Por que se suicidou Celan?

 

 

 

Lembro-me ainda das águas do Sena, quando o meu corpo nelas se consumia, quando eu me consumia nelas e as resguardava em mim como se do último refúgio real se tratasse. Ficaram à minha espera: eu que mais me aproximei da morte, que a fui dizendo porque caminhava e em caminhando me fui lembrando da sombra, a minha e a outra a que sempre me acompanhou negando-se, mas que se insinuava como a presença da rosa. Recordo também que a rosa, essa mesma, a que me pesava na tampa do caixão desde o dia em que fui caminhando, cresceu-me na boca, enquanto o meu corpo se entregava às águas lodosas do Sena, as benzia, as nutria, as devolvia mais caudalosas e negras. Através da rosa eu interpelei o mundo e só quando ela se anunciou no interior da boca, lustrosa e molhada pelas águas do Sena, eu ouvi cantar no jenseits der Menschen.

Enquanto o sol se esvaecia na sua brancura de esquecimento, assomou na minha fala essa injustiça suprema de me terem, para sempre, feito refém do holocausto e do judaísmo. Eu, poeta judeu, errando ao encontro do inominável, fui nomeado, condenado às grilhetas do Holocausto, pássaro insaciável que me foi destinado como a Prometeu. Por que precisam os homens de justificar a quem lhes escorre a morte dos lábios? Que receio trazem aninhado nos seus peitos esconjurados, tementes dos que em vida se entregaram a uma poesia da finitude? Não, não creio que tenha sido do Holocausto nem da Mittleit judia que a minha palavra se vez portadora. Eu estava mais perto dos homens – à distância de lhes dizer que o gesto era para nada e para ninguém. Qual a virtude mais alquímica? A que canta a vida ou a que canta a morte?

Mit von Steinen geschriebenen schatten, as minhas, as de todos os outros, principalmente as da memória que me traía a horas vagas e desacostumadas da bondade humana. Quando falei ouro pela última vez? Quando foi que disse esta carta para ti meu amor será selada com a brancura do inexistente.
Os mortos falaram por mim, usaram a minha boca para se traduzirem, tornarem a morte humana, recriando-a, como em tempos antigos, como a refeição familiar. Então descemos. Demos as mãos e descemos, usando cada passo no ritual laborioso do perdão.

A mim falam-me os «os rios a norte do futuro», porque neles depositei a esperança de que não mais se invocasse a palavra salvação.

In den Flüssen nördlich der Zukunft

werf ich das Netz aus, daß Du

zögernd beschwerst

mit von Steinen geschriebenen

Schatten.

Não escrevi sangue; não o uso. As chagas que eu revelei ao mundo foram sempre feitas de sombra. Não desejei a vida como outros, aqueles que se insurgiram e gritaram «antes a vida!». Respondi: para quê a vida se trago a sabedoria da morte.

 

EINMAL, der Tod hatte Zulauf,

verbargst du dich in mir.

 

Uma vez. Uma vez escrevi que os homens já não me assustavam. Nunca os homens me assustaram. Como poderiam fazê-lo se não tinha expectativas? O que lhes fui dizendo foi que pouco lhes poderia dizer que fizesse diferença. Assim fui-me apagando, gradualmente, como a flor que estiola por sentir que não pertence ao jardim. Disse que o opróbrio seria cometido «quando pregassem a cruz a cristo». Reduzi cada frase ao seu cadáver mais latente – aquele que não se pronuncia, aquele que foge ao fogo de cometer um crime. Afundo-me. Gosto desta sensação de imponderabilidade casta. Digo a morte, mais uma vez, o esquecimento a verdade da escuridão, mas sem temor, sem saudade, ohne Sprache.

Críticos de merda

 

 Jorge Mourinha no Público e a propósito de Ensaio sobre a cegueira de Fernando Meireles

 

Por um lado, a alegoria de uma civilização reduzida ao primitivismo por uma misteriosa cegueira epidémica (luminosa em vez de escura, indetectável contudo real) não sobrevive à opção hiper-estilizada de Meirelles em concentrar a acção no interior do pavilhão de quarentena. Ao fazê-lo, o cineasta neutraliza a carga apocalíptica da metáfora, que apenas surge sempre que o filme sai para fora daquela prisão improvisada ou que há contacto com gente de fora (a arrepiante cena em que Moore e Mark Ruffalo estão na mira de soldados apenas por quererem pedir medicamentos).

Assim que, no “terceiro acto”, a acção se transfere para a metrópole abandonada, povoada por cegos que vagueiam pelas ruas, “Ensaio sobre a Cegueira” ganha (mesmo que por pouco tempo) o embalo perturbante que lhe escapou anteriormente, consegue sugerir a angústia indizível de um mundo que acabou (que, por exemplo, “Eu Sou a Lenda” de Francis Lawrence conseguia instalar rapidamente).

 

Ainda não vi o filme. Mas o que é certo é que Mourinha não leu o livro. Nem daí viria mal ao mundo – Mourinha tem lá sua vida e há mais livros na terra do que marinheiros no mar. Todavia, Mourinha escreveu uma crítica sobre um filme que deliberadamente se assume como sendo baseado num livro. Livro esse, lembremos, que é quase certo que Mourinha nunca passou da página trinta. E, mais uma vez, daí não viria mal nenhum ao mundo – há livros que nos prendem e os desbastamos como as escavadoras desbastam a Amazónia, e outros há que nos tornam sonolentos e que afastamos na primeira oportunidade. Contudo, Mourinha escreveu uma crítica onde diz

 

Por um lado, a alegoria de uma civilização reduzida ao primitivismo por uma misteriosa cegueira epidémica (luminosa em vez de escura, indetectável contudo real) não sobrevive à opção hiper-estilizada de Meirelles em concentrar a acção no interior do pavilhão de quarentena.

 

Se Mourinha tivesse lido para além da contracapa, saberia que “concentrar a acção no interior do pavilhão de quarentena” não se deveu à “opção hiper-estilizada de Meireles” mas mais prosaicamente ao facto de a narrativa se encontrar concentrada no pavilhão de quarentena. Por conseguinte, não leu o livro. Porém, insiste. Se o filme “Ensaio sobre a cegueira” instalasse a acção imediatamente no exterior transmitindo-nos prontamente a “angústia indizível” de um mundo que terminou conseguiria o efeito de “Eu sou a lenda”. Pois é, não leu o livro. Três quartos do livro são passados dentro do pavilhão de quarentena. Tomada a opção pelo exterior, seria talvez o “Eu sou a lenda” ou mesmo o “Wall-E”. Mas não é. Trata-se de “O Ensaio sobre a cegueira”, livro de Saramago que não pretende – algo que nem sequer coloco à discussão – transmitir a “angústia indizível” do fim do mundo exterior, mas sim, a angústia indizível do mundo interior. Daí os espaços claustrofóbicos; daí a miséria humana concentrada em cativeiro; daí a alegoria – que tem pouco a ver com “o fim do mundo” de Romero ou de Carpenter -, representação inequívoca da natureza humana, da sua volubilidade, e enfim da sua mesquinhez.

O Ensaio sobre a cegueira não encerra “nenhuma carga apocalíptica”, e ainda menos no registo de Romero e de Carpenter. Pouco tem a ver com O Regresso dos Mortos Vivos ou com o “Eles Vivem”. Se metáfora há é, evidentemente, a da cegueira. E este Mourinha julga que os outros são ceguinhos. Não leu o livro, o tratante.

É tudo mentira!

Body of lies! É com esta insidiosa sugestão que Ridley Scott nos convida a visitar a política norte-americana e as suas contorções no Médio Oriente. O filme voga entre a tradicional intriga de espiões, à maneira de John Le Carré, e a piromania de um James Bond. Em ambos os registos fica aquém de um filme que se pretendia com profundidade suficiente para fazer uma leitura mais do que superficial do envolvimento dos americanos na região.

Primeiro, porque o modelo encarnado por DiCaprio de super-espião americano no meio de um território hostil, não é convincente. É pouco crível que os americanos tenham agentes infiltrados entre os árabes, até porque o filme propõe-nos o ridículo de DiCaprio poder passar por árabe em tão conturbado cenário de guerra como é o Iraque. O que contradiz, de certa forma, a explanação inicial dada por Russel Crowe segundo a qual os terroristas combatiam contra um inimigo vindo do futuro e por isso regressaram aos métodos tradicionais, dir-se-ia que tribalísticos, de guerrilha. Mas lá anda DiCaprio com a gadelha escurecida e lentes castanhas para que não seja reconhecido como aquilo que ele deixa em cada gesto adivinhar, ou seja, um turista americano em Bagdade. Russel Crowe, pelo contrário, enverga bem o papel de manipulador de gabinete, homem que toma as decisões à distância sem nunca ter de sujar as mãos. Com o sotaque sulista a colá-lo à administração Bush, existe como voz de comando para DiCaprio a uma distância de milhares de quilómetros, mas que acompanha este mesmo DiCaprio a par e passo como se do seu anjo da guarda se tratasse. A tecnologia actual assim o permite. E Crowe está, qual consciência omnipotente, a par de tudo, bastando para isso usar o sistema de aviões espiões que, a julgar pelo filme, se encontram plantados por todo o Médio Oriente.

Helas, e porque os americanos são os tais soldados do futuro, a estratégia parece não resultar. A tese do filme é simples: a nossa arrogância escamoteia as finas teias de poder que existem no terreno. Consequentemente, é mais eficaz jogarmos o jogo como ele é jogado aqui na terrinha do que querer impor um novo jogo.

Surpreendentemente, Body of Lies ressuscita o fantasma do terrorismo no ocidente. Desta vez o atentado é em Amsterdão, reivindicado por uma terrível célula da Alquaida ao qual a inteligence, quer Jordana quer norte-americana, ainda não conseguiram aceder. Pelo caminho, ficamos a saber que ambos os lados usam métodos “sujos” e pouco recomendáveis pela Amnistia Internacional. E um dos mais “sujos” é o de simular atentados terroristas para atrair as células dispersas da Alqaida às “clareiras” onde possam ser caçadas.

Não fosse dar-se o caso de o filme oscilar entre o vulgar “Born Identity” com tecnologia e heróis anónimos e a típica intriga política, sem nunca verdadeiramente se decidir, até poderia suscitar algum interesse. Porém, antes deste já tínhamos Syriana, melhor conseguido enquanto intriga política e que foge em larga medida ao esteriótipo do espião tão implacável quanto invencível.

De resto, foi com alguma consternação que, tendo vindo de um filme que anunciava o regresso do terrorismo, ter constatado que ele regressara de facto através do atentado em Bombaim.

O homem que se chamava sexta-feira

É uma delícia um gajo entreter-se com a colecção de incongruências que Dias Loureiro vai debitando em relação ao seu envolvimento na SLN e no BPN.

“Eu ainda hoje não sei se o banco fez alguma coisa de mal ou de bem”.  Mas pelo sim pelo não tirei de lá o meu dinheiro e as acções… (da entrevista com Judite de Sousa)

O melhor texto sobre o Presidente e o BPN!

Esta é uma carga de suspeição insuportável para a instituição Presidencial. O detido, Oliveira e Costa, foi um alto colaborador do Primeiro-ministro Cavaco Silva. Teve uma parceria íntima em negócios multimilionários com Dias Loureiro quando ambos deixaram a política activa. Dias Loureiro é um alto colaborador do Presidente da República. Foi um vigoroso apoiante das campanhas presidenciais de Cavaco Silva. Deve ter tido um contributo valioso. Bem relacionado como é, deve ter atraído contribuições de campanha igualmente valiosas. Se calhar sem ele Cavaco não teria ganho. E Cavaco queria muito ganhar.

e ainda

Um Conselheiro de Estado não pode estar a aguardar investigações judiciais sobre o seu comportamento e honorabilidade. A um Conselheiro de Estado não se aplicam presunções de inocência em ambientes de suspeição generalizada com depoimentos contraditórios de altos responsáveis do Estado no passado/presente a desmentirem-se em público sobre questões de pura e simples honestidade. Isto não é assunto remissível para o foro judicial. É do foro presidencial e o Presidente, por muito que lhe custe, tem que se pronunciar.

Mário Crespo, Jornal de Notícia, 24-11-2008

Presunção de inocência

Sinceramente, não consigo enxergar a razão para tanto espanto perante o comunicado de Cavaco Silva. A menos que, como alguns desmemoriados, se pensasse que Cavaco era uma pessoa recta, admiravelmente idónea, e de uma ética impoluta. Tratava-se, evidentemente, de um outro Cavaco e não aquele que eu acompanhei durante duas maiorias parlamentares. Como bem lembra Baptista Bastos, e ao contrário do Daniel Oliveira, que se calhar por essa altura ainda era muito novo, o reinado de Cavaco foi um terror e mereceu justificadamente o rótulo de cavaquistão. A memória é sempre um brinquedo perigoso. E, condenados a não a respeitar, condenamo-nos a repetir os erros que ela tende a olvidar.

Notícia agora o 24 horas que a teia do BNP se estende até à Assembleia Regional da Madeira entretecendo-se com offshores e personalidades de gabarito do PSD Madeira. Espero que tais revelações não suscitem o mesmo espanto que o atiçado pelo comunicado de Cavaco Silva. Se bem que não fosse difícil perceber, servindo-nos apenas de especulação e imaginação, que o poder de Jardim teria que estar respaldado em qualquer lado, para além do político, obviamente. E constitui também mais uma daquelas novidades que toda a gente conhecia, mas que, por qualquer razão incompreensível, é poucas vezes evocada quanto mais escalpelizada. Refiro-me ao facto dos offshores da Madeira e do seu papel nas lavagens de dinheiro e fuga aos impostos.

Está ainda para ser feita a história do cavaquismo. As banalidades costumeiras que sobre este período são alinhavadas, não chegam para analisar quão funda terá sido a penetração dos interesses a ele ligados na distribuição do poder e de recursos no Portugal após 25 de Abril. Vamos conhecendo esta teia aos soluços. Hoje, revela-se mais um pouco. Desde ligações com a Madeira passando por generosas doações vindas de altos cargos do BPN ao PSD, sobretudo à campanha presidencial de Cavaco, os indícios parecem cada vez mais prenunciar que as ligações entre o BPN e o PSD eram um pouco mais do que fortuitas. E que Cavaco tem mais razões para se preocupar do que o seu singelo comunicado fazia antever.

Torna-se evidente que, por mais encómios que sejam desbaratados sobre o homem Cavaco, dificilmente poderia ele não estar ao corrente desta teia de interesses. Até porque, dado o lugar de referência que sempre ocupou entre as hostes do PSD, é pouco crível que não tivesse ele próprio contribuído para a extensão e consolidação desta mesma teia. Note-se que foi necessário haver uma maioria absoluta PS para que a investigação chegasse onde chegou.

Donde a preocupação de Cavaco ser genuína e não ser fruto de uma má gestão de imagem. Não quero com isto dizer que Cavaco esteja directamente implicado nas burlas do BPN. A suspeita que se insinua é, ou Cavaco é demasiado crédulo e anda rodeado de malfeitores sem disso se aperceber – o que não abona em favor da sua inteligência -, ou tem convivido bem com a situação, ao ponto de se achar na obrigação de defender directamente um dos seus conselheiros de Estado aparentemente implicado nas falcatruas. Seja qual for a hipótese mais provável, uma coisa é certa, da desconfiança já não se livra.