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A Ossétia, nada de novo

Agosto 20, 2008

And we will work with Vladimir Putin, with whom I’ve got a good relationship, to make sure relations are good with Georgia. It’s important for the Georgian people to have good and strong and peaceful relations with Russia. There’s a lot we can work on. We can work together to fight terror. Hopefully, as the Georgia economy approves — improves — and I’m confident it will — there will be opportunities for business opportunities.

So the President has got a good vision and this has been a good trip. I believe in his abilities and I appreciate his vision. And the people of   

                                                                 Georgia will be well-served by his leadership.

(Declarações de GW Bush aquando do encontro com o Presidente Saakashvili na Casa Branca em 2004)

 As mentiras, distorções, e panegíricos norte-americanos que os jornais – nacionais e alguns internacionais – andam para aí a propalar já vêm irritando quem de, espírito sereno e concentradamente analítico, pretende informar-se com alguma objectividade sobre o conflito em torno da Ossétia do Sul. Quem capitaliza neste espectáculo desinformante são os neocons, a srª Rice e o cínico Bush. São apodos perfeitamente merecidos se pensarmos que as críticas feitas agora à Rússia são ipsis verbis aquelas que poderiam ter sido, em exame de consciência, dirigidas aos neocons e ao reinado Bush. Mas há qualquer coisa de mais sinistro nesta atitude: o timming. Como diz a rapariga, leading singer dos Elysian Fields, timming is everything! Nada poderia ser mais verdadeiro quanto aos recentes acontecimentos.

Racionalmente considerados, o ataque da Geórgia contra os separatistas da Ossétia do Sul, só pode ser entendido ou como sendo irracional, produto de uma mente conturbada e megalómana como a de Saakashvili, ou como tendo sido cozinhado bastante antes, com um fito estratégico que extravassa em larga medida a geopolítica. Esta intenção, nem tanto obscura, estender-se-ia à necessidade de influenciar os resultados da campanha para a presidência norte-americana. Há quem considere que estas coisas são o produto ilusório das teorias da conspiração e, talvez por receio de enfrentar a crua transparência das jogadas humanas, ou porque ser crédulo dá menos trabalho – quanto mais não seja, analítico – do que ser céptico, escolhem acreditar nas versões oficiais. Ora, a triste conclusão, é que as versões oficiais, são quase sempre falsas. Arredar, como metodologia, a racionalidade de uma teoria da conspiração só porque esta se estreou com o anátema de ser alucinada, é por vezes mais alucinado do que acreditar nela sem cotejamento de factos. Isto porque o princípio que deve orientar a leitura dos acontecimentos políticos é que se tornaram acontecimentos políticos porque foram planeados para sê-lo; ou seja, alguém contribuiu para que surgissem a esta luz. Por conseguinte, em vez de rejeitada, é a teoria da conspiração que deve reclamar o lugar epistemológico mais seguro na compreensão dos factos. Sobretudo porque neste caso apenas o que pode ser derivado de uma, suposta, teoria da conspiração deve servir como matriz interpretativa. Que é o quê? A estranheza do timming, por exemplo.

A Georgia é um país pobre; imensamente pobre. Debate-se com dificuldades económicas excruciantes. Todavia, o seu presidente canaliza 70% do produto para armamento, sem se preocupar muito com o futuro da população que se encontra sob o seu regime tutelar. No princípio disse que ia viver como as pessoas simples, num apartamento de duas assoalhadas, em solidariedade com o homem e mulher comuns, os georgianos empobrecidos. Depois construiu um palácio de dimensões “ciausesquianas”, e do seu acoitamento transmite grandes preleições nacionalistas à maneira de um Castro, ocupando vários horas da televisão do regime. Instituiu uma polícia política, e a tortura é considerada normal para defender a integridade nacional.  E assim tem feito desde que os Estados Unidos o lá puseram. Se não houvesse precedente, ainda poderíamos acreditar que se tratasse de mais um líder tresmalhado, um trânsfuga às célebres operações de exportação de democracia consignadas na cartilha da sacanisse e real politik do aclamado Kissinger. Mas há precedente. O Kosovo? Só se cairmos no erro da “curta duração” e negligenciarmos os trends mais extensivos. O precedente foi a operação dos Chicago Boys na América Latina. O que os neocons estão a tentar reeditar, perdidas as rédeas das principais nações da América Latina, são os sistemas ditaturiais, apaniguados dos EUA, na Ásia central. Assim temos, a Geórgia, o Uzbequistão e o Azerbeijão e a Chéchénia – países que pouco se ouve falar sobre eles, salvo quando há escaramuças com o gigante russo. Qualquer um deles apresenta traços de ditadura a la Pinochet, com grandes interesses norte-americanos a competirem por fontes naturais outrora pertencentes à União Soviética; nenhum deles tem um regime que se assemelhe sequer a uma democracia – muito à imagem da Rússia de Putin – e para não variar catapultaram uma casta, geralmente resultado de um punhado de famílias, para uma situação de monopólio económico construído à custa da corrupção e venda ao desbarato dos seus recursos às potências ocidentais. Em suma, nenhum merece o olhar contemplativo prodigalizado a países que seriam democracias ascendentes após a libertação do jugo soviético. Só por esse facto, a intenção de expandir a NATO a tais países, como sejam a Tchechénia e a Geórgia, não nos merece senão apreensão. Porém, a democracia nunca foi o critério para sustentar regimes fascistas na América Latina, porque seria agora na Ásia central?

Se esta constitui uma vaga de fundo, o timming da eclosão do conflito deve ser antes compreendido como uma necessidade conjuntural. E a ele se liga indissociavelmente a eleição norte-americana. Há quem considere que é aqui que a teoria da conspiração começa a subjugar uma análise lúcida. Pelo contrário. Saakashvili não poderia pensar que a sua agressão ficaria sem resposta. E mesmo que lhe tivessem dado garantias que o secundariam em caso de uma tal tentativa, ele sabia com certeza que as represálias da Rússia seriam sempre brutais e mais rápidas do que a ajuda internacional. O sétimo de cavalaria acorre, mas com prudência, sobretudo quando do outro lado é a Rússia que se encontra. Já o tínhamos visto no Afeganistão, com os brilhantes resultados a que assistimos actualmente. Por isso é que a acção de Saakashvili terá respondido a uma outra agenda. Se pensarmos que a Georgia, um país com pouco menos de cinco milhões de habitantes, foi dos primeiros a enviar um contigente para o Iraque, percebemos que esta aliança com os EUA se vinha a forjar pacientemente e que haveria um preço a pagar. Poderia ser pago noutra altura; mas isso significava perder o momentum, estratégico, que visa justamente apagar das consciências votantes o périplo europeu de Obama. O motivo parece demasiado sórdido: matar pessoas, destruir um país, em prole de uma campanha eleitoral? Só se pensarmos, ingenuamente, que a imagem internacional dos EUA, logo das suas figuras contendoras pela presidência, não possui influência no debate interno norte-americano. Parece acontecer exactamente o contrário, ou Obama não tivesse saltado nas sondagens após o gáudio com que foi recebido na Alemanha. E nem por acaso, McCain vê a sua posição reforçada desde o início da crise da Geórgia. Era aliás o que o os Republicanos precisavam: um motivo para reafirmarem o seu discurso hegemónico no exterior que criasse impacto interno. Que isso arrastasse uma nação para a guerra, não deve preocupar muito gente como Bush e Condoleza Rice. Afinal arrastaram várias nações para uma guerra que destruiu um país e que foi justificada por mentiras e malabarismos políticos – o Iraque. Não nos devemos enganar: os neocons não são democratas; pretendem perpetuar-se no poder, como se perpetuam os ditadores nos regimes de sua eleição. Exemplos? Os mais variados, em diversas latitudes: do México ao Paraguai à Geórgia e ao Uzbequistão.  

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