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O estado incontinente da nação

Julho 15, 2008

Comecemos pelo título: a sociedade da nação! Ilustração, mais que suficiente, do destrato que a nação anda a levar. Refiro-me, obviamente, a mais um acto de contrição colectivo orquestrado pela mão providencial de Fátima Campos Ferreira.

Um espectáculo memorável, como sempre. Desde a tradicional citação de Eça, passando pelo circo risonho de uns intelectuais a babujarem cultura, mais uma vez foi um espectáculo deprimente. E que dizer de Marinho Pinto, a quem eu, extemporaneamente elogiei a verve e as veras da alma? Pois, mutação consumada, surgiu o monstro bizonho que osculta na vontade popular o desejo pela língua morta. Leia-se: o latim. Para o bastonário, o problema do país é não sabermos latim! E nisso encontra-se com sua santidade o papa Bento, para quem o problema da irreligiosidade actual é falta de latinismos no encontro com o senhor.

E ficávamos por aqui? Claro que não. O festival de incapacidades ainda estava no adro – à falta de procissões que nos resgatassem da ira divina, temos o desfile cavalar das personalidades da nação a dizerem do seu desconsolo psicológico. Falta de auto-estima, esgrimem portugueses e estrangeiros! E até um professor de filosofia estrangeiro diz que não se vive assim tão mal em Portugal – pudera: pra professor universitário a coisa nem está negra! Mas os cangalheiros da identidade nacional (ou os seus taumaturgos, a bem dizer) não hesitam nem perante o mais disparatado e incongruente. Assim vivemos um problema de valores (o tal défice de auto-estima, à cabeça) e por isso é necessário martelarem-nos o espírito, com a insistência de trombetas às portas de Jericó,  que somos BONS, somos MUITO BONS, ouviram?, somos os MELHORES! Não vá a gente ter dúvidas.

A esta catilinária de acessos de auto-estima, juntou-se o inefável louco da aldeia que repetia incessantemente que o problema era a toponímia; mais exactamente, a semiótica. Donde, o facto de haver cinco maneiras diferentes de anunciar a Praça de Espanha teria, segundo a proeminente mente, efeitos catastróficos para o país. Em todos os encontros dos pares do reino, o bobo é presença indispensável.

E em que é que ficámos? No habitual vendaval de nescidades, lugares comuns e mais tiradas à la psicanalista segundo as quais o país perdeu a idoneidade. Revendo as anteriores autognoses colectivas levadas a cabo por Fátima, constatamos que não avançámos nem um milímetro. Para quê então esta comiseração periódica que passa por ser o entendimento colectivo de um destino transviado?

Voltemos a Eça. Referência maior da literatura nacional, é difícil não nos sentirmos tentados a concluir que ele tem um peso marcante na nossa, chamemos-lhe assim, consciência colectiva. E é nele que se podem recensear todos os defeitos do debate actual. Se Eça é irónico nunca o é o suficiente para pôr o dedo na ferida – ou melhor, ele identifica a ferida, mas dá-lhe a volta ideologicamente recambiando para o âmbito dos valores aquilo que mais apropriadamente seria da responsabilidade estrutural. É que convenhamos, quando se fala do estado da nação (ou da sociedade) é preciso ter presente que não existe apenas um estado da nação. E não se trata do arrazoado patético de saber se há bons ou maus portugueses e se eles existem, onde se escondem. Trata-se, porventura ingloriamente, de observar que o pais não está em crise para todos; e são justamente aqueles que parecem ter procuração para falar sobre as crises nacionais que se encontram melhor do que nunca.

Ora isto é uma distorção da memória colectiva, pelo menos daquele substrato socio-simbólico do qual nós fazemos uso para darmos sentido a esta merda. Ricos, mais ricos. Produtos de luxo (casas, carros, quintas, jóias) em alta. Conclusão, a crise é assimétrica. Por isso não podemos ter sistematicamente quem anda a lucrar com a crise a tecer considerações sobre ela. Quem devíamos escutar era quem dela é vítima. Não me interessa nada ouvir as insistências dos “Egas” de ocasião que vêm verberar os valores dos portugueses; assim como não tenho nenhuma predilecção por versões apatetadas do hino da selecção cantaroladas com os préstimos das ordens corporativas: ai que bons que somos!

Talvez…se o modo da discussão é psicopatológico, a solução tenha que forçosamente passar por aí. E por isso, como nos canhanhos da psicoterapia para ingénuos, será à força de nos motivarem que começamos a acreditar que somos… Não! Pois eu digo que o problema é o ordenado mínimo, ao qual se soma o médio. E tudo mais são patranhas.

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