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Yes, we can?

Novembro 5, 2008

Obama venceu. A direita deve tirar ilações desta estrondosa vitória? Deve. Mas a lição mais importante é para a esquerda. Obama pôs em prática uma estratégia que deu frutos a qual pode, e deve, ser designada por populismo de esquerda. A direita, da mais conservadora à mais moderada – se é que existe – tinha-se apropriado do populismo como estratégia política. E a esquerda, demasiado concentrada em diatribes fracturantes ainda não tinha levado a cabo esta urgente adesão: a invenção de um populismo de esquerda. Neste sentido, a vitória de Obama não é tanto significativa porque um afro-americano chegou a presidente dos EUA, mas sobretudo porque Obama é um inovador no discurso político…de esquerda. Por isso, quando a esquerda diz que Obama não é de esquerda comete um erro fundamental de apreciação. Mais do que concretas opções programáticas, o que Obama oferece à esquerda é uma nova linguagem. Num jogo demasiado assimétrico, onde a direita não mostra qualquer pejo em fazer apelo aos mais pusilânimes sentimentos nacionalistas e belicistas, Obama vem provar que a mesma retórica pode ser moldada aos temas que importam à esquerda. E ninguém, até agora, o tinha feito com a mesma mestria.

 

A direita, atente-se na blogosfera, tenta desvalorizar a capacitade de arregimentação popular deste discurso. Na sua mediocridade, insiste que Obama ganhou por ser preto, e que uma espécie de estratégia do ressentimento se apoderou do eleitorado norte-americano. Reduzindo a uma caricatura o raciocínio de pessoas como JMiranda ou dos restantes “blasfemos”, dir-se-ia que os norte-americanos teriam pensado “coitadinho do Obama que é preto, vamos dar-lhe a presidência dos Estados Unidos porque eles já sofreram tanto”. Esta visão minorante das qualidades políticas de Obama é bebida na Fox news e nos comentadores das grandes publicações de direita neo-conservadora. Também eles, face ao desaire do partido republicano, insistem na ideia de um afro-americano ter ganho as eleições. Esquecem convenientemente uma coisa: a questão racial nos Estados Unidos nunca se resumiu somente à cor da pele – sempre foi um problema de desigualdade. Desigualdade cívica, política, económica e cultural. Com efeito, não foi apenas a identificação pela cor da pele que levou 95% dos afro-americanos a votarem Obama. Foi também o facto de este falar a sua língua. A linguagem dos despossuídos, dos excluídos do grande banquete capitalista, dos que não vêem os frutos dos sacrifícios que fazem. Por acaso, esses coincidem com uma grande fatia destes 95%. E isso mostra de que é feita a democracia na América.

 

É claro que de Londres a Berlim, os europeus desejam atirar Bush para o dustbin of history. Contudo, não nos iludamos. Não é só Bush que precisa de ir para o dustbin – é Barroso, Berlusconi, Sarkozy, Merkel, etc. Enquanto isso não acontecer a vitória de Obama é ainda curta. E não adiante ficarmos enternecidos com as mensagens jubilosas de Sarkozy, Barroso ou Merkel. São falsas. O que mais se ateve à verdade foi a forma displicente e arrogante com que Berlusconi se ofereceu para dar explicações a Obama. Este é o verdadeiro rosto da direita europeia: prepotente e ignóbil.

 

A direita tem um medo de estimação (o seu pet preferido). O medo que a relação transatlântica saia transtornada desta viragem nos USA. Por mim espero que seja esse o desfecho. Espero, a bem da “mudança” prometida que ela saia irremediavelmente transtornada. Porque quem agora felicita Obama pela sua vitória histórica, foram aqueles que iam a correr para o rancho de Bush tirar fotografias colectivas; aqueles que nunca levantaram a voz contra Guantánamo, que apoiaram cegamente a invasão do Iraque, que respaldaram a ideologia neo-conservadora e o seu ex-libris a expansão infrenável do poder do mercado. E por isso foram premiados. Uns com a presidência da Comissão Europeia; outros com negócios chorudos. Para que a promessa Obama se mantenha, a relação transatlântica não pode manter-se inalterada enquanto os sequazes de Bush mandarem na Europa. Estranhamente, a reverência que os europeus mostram nas suas manifestações de apoio a Obama não tem equivalente na maneira como votam nos seus próprios países. Insolúvel contradição.

 

Outra grande preocupação da direita mais coriácea é saber o que acontecerá à afirmação de força típica do império americano. Um senhor com ar patibular dizia num jornal online que se temia uma invasão de Taiwan por parte da China. Deixando de lado o facto de Obama não ter dado sinais de grandes mudanças na política externa norte-america – facto consabido que a tradição nessa área tem mostrado uma constância notável quer estejam republicanos quer democratas no poder -, não se percebe porque razão seria Obama diferente de um qualquer outro candidato democrata. Era bom que fosse, mas nem eu que gosto de Obama sou ingénuo ao ponto de pensar que a “change” vá ser tão radical. A menos que ele quisesse dizer que um candidato democrata é naturalmente mais frágil quando confrontado com crises internacionais. Algo que a história desmente abundantemente.

 

Mas isto é fazer de advogado do diabo. O que se espera, sinceramente, é que a América deixe de afirmar a sua força no mundo. Não precisamos dela. Não precisamos nem do seu unilateralismo nem queremos partilhar do seu projecto de hegemonia. Somente a direita mais arrivista se deixa encantar pelas trombetas do apocalipse da senhora Palin ou pelo canto dos heróis de guerra de McCain. Teimam em esquecer que 36 milhões de pessoas, espalhadas por todo o mundo, saíram à rua em 2003 para se manifestarem contra a invasão do Iraque. Essa mesma direita, ultra-conservadora, mas hipocritamente camuflada, vem agora dizer que a invasão do Iraque foi um erro. Lembram-se? Não era este mesmo, então jovem, que verberava a tibieza dos europeus por não saírem em campanha ao lado de George W. Bush contra o tenebroso eixo do mal? Pois era. É esta a direita portuguesa na sua mais viva representação.

Irá Obama mudar o mundo? Nem de perto nem de longe. O mundo está em mudança. Obama é uma oportunidade. Ou se quisermos, como hoje é corriqueiro dizer, é uma janela de oportunidade. Se ela será aproveitada depende de uma imensidão de factores. Os Estados Unidos não são o governo democrata. Para que a mudança funcione é preciso entregar às pessoas mecanismos de escrutínio, formas de bloquear os abusos dos ricos e poderosos, instrumentos que contrabalancem a vertigem do mercado e do consumo. Estará Obama disposto a isso? E mais importante, estarão as pessoas dispostas a isso?

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