o diabo evita a cruz. E com razão. É que a zona está mal servida de transportes públicos. Começo, no entanto, por duvidar que se melhor servida tivesse a malta deixaria de levar o carrinho para os engarrafamentos da Cascais-Lisboa ou da própria marginal. Afigura-se como um daqueles comportamentos, parafraseando Maradona, onde o possível suplanta o razoável – e de que maneira! A irracionalidade dos engarrafamentos Cascais-Lisboa pouco tem a ver quer com bicicletas quer com transportes públicos. Quem assiste ao cortejo de Mercedes, BMWs, Volvos e outros bólides cedo conclui que os habitantes da linha não poriam o cu num transporte público, quanto mais numa bicicleta, nem que lhes pagassem. O que não quer dizer que por lá não habitem das mais desportivas e saudáveis pessoas; basta para isso ver os índices das direcções regionais de saúde. Chama-se, dinheiro. Mas uma coisa e andar de bicicleta ao fim-de-semana e outra coisa é fazer dela um meio de deslocação privilegiado.

Bicicletas e ciclovias.

Resultado, com uma ciclovia a bordejar o Tejo, não me parece nada absurda a hipótese das city bikes. Seria, em princípio, para os turistas. Que cidade oferece a possibilidade de andar quilómetros de bicicleta ao longo de um rio majestoso e imponente como o Tejo? Na Europa? Nenhuma. Podia até ser aquela vantagem comparativa que atrai turistas que consideram ser a Torre de Belém e o Elevador do Chiado razões insuficientes para deixar os putos na avó e vir de segunda lua-de-mel a Lisboa. Esta cidade que não só não tem idade como cada vez tem menos motivos de interesse, poderia assumir-se como a cidade que deixa o turista passear horas de bicicleta à beira do Tejo. Todavia, para isso era preciso arrumar com o porto de Lisboa. Se calhar o Miguel Sousa Tavares é que tem razão.

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