Começa a feder?

É oficial: o Gato Fedorento vendeu-se. Ou mostrou a sua verdadeira face? Ou mudou de face (porque não se pode permanecer com a mesma quando se ganha milhares e quando se frequenta o jetset)?

Lembram-se do Marcelo da lei do aborto? Parece que agora os Gato Fedorento acham que ele é uma “pessoa com opiniões”, assim, sem mais nada; e coitadito, a malvada ERC quer calá-lo! Reparem, ter opinião é importante – mas ter opiniões, é exultante! Imagino o Balsemão a escrever as punch lines do novo Gato. Terrífico. Ou então, como dizia o Rilke, todo o anjo é terrível e afinal de contas o RAPereira e a sua trupe eram a face oculta da lua.

O Zé Carlos não teve apenas dificuldade em movimentar-se num terreno diferente. Teve participações impensáveis, como a de Teresa Guilherme, uma pessoa asquerosa, que agora ombreia com os Gatos nas suas brincadeiras humorísticas. A Teresa Guilhermed devia ser objecto de humor, não fazer parte dos skets. Mas toda a gente sabe que a SIC é uma família: a família SICK, tão movimentada, tão honestamente jovem e brincalhona, tão parcial e objectiva…Assim de repente, diria que os Gatos deram um tiro no pé. Como o Hermân José. Convencidos que as estações privadas têm mais liberdade do que a oficial, foram a correr para a SICK. Mas qual quê – por amor à arte? Foram mas é os cifrões. Só que as televisões privadas – uma do CDS-PP e a outra do PSD – são particularmente livres para dizer mal dos governos do PS. A partir daí, acabou-se.

A Noite da Má Língua, por exemplo, aposto que o contrato não impunha baias aos participantes e no entanto elas foram sido definidas pela moderadora, de tal forma que os convidados acabaram por se chatear e gradualmente abandonar o programa…até ao término do mesmo.

Não vejo mal nenhum em criticar o governo, desde que esse humor não seja ad hominem. Os gatos, no primeiro programa do Zé Carlos, apostaram em espraiar a sua inventividade humorística em sistemáticos ataques a Sócrates. Será um lugar-comum dizer que existe uma ética no humor. E o problema nem sequer começa por ser os ataques a Sócrates. O que fede é ver uma mulher como Teresa Guilherme que uma vez afirmou que a “ética” nos negócios era coisa que não existia, a participar no regabofe. Esta mulher devia ser objecto de humor e não parte do gag. Estou a ser demasiado picuinhas, chato, merdoso? Não creio. Os Gatos afirmaram-se – e nesse aspecto demarcaram-se do Herman – com um humor inteligente de crítica social, mas sobretudo de crítica de classe. Entre outros, a crítica contundente ao PRN pode servir de exemplo, quiçá o mais ilustrativo dos exemplos.

Gatos e Teresa Guilherme? Qualquer coisa está podre no reino do humor em Portugal. Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és – nunca teve aplicabilidade melhor. Augura-se um futuro sombrio à semelhança do de Herman José que se tornou o palhaço tanto útil como queque – acrescente-se uns pós de senilidade que se foram acumulando nas vulgaridades do Herman – do regime SICK. Esperemos que não. Mas pela amostra, parece que os Gatos já começam a feder.    

Haider e a extrema-direita

 

As reacções à morte de Haider por parte da direita portuguesa são indicativas de uma tendência perniciosa que se tem vindo a esboçar ultimamente. Essa tendência revela-se, genericamente, através de uma gradual viragem na direcção da direita conservadora e radical. Ou seja, a uma aceitação acrítica da extrema-direita. Os factos são incontestáveis. Na Áustria, a extrema-direita ganha 30% do eleitorado, com a agravante de estar fortemente radicada nas camadas mais jovens (33% do eleitorado entre os 16 e os 18). Na Flandres, o Vlams Blok tem uma cada vez maior aceitação, na Dinamarca Pia Kiersgaard comanda o terceiro partido mais votado, na Suíça, os conservadores nacionalistas têm a maioria e na Itália, Berlusconi parece ter açambarcado o poder que vai partilhando com o seu amigo Bossi, e a Leste, em vez de nada de novo, o panorama é desolador.

Esta constelação de extrema-direita tem as suas desavenças, mas tem muitos aspectos em comum. Do lado das desavenças, encontramos uma inultrapassável clivagem entre as diversas e por vezes incompatíveis agendas nacionalistas. Por essa mesma razão, uma união a nível das instituições comunitárias tem sido tão dificultada. Mas isso não é contraditório, sobretudo porque estas facções de extrema-direita são contra a ideia de Europa, ou melhor, de União Europeia. Não obstante, as comunalidades são bem mais vincadas e estruturantes das suas bases de implantação, assim como das suas estratégias, do que aquilo que as separa. Sem excepção, todas brandem a sanha nacionalista revestida de uma retórica anti-imigrante que parece constituir o fulcro dos seus programas e mensagens – quando não, a totalidade.

Seria ingénuo pensar que este ressurgimento da extrema-direita é um fenómeno especificamente europeu. Alargando o escopo da análise, facilmente poderemos detectar os mesmos temas na campanha dos republicanos do outro lado do Atlântico. Quer o ódio anti-imigração quer a paranóia nacionalista é facilmente detectada em qualquer uma destas facções. O amor de Bush por Berlusconi não se deve com certeza a uma recôndita, conquanto efectiva, predilecção por pasta e sugo. Os temas são concretos e as agendas moldadas umas às outras. Joe the Plumber não diz coisas muito diferentes do que diz o eleitor médio de Haider. Por conseguinte, será legítimo pensar que os mesmas temas comportam ressonâncias idênticas neste eleitorado. Em resumo, assiste-se hoje a um recrudescimento internacional da extrema-direita.

A pergunta “como surgiu este eleitorado” está mal colocada. Ele não surge – sempre lá esteve. Julgo que não iremos assistir a arregimentações semelhantes às do período em que Hitler, Mussolini ou Franco subiram ao poder. As condições estruturais são outras, e assim são também os processos de arregimentação. Quem precisa de comícios gigantescos quando tem uma Fox News? Quem precisa de marchas castrenses quando é dono da maior cadeia de televisão italiana e uma das maiores da Europa? Quem precisa de milícias jovens quando controla os jornais de maior tiragem da Áustria? Todavia, se os meios são outros, a mensagem é tenebrosamente a mesma. Os arrobos contra os muçulmanos são reminiscentes das vagas anti-semitas; a retórica anti-imigração ecoa os princípios do fechamento nacional; o ódio anti-esquerdista é uma repetição da perseguição ao comunismo. Não nos iludamos: os temas são os mesmos, mas trazem novas roupagens.   

 

Quando Adorno viu no fascismo a aliança entre a estética e a opressão estava longe de imaginar que esta articulação se iria refinar até ao ponto em que hoje a encontramos. Há um trabalho concreto de estupidificação que passa por estratégia de captação de audiências, mas que não é mais do que uma massiva redução do campo de sentido e de questionamento político. Onde a esquerda foi amarfanhada, reduzida a uma expressão quase inexistente, ostracizada dos meios de comunicação social, esta anulação do campo de sentido político é quase total. Acontece na América, assim como na Áustria, em Itália, na Suíça, na Dinamarca, na Holanda, na Alemanha, e na maioria dos países do Leste europeu. Em qualquer destes casos medra a extrema-direita e as suas mensagens evocativas da pureza nacional, da hereditariedade do povo, da inviolabilidade da tradição, da necessidade da ordem e do controlo. Sem que surja uma contraposição, ou seja, uma resistência. Um caso que se exime a este padrão, é a Alemanha. Embora a extrema-direita esteja latente, com aparições esporádicas, mas significativas ao nível regional, a sua entrada em cena nos palcos do poder tem sido cuidadosamente gerida. Existe um consenso sobre a inaceitabilidade de certos temas, por isso é impensável aparecer alguém que diga como Haider que os campos de concentração foram “campos de punição”. O exorcismo dos fantasmas do holocausto está ainda em processo, em andamento e existe uma especial vigilância por parte das instituições que cerceia à partida qualquer recidiva. Na Áustria, onde o exorcismo nem sequer foi tentado, essa espécie de barreira histórico-normativa não existe. Por isso as evocações nacional-socialistas podem ser reproduzidas em público. (cont. amanhã

Manual de jardinagem para mentes liberais

O último texto de João Carlos Espada no Expresso é ilustrativo de como a mediocridade se pode confundir com autoridade. A propósito do casamento diz JCE que ele é uma instituição espontânea, chamando a atenção para que não se confunda espontâneo com “natural”. Sendo o casamento uma realidade construida não é, contudo, planeada. JCE apoia-se, como sempre, num movimento de falta de originalidade que transcende qualquer interessado ou sequer curioso nas ciências sociais, no divino Hayek. O que ele tem em mente, embora não o explicite, é o conceito de catalaxia – uma ordem espontânea que não precisa de intervenção de um planeador. O conceito de catalaxia, assim como Hayek o entende, há muito que devia estar desacreditado, quando mais não seja porque a catalaxia parte de um pressuposto que é fundamentalmente – ou seja, na prática – falacioso; a saber: a catalaxia resulta porque “todos aceitam as mesmas regras e ninguém faz batota”, e só assim o resultado emergente deve ser aceite como justo. O que ocorre imediatamente é que esta é a situação de excepção. Raramente todos aceitam as mesmas regras e é justamente nessa atitude recalcitrante perante as regras que podemos começar a intuir o funcionamento do poder.

Agora, com certeza mais complexo, se não absurdo, ou mesmo despropositado, é associar o casamento com a catalaxia! Se há instituição humana que menos espontaneidade tem essa é com certeza o casamento. Desde sempre sujeito a regras, a alianças, a trocas de dotes, a rivalidades, o casamento é tudo menos espontâneo. Note-se que JCE utiliza a assumpção de espontaneidade, ergo catalaxia, em relação ao casamento com o intuito de traçar a distinção entre natural e espontâneo. Todavia, os seus exemplos são tão pobres e desprovidos de qualidades persuasivas que acaba por mostrar exactamente o contrário: que acredita que o casamento heterossexual é o natural. E que exemplos são esses?

 

O mercado, ou a troca, é um primeiro exemplo. As línguas nacionais realmente faladas pelas pessoas – em contraste com uma língua desenhada, como o esperanto – são outro exemplo. A família e o casamento heterossexual monogâmico são ainda outro exemplo de uma instituição que emerge descentralizadamente, sobretudo na cultura ocidental.

O mercado, claro está, que apesar da evidência em contrário ainda há gente – dinossaurios recuperados das estepes geladas da Sibéria – que insiste em dizer que ele é “espontâneo”. O mercado modelar, talvez, mas como ele nunca existiu é difícil situá-lo historicamente. A seguir a língua. O pressuposto é que existem instituições intencionalmente construídas e outras fenómenos emergentes resultantes da interacção. Só com grande desconhecimento do que foram as intrincadas discussões, transformações, imposições estilísticas, articulações entre corpos profissionais e campos linguísticos, etc, se pode pensar que a língua nasce de geração espontânea. E não me refiro à língua enquanto articulação de símbolos com a fonética, mas sim ao exemplo de JCE: as línguas nacionais. Nestas nada há de espontâneo como um leitura, mesmo destraída, pela imensa obra de George Steiner (exemplo avulso, mas sumamente importante) nos permite concluir. Agora, como é que disto se passa para a família e o casamento heterossexual monogâmico serem uma instituição “que emerge descentralizadamente”? O texto não fornece um argumento que seja a corroborar uma tão estranha afirmação. Mas mais ainda: que ela não só é descentralizada, como o é sobretudo na cultura ocidental! Aqui a falácia ganha as dimensões de tripudio do mais elementar conhecimento de história. Como não acredito que JCE seja ignorante, só posso considerá-lo deliberadamente inexacto.

É verdade que, salvo um período – com consequências fundamentais para o conhecimento ocidental – em que o catolicismo desenvolveu como nunca as capacidades hermenêuticas e retóricas da linguagem, o seu inverso pode igualmente ser identificado como um longo historial de manipulação das “verdades” de dispositivos retóricos de defesa do dogma. Aparentemente, esta tradição mantêm-se viva e operativa em certos defensores da ideologia católica. Nomes como o visado JCE, ou como César das Neves e o mais recente João Miranda são os que actualmente representam as figuras de proa desta tradição. Nos três é possível recensear tanto uma tendência para o ilogismo e para rarefacção dos argumentos como uma absoluta convicção com que estes são explicitados. Como se o facto de a ideia a ser defendida fosse mais importante do que o método da sua defesa. E isto constitui um dos mecanismos subjacentes à razão dogmática.

Por exemplo, a comparação entre o jardim inglês e o francês – No século XVIII e até meados dos século XIX, era timbre da tradição liberal enaltecer e respeitar estas instituições espontâneas. Os jardins ingleses, não geométricos, eram contrastados com os franceses, obviamente desenhados centralmente – retraduz aquilo que se pode entender como sendo um argumento de ocasião. Porque o que a oposição entre o jardim inglês e o francês representa não é, de maneira nenhuma, uma oposição entre ordem a espontânea e a centralizada, mas sim uma oposição entre ordem intencional e natural. Ora o que parece uma diferença de somenos é o fulcro da questão: não há qualquer justaposição semântica entre o espontâneo e o natural. Essa foi criada recentemente pelo discurso neo-liberal e é ideologicamente informada e fundada. O recurso à comparação é ele próprio um adereço ideológico, um desses termos que permite imediatamente identificar a matriz ideológica donde se fala. A oposição jardim inglês versus françês traduz metafóricamente a oposição entre pensamento rousseuniano e moralismo inglês. De tal forma ela é pregnante que até ganha expressão no arranjo dos jardins.

O que é que isto tem a ver com o casamento heterossexual? Tudo. Desde logo, mostra que o raciocínio procede segundo diversas camadas de argumentos “naturalizadores”. Não somente existem realidades naturais – como o mercado – como elas estão inscritas em tradições igualmente naturais, de tal forma que até a natureza as expressa. Esta articulação não é avulsa, ou não terminasse o texto de JCE com um arremedo de mitificação das origens – a história perdida de Oxford.

Por conseguinte, aquilo que começou por uma tentativa de explicar que as instituições são “artificiais”, redunda num tour de force da naturalização. Não apenas das instituições, mas igualmente do pensamento e das suas estruturas e tradições. A catalaxia parece de facto só encontrar equivalente no mercado.

Não deixa de ser curioso que Hayek ser um dos maiores críticos do naturalismo, que curiosamente, como Popper, passaram a vida a associar às tradições teóricas da esquerda. Quando na realidade elas estão muito mais disseminadas pela direita. Ou melhor, enquadrar a questão do naturalismo em termos de esquerda-direita nem sequer faz sentido. Como não faz enquadrá-la em termos liberal versus qualquer outra teoria. Até porque o verdadeiro teste encontra-se na estrutura dos argumentos e não nos princípios advogados.

 

Mais concretamente o casamento. Dois corpus teóricos fundamentais: os estudos sobre sexualidade de Foucault e sobre a Família de Ariés. Há muito mais. Mas estes são referências canónicas que bastam para que hesitemos quando nos preparamos para escrever A família e o casamento heterossexual monogâmico são ainda outro exemplo de uma instituição que emerge descentralizadamente, sobretudo na cultura ocidental.

Como é que um liberal tão dado à espontaneidade pode esconder o mais empedernido “naturalizador”?   

Letargia

 

Letargia. O mundo, aliás o estado do mundo, a América, aliás as eleições americanas, a bolha especulativa e as suas consequências nefastas para a economia, aliás a bolha especulativa e as reacções da direita, e também da esquerda, a primeira, desculpando ignominiosamente o mercado e a fé dogmática que por ele nutre, a segunda a regogizar-se com o indefinido, o improvável, o utópico (e depois? Não foi este sempre o papel que coube à esquerda?). Pois sim, foi isso e outras coisas. Por exemplo, uma canzoada sem dono a ladrar às canelas do Baptista Bastos porque este vive…numa casa da Câmara. Uma canzoada da direita, de dentes feros e brutais, ali, a atazanar, por causa de uma casa da Câmara; e outros da esquerda também. Esses, nem vale a pena. Pergunto-me se um alegre bloquista que em tempos conheci também terá tentado ferrar o dente ao Bastos? Ele, o alegre bloquista, que beneficiou de uma casa da Câmara e em vez de ir para lá morar fez dela uma biblioteca. Que chique: a marmeleira do bairro da rameleira; Pacheco Pereira entre os canibais, os imigrantes, os escurinhos. E aposto que nenhum destes impertigados bloquistas de carnaval alguma vez poriam seus delicados sapatos num bairro social. Mas e então, à que ladrar à casa da Câmara do BB!

Quando penso nisso fico doente, letárgico. Por isso e por uma amizade que se revelou fantochada (e isso há quantos anos?), filha da putice; e no entanto coberto de razão estava ela que me avisou ainda há mais anos, e que, como qualquer traição que se amarga nos torna azedos, descontinuados,  mais preocupados com a saúde do que com o crash bolsista.

As eleições na América, é claro, as eleições na América…E lembro-me de um artigo de VGM onde referia do alto da sua ironia sobranceira (pleonasmo que assenta ao VGM com uma burqa assenta a uma mulher afegã) que a economia americana estava robusta e que Obama era o pior que lhe poderia acontecer, caso acontecesse. Perante isto, merda. A direita mente. A direita especializou-se a mentir. Não faz mais nada se não mentir. Fenómeno identificável de um e do outro lado do Atlântico; estendendo-se de McCain-Palin aqui ao pequenino Portugal (o que fica ao lado da Espanha aquela que McCain nem sequer sabia onde ficava – e se lhe perguntassem por Portugal? Não quero nem pensar) e  ao seu vate do infortúnio o digníssimo VGM. Ali estava ele, postado às cavalitas da sua coluna de jornal, como de rocinante se tratasse, na sua expletiva sobre os malefícios de Obama. Ipsis verbis, embora com edolcorado verbo e  farpenta prosa, a cartilha dos Republicanos. E então afirmava despojado de dúvidas (raramente as terá), a regurjitar certezas (sempre as teve) que Obama era uma mistificação. E porquê? Porque, dizia ele, o problema racial tinha sido resolvido por Lincoln há muitos muitos anos, resolução vertida na Constituição e que dá pelo nome de 15ª ammendment. Para além disso, quem era esse tal de Obama, cujo nome soa a terrorista desterrado para Guantánamo? Sim, quem esse tal de Obama? Um preto, num país cuja questão racial há muito que foi enterrada! E neste conjurar do anónimato de Obama ouvimos os ecos de McCain com a sua insidiosa pergunta: Who is senator Obama? Causa-me grande satisfação, quando não alívio, que todos saibamos quem é McCain. O tal que é glorificado porque andou a lançar napalm sobre aldeias vietnamitas, matando mulheres e crianças, esturricando-os com o tal composto de gasolina. Estamos sempre à espera que ele diga lá do alto do seu púlpito: I love this smell of napmal in the morning; e mais à frente (…) it smells like victory!

Letargia porque os estados vão pagar as dívidas aos bancos e ninguém questiona o facto de esse dinheiro poder ser utilizado para melhorar o sistema de saúde público, o sistema de ensino público, os transportes públicos, etc. Lembram-se do mantra da contenção do despesismo público e do controlo orçamental? Onde está ele agora? Onde estão os sacrifícios que são necessários para conter a dívida pública? E porque razão, e perante tamanha evidência, não cai todo este edifício de mentira; de mancomunações mafiosas entre poder político e aristocracia capitalista; entre as fortunas dos administradores dos bancos e os nossos distintos economistas? Porque razão não cai o pano sobre esta farsa? Teremos que pagar isto até quando? E o VGM lá do seu canto a dizer que Obama era a pior coisa que poderia acontecer ao mundo e a jurar a pés juntos que a economia americana nunca esteve tão robusta. Hipócrita que seja, isto ainda se compreende num McCain – ele pelo menos compete pela presidência dos USA. Mas no VGM? Porquê esta rendição acrítica ao amigo republicano, à direita e ao discurso do poder e da prepotência? E porque não nutrir o mesmo fascínio pela Rússia? Julgam que se retratou, que se desmentiu, que disse “olha vejam lá que apesar de ser um faccioso imoral, afinal enganei-me e as coisas são mais negras do que pareciam (entre Obama em cena!).

Bem sei que a moralidade é uma coisa pesada, desusada, chata, inconveniente, e valha-nos deus se andassemos todos para aqui agora a pregar uns aos outros…Ah, mas andamos! Por coisas sérias, com alcance inescrutável para a ordem cósmica e para o desenvolvimento da espécie. Como, claro está, o casamento homossexual. Que os estados safem bancos cujos administradores ganham na ordem dos milhões de qualquer coisa por mês, ainda vá lá, agora os gays casarem?, devem estar a mangar com o povo! E com a espécie, claro está. Porque como bem informou Mário Crespo, o instituto do casamento seria desvirtuado caso não cumprisse a sua função procriativa, o que constituiria um sério abalo para a espécie, sobretudo caso pretendessemos colonizar Marte. Podíamos começar por mandar o Mário Crespo para Marte, para colonizar, para fecundar a superfície iridiscente de Marte, embora a partogénese só se faça em, como ele diz, “seres não superiores”, facto que qualifica Mário Crespo para uma colonização isolada de Marte – por partogénese, desejar-se-ia. Correm rios de tinta: porque é monstruoso, porque desfigura, porque atenta contra…, porque não é reprodutivo, e mais e mais…o casamento, a sagrada instituição do casamento, a inabalável instituição do casamento, nunca antes encontrou tantos intelectuais, jornalistas, especialistas, e predicadores, tantos e tão bons, casamenteiros. E de repente é uma azáfama casamenteira que quase nos deixa prostrados de tão singular obrigatoriedade, constrangidos perante os imperativos que se nos impõem: ou abraçamos o sagrado matrimónio, ou somos vermes imprestáveis. E os outros, os que ganharam os milhões através da especulação, os que apareciam amíude a cagar centenas sobre como o estado deveria governar o país? Sim, esses, onde é que estão? Terão opinião sobre o casamento homossexual? Espero sinceramente que sim. Gente de tão reputado gabarito, que apenas cedeu aos impulsos mais fortes da sua natureza, da espécie, tem sem dúvida uma opinião avalizada sobre questões prementes como esta. E reproduzem-se? Ou lá, se se reproduzem! De tal forma que até reproduzem as dívidas, os calotes, as escroquerias, de pai para filho, orgulhosamente guardadas e passadas de geração em geração. Salvemos a gente que reproduz a espécie, caramba! Esses sim, esses dão-nos progérie rija e conforme ao estatuído no grande-pequeno livro da hipocrisia humana.

Letargia. Cultivar um encantamento sóbrio pela letargia. O mundo mente? Mentimos ao mundo.