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O raposo

Agosto 25, 2008

Um raposo culpa o nacional porreirismo do desaire olímpico português. É um homem sério este raposo. Diz ele que o problema é do deixa andar, tipicamente português. Mas não ele, o raposo, porque ele não é tipicamente português. Por detrás daquela miopia insidiosa esconde-se uma mente brilhante que, maltratada na escola, desforrou-se na universidade. Isto são coisas que nos são dadas a intuir pelas calosidades verboreicas que o raposo vai semeando. Utilizando a perspectiva lahirense (de Bernard Lahire) podemos comparar, na história de vida do raposo, os momentos que geraram disposições diversas. Este é linguajar complicado, em nada compaginável com a brevidade dos argumentos do raposo. Troquemos por miúdos. O raposo insurge-se contra a balda nas escolas – professor porreiro é o que não fica o dia inteiro. E outras quejandas, conquanto nefandas, atitudes esburgantes do erário público. E vai mais longe: e a Universidade?, aí é que é o forrobódó completo. Vejam lá que eles até querem que a malta faça trabalhos de grupo! A genialidade de um raposo, está bem de ver, viu-se, naqueles tempos de lamber cus professorais e proferir tiradas cuzais, obnubilada pelo carneirismo grupal, pela ineficiência mentecapta do colectivo. Está-se mesmo a imaginar o raposo: um daqueles betos marrões universitários, cujo primeiro beijo de língua será dado à rapariga obesa da turma, a Ana Maria, mas de boas famílias – porque os raposos são estritamente endogâmicos – que só pensa em lixar os colegas para poder ser ele a luzerna da turma. Há tantos raposos – e tantos pela vida fora, não só nos anfiteatros académicos.

O raposo, teria sido pois, avento com algo de ficção científica, e não sem me sentir carregado de uma consciência moral versada no imaginário, um s…. E é também aqui que o repto raposiano contra o nacional porreirismo pode ser colocado de pernas para cima, ou seja, de pantanas. Não é o nacional porreirismo – que aliás só existe na cabeça tacanha da direita portuguesa – que fundamenta os males da competência, ou da falta dela. É o rapozismo. Este, como qualquer ismo, é bem mais difícil de desmontar. Mas podemos começar pelo seu aspecto mais visível, i.e., a falta de cooperação, ou a dificuldade em cooperar num país de glórias tanto fáceis como efémeras. O raposo fornece o mote ao referir o episódio da “palhaçada” dos trabalhos de grupo. Esta palhaçada, só se torna verdadeiramente em palhaçada, quando aparecem os raposos, os refractários, os que não querem nem colaborar nem partilhar, o marrão chico esperto que vai espreitar às pautas as notas dos outros e que faz ranquinks de cabeça quando na solidão da paragem do autocarro. Conhecemos a peça, certo? Tão certo quanto irem-se posteriormente espraiar as suas aflições monolíticas pelas instituições, pelas equipas e por aquilo que deixam escrito para a posteridade nos veículos de propaganda de massas.

Olhando para Portugal como um país cujos raposos se encontram nos lugares fáticos, percebemos que a ideia do nacional porreirismo é só areia para os olhos. Muito astuto. Como um raposo.

 

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