A Aldeia da Roupa Branca do século XXI

 

Parece título de música pimba; e acho que o autor não se incomodaria muito com o reparo. Aquele querido mês de Agosto, de Miguel Gomes tem merecido as críticas mais entusiásticas, os encómios mais aperaltados…e eu não percebo porquê. Será porque o filme nos tortura com longos planos de uma menina trigueira a cantar pimbalhada até ao limite da resistência sensorial? Será porque cada plano sem diálogo não escapa à sofreguidão de “uma mulher traidora” ou “o teu beijo já não sabe ao mesmo” ou “regressa, porque não posso viver sem ti…regressa…” martelado teimosamente durante todo o filme?

O realizador, o distinto Miguel Gomes, afirma não gostar de Emir Kusturica. Diz ele, que Kusturica põe os actores de cabeça para baixo. E claro, ele, Miguel Gomes, propõe-se captar a pureza do não-actor, sem artifícios, sem mise-en-scéne. Ou talvez fosse apenas falta de graveto, pilim, narta…O que quer que seja que justifique os malabarismos fílmicos não convence. E se há coisa que revolta no estilo Miguel Gomes é o modo como ele trata os actores, que não o são, as personagens da vida real, que emprestam à câmara os momentos de exploração cinematográfica que se presta pressurosamente a captar. Miguel Gomes, contrariamente às torções a que Kusturica obriga os seus actores, denota por estes um desprezo e uma distância que nem se situa no pimba – forma de comercializar o popular – nem na estética na esteira de Oliveira.

Uma fórmula que resume este filme: Manuel de Oliveira meets João César Monteiro – mas sem a genialidade de nenhum deles! Sobretudo a tão badalada passagem do documentário para um enredo. Falou-se da ponte, da cena da ponte que marcaria a transição. E depois de atravesada a ponte enxerta-se o enredo numa história que começa por ser puramente documental. No decorrer da parte documental, são-nos dados a conhecer um conjunto de personagens reais, testemunho vivo de que a vida imita a arte (e não o contrário) onde a ironia se alcandora em cada acto falhado e descuido verbal dos pobres aldeões. E é aqui que o filme sofre de uma ruptura ética com o seu objecto: faz humor insinuando-se enquanto testemunho cru de uma realidade objectiva. Ou seja, esta demanda pela pureza dos personagens, pessoas reais vertidas em actores pelo ilusionismo da câmara, transforma-se numa presença que abusa da credulidade dos filmados. O querido mês de Agosto é tudo menos querido. Pressente-se uma exploração larvar da ignorância dos filmados. Que diferença quando comparado com “Viagem ao princípio do mundo” de Oliveira! Miguel Gomes não filma a vida de uma aldeia do interior – Arganil e a sua ponte das três arcadas -, não filma as suas gentes e o seu quotidiano; serve-se antes de testemunhos avulsos para compor uma farsa. Farsa essa da qual os filmados não sabem que fazem parte.

Mas isto é a parte documental. Porque na realidade o “Querido mês de Agosto” é também o querido Setembro e o Outubro. Depois do documentário vem o argumento propriamente dito. E julgo que aqui nenhum expediente conseguirá justificar a pobreza da história e o trabalho paralítico dos actores. Na boa tradição portuguesa, os actores parecem que sofrem todos de obstipação e que lhes pesam as entranhas. Cada vez que pronunciam uma frase, parece que se lhes entaramela a língua. Mas não é de supreender: os diálogos estão ao nível das telenovelas da TVI. A história, é de uma novidade insuperável: o incesto entre um pai e uma filha. Se a isto juntarmos a musiquinha temos uma versão portuguesa do Monsoon Wedding, o aclamado filme indiano cujo enredo se centra na relação incestuosa entre um tio e uma sobrinha; com uma diferença – os actores são melhores.

O Querido Mês de Agosto pode também ser visto como uma tentativa de provar que algumas pessoas quando confrontadas com uma câmara de filmar conseguem ser melhores actores do que aqueles que são contratados. Mas é este estado de coisas ainda admissível? Parece que sim. Nem com todos os santinhos pós-modernos nem panegíricos ao inconformismo do realizador nos convencem. Os “estrangeiros” como não percebem patavina de português, vêem, e ouvem, aqueles actores e pensam: é Bergman!, é Antonioni!, é Dreyer! Mas não é. São simplesmente os canastrões dos actores portugueses. Treinados ou destreinados.

Para além disso, lembram-se com certeza da Aldeia da Roupa Branca (quem não se lembra!). A alma portuguesa pretendia-se condensada naquela aldeia de roupa branca estendida ao sol, onde se cantava desde o dealbar até ao ocaso, e pelo meio ainda se cantava com mais estamina. Um Portugal cantado, onde a luta de classes não existia, uma harmonia celestial, do brejo onde se lavava a roupa para as jantaradas e bebedeiras. Que alegria! Que comoção não se encontrava contida naquelas cançonetas. E não anda o Querido mês de Agosto próximo disto? Não corteja precisamente este modelo? E não se pretendia também alcançar uma qualquer pureza, uma condição original não deturpada, no primeiro caso, pela nefasta influência do urbano, e no segundo, pelos meios mais sofisticados? Não são, ao fim e ao cabo, as duas recusas do artifício reconduzíveis ao mesmo princípio, a saber, que existe um interior não contaminado?    

Um pensamento sobre “A Aldeia da Roupa Branca do século XXI

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