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O triunfo de alguns porcos

Novembro 21, 2008

Esta semana foi pródiga em expressionismo. Não me refiro à corrente artística onde avultam nomes como Munch ou Schiele, se ficarmos pela pintura, e pelos meus preferidos (mas se não quisermos ficar, podemos sempre incluir o Gabinete do Dr. Caligari), mas pela discussão gerada em torno de expressões proferidas por certas (e determinadas) figuras públicas. Dir-se-ia, brincando com o cânone artístico e com a sua concepção enquanto sucessão de movimentos, que a semanas de surrealismo – com a manifestação dos professores e o dizer e desdizer da ministra, com a falência do BPN e correlatamente, quiçá, do PSD -, se seguiu uma semana de expressionismo (ou mais uns dias – 8 ou 9).

Desde a expressão infeliz de Ferreira Leite – vou mas é suspender a democracia, para pôr estes gajos na ordem – até à ainda, na minha opinião, mais infeliz expressão de Victor Constâncio – os desempregados andam é a mamar no subsídio de desemprego – as afirmações foram crivadas de subjectividade sentimental, abertas às mais desvairadas interpretações e ainda mais desaustinados desmentidos e justificações, tudo fruto de um pathos sentimentalo-mediático (expressão também ela eivada de expressionismo e que necessita imediatamente de qualificação…mas que não terá por manifesta falta de horizontes conceptuais do autor) que se aproxima, muito de fininho, daquilo que o expressionismo definiria como angst. Desespero, condição frágil, humana demasiado humana versus porcos e javardos. Nada analítico; sem pinga de fruição estética.

Houve, subrepticiamente, ou não tanto, um emergir das verdadeiras faces por detrás das máscaras. Por um lado, uma ex-ministra das finanças a falar em suspender a democracia. Irónico, obviamente. Embora, mesmo nestes nefastos tempos da democracia real, espécie de émulo do socialismo real e igualmente apertado e espartilhado pelo jargão da autenticidade, o PSD de outrora tivesse pelo seu então líder caminhado nesse sentido. Não admira portanto que alguém saído dessa mesma escola, carregue essa pessada herança e a venha a expressar mais cedo ou mais tarde. É que a democracia em Portugal foi sempre uma coisa estranha; e salvo melhor aviso, também no resto da Europa pós-fascista.

Sintomático dessa estranheza é sem dúvida um governador do Banco de Portugal, em período de tiro ao alvo à sua augusta personagem por ter deixado passar-lhe pelas mãos, qual areia arredia, as falcatruas de um dos maiores bancos privados portugueses, afirmar que o desemprego de longa duração se deve à doce teta do subsídio de desemprego. E é ele (ou foi) do Partido Socialista. Até porque, eximidas as conotações éticas mais ou menos veladas, a afirmação do distinto administrador se aproxima de uma outra sobre ciganos e rendimento mínimo garantido. Não estaria o senhor bem melhor instalado para as bandas da extrema-direita a fazer companhia à cruzada moral erguida por Portas? Será para ele resolver com a sua consciência e o pendor político que dela se aferir.

O mesmo para as infelizes declarações de Ferreira Leite. Paulo Pedroso analisou bem os seus contornos retóricos e os seus objectivos estratégicos. Em política o que parece, nem sempre é. Parece uma gaffe (e aqui sigo de perto o raciocínio de Paulo Pedroso) mas não é. Como as estimadíssimas gaffes de Berlusconi – parece que são, mas não são. Ironicamente, ou nem tanto, na estrita lógica das articulações, as temáticas aventadas por MFL, surgem, quase que diríamos, numa sequência necessária. Hostilização da imigração – Protecção dos interesses – Autoritarismo da liderança. Articulação ideológica perfeita que anuncia o nosso Haider, Le Pen, Berlusconi-Fini, de saias. Talvez, perdido o centro direita para o PS, esteja de facto a tentar cativar o eleitorado do lado oposto. Neste sentido, MFL só peca pela fraquíssima presença mediática. O que não significa que seja vítima de uma cabala orquestrada pelos média para reduzir a sua imagem ao mínimo…dispensável. Ao invés, significa que MFL não tem imagem, e a que tem é imprestável para o circo mediático. Este circo, é sabido, encontra-se numa relação de incompatibilidade com tudo o que não produza estímulo imediato. E embora eu abomine MFL, compadeço-me por vê-la a sofrer com esta intransigência da sociedade do espectácul, que não dá a devida atenção a uma cara que assusta as crianças mais susceptíveis (a cara, a voz, a simpatia que irradia). Por isso, e aqui é que o jargão político volta a fazer falta, talvez se aplique o destemido “falem bem ou mal de mim – mas falem de mim!”. Em verdade não acredito que seja assim tão estratégico. Se assim fosse, este princípio aplicado às suas últimas consequências instrumentais, faria de Santana Lopes um génio da política no contexto da sociedade do espectáculo. E no entanto, ele lá vai sobrevivendo…

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