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Guerra Morna

Agosto 27, 2008

 

Ultimamente inúmeros comentadores têm reiterado a ideia segundo a qual estaria prestes a instalar-se entre as duas potências mais militarizadas do mundo um clima de Guerra Fria. Será que a conjuntura actual poderá repetir um equilíbrio de poderes como o da Guerra Fria? Convém duvidar de apreciações e diagnósticos demasiado precipitados.

A Guerra Fria implicava dois blocos herméticos, competindo por alianças e pela satelização do maior número de países. Para além disso, estes dois blocos sustentavam as suas acções em quadros ideológicos diversos, antagónicos, e desse mesmo antagonismo retiravam os recursos simbólicos e materiais para o estabelecimento das suas fronteiras. Pese embora a impossibilidade de qualquer entidade absolutamente hermética no concerto de nações após a revolução industrial, saliente-se que se construiu um imaginário de hermetismo dos dois blocos. Os camaradas que queriam abandonar os horrores capitalistas eram travados pelas forças imperialistas e os lutadores pela liberdade que queriam fugir à crueldade do Gulag eram bloqueados pela tirania comunista. Era assim que o mundo se entendia e que era percepcionado. De um lado a liberdade, do outro a opressão. O lugar de uma e outra variava de acordo com a interpelação ideológica. Por conseguinte, os intelectuais deste lado ansiavam pelo homem novo que se adivinhava do outro, enquanto deste último o homem novo estava farto de pagar o preço da sua novidade e almejava tornar-se no velho cidadão burguês.

Existiam as diferenças estruturais entre uma economia de mercado capitalista e uma economia de mercado planificada. E para além dessas, as diferenças entre as redes de distribuição de recursos eram assinaláveis. Por exemplo, as elites de um e de outro lado competiam pelo maior açambarcamento de recursos nos países satélites e aliados – por sujeição ou adesão -, mas raramente se cruzavam quer na sua reprodução quer na sua multiplicação.

É justamente quanto a este último aspecto que devemos ter cautela em não aceitar extemporaneamente o diagnóstico de uma nova Guerra Fria. A verdade é que, apesar de os intereses geopolíticos ainda colidirem, quer as estruturas efectivas quer as redes de distribuição e açambarcamento de recursos deixaram de correr em paralelo – entrecruzam-se, competem pelos mesmos espaços, partilham as mesmas razões e os mesmos quadros ideológicos. É aqui que o Leste abandona o seu lugar mítico, e mitologizado, de terra dos Czars. Os Czars actuais vivem em LA e Londres. Putin e Medvedev podem não entender-se com Bush e McCain; mas o oligarca do Petróleo Abramovich certamente que não tem pruridos e os seus companheiros de fortuna também não. A Rússia pós-comunista não progrediu – regrediu. Se as elites russas no tempo de Pedro o Grande, falavam francês entre si enquanto teciam loas à mãe Rússia, actualmente falam inglês-americano enquanto sonham com a pátria Rússia. Não significa que o comunismo fosse melhor. Quer apenas dizer que a Rússia feudal e oligárquica anterior à revolução foi restabelecida, segundo outros parâmetros, porém com a mesma estrutura social.

Quem passeia pelo Leste europeu pode aperceber-se de quem pertence à elite e quem dela está arredado. Ouvindo um inglês arranhado e nasalado, entrecortado por expressões como “like…” ou “awsome”, sabemos imediatamente que a pessoa fez parte de um estágio norte-americano, por lá estudou ou foi arrebanhado nos programas de permuta. Não sentem alguma perplexidade perante o inglês fluente que falam a maioria dos atletas de Leste? Eu sinto. Será porque têm excelentes programas de inglês no sistema educativo? Quando deixamos as cidades e os seus centros vibrantes de consumo e vamos desbravar caminho pela província e os seus lugarejos, o inglês torna-se mais raro do que um prato de gambas no Burundi. Curiosamente o que as pessoas falam, para além do Russo, é um alemão rudimentar – outros nem tão rudimentar assim -, sem dúvida aprendido através do contacto com familiares que se encontram imigrados na Alemanha ou na Áustria.

Este desvio serve apenas para sublinhar que há uma elite, com certas franjas astronomicamente ricas, que é globalizada e nada tem a ver com os aparatchiks do velho aparelho comunista.

Significa portanto que quer os oligarcas do lado da liberdade como os oligarcas do país feudal se encontram, ao final do dia, nas mesmas festas, recepções e bares da moda, seja em LA, Paris ou Londres. O mundo dos negócios atravessa dissidências, embora seja mais contumaz relativamente a adesões nacionalistas. Seja como for, quer as oligarquias ocidentais quer as russas encontram-se comprometidas umas com as outras, e isto, por si só, constitui um cenário nos antípodas da relação de forças típica da Guerra Fria.

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