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Bééééé

Novembro 2, 2008

O BE é um partido ambivalente. A sua ambiguidade reside no facto de existirem dois BE. Há um Bloco de esquerda constituído por aquilo que se poderia chamar uma “velha guarda”. O Louçã, Miguel Portas, Fazenda, Semedo, de certa forma o Rosas, cabem nesta acepção. Foi uma geração que fez o PREC e nesse sentido tem tanto um envolvimento partidário como ideológico maturado nessa escola de intervenção social.

Depois há um segundo bloco. Deste novo escol do BE poder-se-á dizer que é fundamentalmente caracterizado por uma vontade de protagonismo arrivista, de aparecer, de dizer, de mostrar sobranceira e arrogantemente o que sabem e o que não sabem. Destes avulta a partilha das minudências académicas, caldeado numa jactância teórica digna de neófitos de uma seita de religiosa. Referências, elas próprias trocadas ciosa e religiosamente: os negrianos contra o badiounianos que por sua vez se digladiam com os zizekianos e por aí afora. Nos escombros destas picuísses teóricas fazem-se carreiras e ilustrações tão académicas quanto inócuas…em termos políticos entenda-se. E sobretudo, em termos de uma política de esquerda.

Desconfio deste novo escol, por princípio, por experiência, por intuição. Penso que pouco terão para dar à esquerda. E na realidade, considero-os um pouco assustadores. Salvo excepções, carregam geralmente o lastro da academia, à qual se ligam quer profissionalmente quer intelectualmente. A sua ligação à academia não é furtuita; foi aí que concentraram os seus esforços, foi ligada a essa mesma academia que procuraram o seu protagonismo, e é justamente segundo as suas regras de distinção intelectual que se comportam no meio político.

Por conseguinte, prevejo que este BE terá pouco a dizer às pessoas comuns – aquelas que não precisam de citar dois ou três autores para se situarem na vida. O excesso de intelectualismo desta facção do BE está bem reflectido na sua rebeldia contra princípios e orientações. Trata-se do conhecido tema da subjectividade das interpretações. Neste sentido, mas não só, a nova geração do BE – a seguinte, mais precisamente -, é por norma refractária a tudo o que se assemelhe a um colectivo. Repare-se que a adesão ao colectivo “partido” é sempre feita com reservas. Essas reservas são geradas por uma desconfiança em relação à arregimentação. Por isso, a nova geração do BE gosta de se colocar à distância das massas, para quem o arrazoado e a falta de quadros teóricos provoca o maior desconsolo, quando não desconforto.

Certo, salientar a importância da teoria como princípio de activação da compreensão do que nos rodeia nunca pode ser em excesso. Torna-se no entanto tenebroso, quando é esta mesma obsessão que se transforma em centralidade da actuação política. Não tanto quadros teóricos deficientes, mas antes a insistência nesses mesmos quadros como a única linguagem possível. Ora isto é retórica de académicos; o jogo das publicações, das conferências, enfim, da acumulação de capital simbólico. Esta ruptura entre uma geração política, no sentido mais intransigente que a palavra possa sugerir, e uma geração académica não é de somenos. E pode, a médio prazo, traçar o destino do BE. 

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