A Fonte do nosso descontentamento

 

Quinta da Fonte? Onde é que isso fica? Os acontecimentos recentes tiveram o mérito de colocar a Quinta da Fonte no mapa. Sobretudo no mapa perceptivo dos portugueses, matriz que entra em pânico sempre que colocada perante a evidência da etnicização da sua ditosa pátria. Ou pelo menos, foi justamente nesse molde – o de uma etnicização implosiva e imparável – que os eventos da Quinta da Fonte foram explicitamente colocados. Daí que os media tenham gritado em uníssono: ai meu deus que lá estão as etnicidades fracturantes – sem sequer se preocuparem em escrutinar as razões do acontecido.

As patéticas reacções das instituições da nação, querendo apaziguar o monstro ilusório, seguiram em regra os bitaites mediáticos e a compulsão para percepcionar “arrastões” em cada escaramuça multicor. Pois não foi imediatamente brandido o espantalho da hostilidade entre ciganos e africanos, hostilidade de cariz – acrescentou-se pressurosamente – racista? Depressa se juntaram a esta catilinária os promotores da igualdade, que asseguravam que as comunidades não têm qualquer diferendo, nem fundado em razões étnicas nem qualquer outro que decorresse do próprio esforço de convivência. A banha da cobra foi vertida com desvelo de agiota por personalidades tão conceituadas quanto a Alta Comissária para a Interculturalidade e a Promotora que desfaziam mal-entendidos assegurando que os africanos e os ciganos são, na sua maioria, pessoas de bem que só querem trabalhar – deixem-nos trabalhar, carago!

De repente estavam envolvidos uns senhores de umas associações que juravam a pés juntos que as comunidades se davam como deus com os anjos. Até que surge um anjo caído. Ora, raciocinemos: os ciganos e os africanos envolvidos estavam carregados de armas, ainda por cima, ilegais. Desataram a alvejar-se uns aos outros como se quisesem reeditar o famoso duelo do ok curral…não seria mais verosímel que o tiroteio se tratasse de um ajuste de contas, de uma contenda, entre dois grupos envolvidos em práticas criminosas? Sugerem-se: passar droga, roubos avulsos, pequena criminalidade e se calhar outra maiorzinha. A altercação parece assim configurar, bem mais provavelmente, uma guerrilha urbana entre grupos rivais pela posse do maior quinhão de uma qualquer prática ilegal. Como é que isto ganhou os contornos de um conflito étnico? A resposta, tão tautológica como cínica (ou mesmo desinformada) segundo a qual é um conflito étnico porque envolve etnias diferentes não resiste quando cotejada com os factos. Houve competição por um qualquer bem público? Não. Houve desavenças de natureza cultural, linguística ou religiosa? Não. Houve competição por lugares políticos ou de patronagem? Não. Houve luta por domínio territorial? Não. Então porque insistem em perspectivar o tiroteio da Quinta da Fonte como um emergente conflito étnico?

Um outro aspecto, de contornos mais especiosos, encontra o seu exemplo paradigmático no texto de Mario Crespo. Aqui desvela-se o iceberg que se encontra encoberto pela  camada de atributos etnicizantes. Parece que o que preocupa a nação é o facto de os ciganos andarem a abusar do rendimento mínimo. Diversas versões desta acusação podem ser respigadas quer nos jornais quer na blogosfera. E é notório como uma (suposta) convulsão étnica passa rapidamente a um problema de distribuição de recursos. Regressam assim, parafraseando Paulo Portas, os “ciganos do rendimento mínimo”. Dois imaginários poderosos encontram-se desta maneira à esquina a tocar a concertina. O primeiro, alusão explícita contida no desabafo de Portas: o welfare é um sistema de gestão do desperdício e da ilegalidade. Na sua presente formulação, o travejamento ideológico que nele podemos detectar possui muito de comum com a instigação contra as mães solteiras protagonizada pelos neocons e por Tatcher nos tempos de contestação intensa das políticas sociais. Também aqui o welfare era o principal factor do desperdício e da imoralidade (as práticas promíscuas das mães solteiras). Refracção desta temática, seria então o que surpreenderíamos nos reptos pelo uso fidedigno das instituições da res publica agitados como bandeiras quer por Mário Crespo quer, por exemplo, por Rui Ramos. Na argumentação utilizada faz-se geralmente uso de aspectos caricaturais, como sejam “vejam lá os ciganos do rendimento mínimo, que até têm ecran de plasma e playstation em casa”. E isto sempre aquilatado com as dificuldades por que passa a nação. Neste contexto, escreve MC que enquanto os ciganos andam a esbanjar, o portugês comum anda à rasca com a taxa do Euribor. Note-se que o “cigano” é o verdadeiro floating signifier para um discurso ideologizante mais elaborado: o da imoralidade do estado-providência. Por acaso, o cigano está mais à mão; mas bem que podiam ser os ceguinhos, ou mesmo os agricultores reformados. Será? Não, não é. Há que ir mais longe, e questionar justamente a facilidade da inscrição deste discurso no significante “cigano”.

E aqui insinua-se o segundo imaginário/representação. Teríamos que convencer MC e Rui Ramos que os ciganos são tão portugueses quanto eles. Torna-se portanto descabido traçar a divisória entre os estranhos esbulhadores da nação e os verdadeiros sacrificados, aqueles que são por natureza da nação. Mas quão célere e destemidamente entra esta oposição na equação da perturbação da ordem pública versus distribuição de recursos. Nunca vimos, por exemplo, um artigo de MC ou RR a verberar os abusos do conselho de administração do BCP com a mesma equação em mente: moralidade versus pertença. Que é lá isso, andarem a utilizar o nosso dinheirinho em acções desonestas e ilegais! É correr com eles, e já! Porque é justamente isso que no primeiro caso se encontra em jogo: uma fasquia moral que faculta (ou nega) a presença.

Mas mais interessante no texto de Mário Crespo é a elisão do confrontado; ou seja, em nenhum lugar do texto se faz referência ao facto de que do outro lado disparavam africanos, com toda a certeza, luso-africanos, portanto portugueses. Os ciganos são isolados e como num passe de ilusão eles confrontam os…portugueses. Ou seja, o termo elidido no confronto – os luso-africanos – metamorfoseia-se em os portugueses no geral, vítimas, claro está, dos ciganos. Somos tentados a identificar não apenas uma pertença moral como uma hierarquia dessa mesma pertença. Ao fazer isto, MC mostra as suas afinidades para com os africanos em oposição aos ciganos. Melhor dizendo, incorpora o “africano” ao sujeito portugueses confrontando-o com o cigano que está fora desta esfera de lealdade. Há portanto aqui uma destrinça entre esferas de lealdade. E estaríamos tentados a ver esta distinção associada a um mais alargado sentido de justiça, numa maneira muito rortiana. O que MC enuncia é a pertença de os africanos a essa esfera de lealdade mais próxima e consequente ostracização de os ciganos dessa mesma esfera. Só que, paradoxalmente, o afastamento de uma esfera primordial de lealdade não implica um pressuposto de justiça mais universal. Se, para Rorty (e sobretudo para Walzer) a passagem de uma lealdade thick para uma lealdade thin acarreta um alargamento da esfera de justiça, é justamente a interpelação pela pertença racial e étnica que perturba esta esquema tão harmonioso. É porque os intervinientes são interpelados pela sua pertença étnica que as noções de justiça e da sua extensão são a priori formatadas de acordo com essa interpelação. Assim, em nenhum momento surge a questão de se saber se havia africanos a beneficiar do rendimento mínimo; e quando Paulo Portas pede uma investigação ao subsídio tem somente em mente os ciganos.

Mas eis o nó górdio: queremos que os ciganos continuem ciganos ou não? É porque não pode haver dúvidas que a incidência do rendimento mínimo numa população designada ciganos tem por objectivo único, se me permitem o neologismo, preservar a sua “ciganidade” ou, como coloca o ACIDI num acesso de lirismo cívico, a cigadania. Ou seja, a condição sine qua non para a cigadania é o rendimento mínimo. Ou alguém acha que é possível manter um estilo de vida tradicional cigano – vender nas feiras, pequenos ganchos, etc – sem uma subvenção estatal? A moral da história é que quando o Estado português anda lá por fora felicíssimo a apregoar a cigadania como forma de preservar um modo de vida específico desta comunidade – e desta forma preservar a comunidade ela mesma – entreportas vocifera-se contra o abuso que é a preservação dessa mesma comunidade. A conclusão é que não se podem ter reservas de índios sem as subsidiar – passe a expressão com conotações preconceituosas.

Ora é aqui que entra a ideologia destes mercadores em todo o seu esplendor. Quer RR quer MC quer outro qualquer que se sinta muito ofendido com o rendimento mínimo não tem coragem de chegar às últimas consequências que decorrem necessariamente do seu posicionamento e que são facilmente enunciadas pela injunção de não queremos ciganos. Se bem que esta posição até, para efeitos de argumentação do que deve ser a correcta (eficiente) distribuição de bens públicos, possa ser considerada, deve ela ser tornada explícita, sob pena de se estar permanentemente a confundir a nuvem por Juno.

CRONOS

 

A CNN bombardeia-nos diariamente com umas estórias anedóticas sobre os heróis que andam a fazer alguma coisa pelo ambiente. Não fosse a gravidade da situação –afinal prevê-se que o Polo Norte derreta até Setembro – a coisa até passaria pelo costumeiro laconismo da estação norte-americana. Este pendor lacónico chama-se ideologia e é servida em doses concentradas e depuradas pela voz da América. Lembrando Zizek, a ecoloogia será realmente o novo ópio das massas.

Enquanto assistimos a um cozinheiro que só exerce a sua arte sobre produtos bio, a cimeira do G8 conclui pelo aumento da produção mundial de petróleo. Ora, a produção de refinaria e extracção é responsável por 42% das emissões de CO2 para a atmosfera. Por conseguinte, qualquer credibilidade nos reptos lançados pelos países industrializados no sentido de protecção do ambiente é seriamente afectada pelas conclusões da cimeira. Saberia a CNN qual era a intenção dos mais desenvolvidos? A resposta só pode ser afirmativa: não só sabia como perparou o terreno, andou a fazer o trabalho de sapa, a convencer-nos que o problema é poupar água da torneira ou aprender a viver à maneira das comunidades do Punjab. O que dizer da campanha para uma vida mais “verde” quando os responsáveis pelo maior volume de poluição a nível mundial – com os Estados Unidos à cabeça – exigem um incremento da produção do petróleo? Estão a gozar connosco.

Depois vem Bush com o seu semblante energúmeno dizer que o congresso é a única coisa que está entre o povo norte-americano e a melhoria da economia, ou seja, e as reservas marítimas de petróleo. Porquê? Porque cabe ao congresso aprovar a eliminação das proibições para novas perfurações. É certo e sabido que o congresso nem vai pestanejar.

JANUS

 

Sarkozy quer aproximar a Europa do Mediterrâneo. Melhor seria dizer: o que tu queres sei eu! António Vitorino, em alegre chalra com Judite, na versão sóror das conversas com o Prof. Marcelo, disse que era uma iniciativa extraordinária que tinha por objectivo resgatar aquelas mentes beduínas das nefastas influências do terrorismo. Acrescentou também que era uma tentativa para contrariar a tendência continentalista crescente que vigora actualmente na Europa. Esqueceu-se, infelizmente, de partilhar connosco a verdadeira razão. Sarkozy quer opor ao eixo continental austro-alemão, um eixo franco-mediterrânico.

Com a queda do muro de Berlim e com a conversão dos países de Leste ao capitalismo neoliberal, a Alemanha, mas também a Áustria, poderam aceder a um mercado em expansão apenas limitado pelos Urais. Um tal posicionamento geo-económico privilegiado reforçou acentuadamente o poder negocial da Alemanha, doravante controlando economicamente quase metade da Europa. Não será de negligenciar as afinidades históricas e culturais que a maioria dos países de Leste possui com a Alemanha e a Áustria; factor que mais nenhum país – tirando a Rússia – dos antigos 15 europeus pode reclamar. 

Sarkozy, e a sua pretensamente generosa aproximação ao Mediterrâneo, quer reeditar o eixo franco-alemão, enquanto eixo hegemónico economica e politicamente. Só não é militarmente, porque a NATO não se compadece com estes desígnios fracturantes.

Estaremos nós a ser gradualmente guiados para uma situação pré-primeira guerra? Será talvez menos coincidência do que à primeira vista se possa pensar que no momento em que o projecto europeu vacila –porventura para não mais se recompor-, surja no horizonte o espectro do velho eixo franco-alemão. Não foi afinal para evitar a sua recuperação – e rivalidade – que a Europa comunitária se formou?   

O estado incontinente da nação

Comecemos pelo título: a sociedade da nação! Ilustração, mais que suficiente, do destrato que a nação anda a levar. Refiro-me, obviamente, a mais um acto de contrição colectivo orquestrado pela mão providencial de Fátima Campos Ferreira.

Um espectáculo memorável, como sempre. Desde a tradicional citação de Eça, passando pelo circo risonho de uns intelectuais a babujarem cultura, mais uma vez foi um espectáculo deprimente. E que dizer de Marinho Pinto, a quem eu, extemporaneamente elogiei a verve e as veras da alma? Pois, mutação consumada, surgiu o monstro bizonho que osculta na vontade popular o desejo pela língua morta. Leia-se: o latim. Para o bastonário, o problema do país é não sabermos latim! E nisso encontra-se com sua santidade o papa Bento, para quem o problema da irreligiosidade actual é falta de latinismos no encontro com o senhor.

E ficávamos por aqui? Claro que não. O festival de incapacidades ainda estava no adro – à falta de procissões que nos resgatassem da ira divina, temos o desfile cavalar das personalidades da nação a dizerem do seu desconsolo psicológico. Falta de auto-estima, esgrimem portugueses e estrangeiros! E até um professor de filosofia estrangeiro diz que não se vive assim tão mal em Portugal – pudera: pra professor universitário a coisa nem está negra! Mas os cangalheiros da identidade nacional (ou os seus taumaturgos, a bem dizer) não hesitam nem perante o mais disparatado e incongruente. Assim vivemos um problema de valores (o tal défice de auto-estima, à cabeça) e por isso é necessário martelarem-nos o espírito, com a insistência de trombetas às portas de Jericó,  que somos BONS, somos MUITO BONS, ouviram?, somos os MELHORES! Não vá a gente ter dúvidas.

A esta catilinária de acessos de auto-estima, juntou-se o inefável louco da aldeia que repetia incessantemente que o problema era a toponímia; mais exactamente, a semiótica. Donde, o facto de haver cinco maneiras diferentes de anunciar a Praça de Espanha teria, segundo a proeminente mente, efeitos catastróficos para o país. Em todos os encontros dos pares do reino, o bobo é presença indispensável.

E em que é que ficámos? No habitual vendaval de nescidades, lugares comuns e mais tiradas à la psicanalista segundo as quais o país perdeu a idoneidade. Revendo as anteriores autognoses colectivas levadas a cabo por Fátima, constatamos que não avançámos nem um milímetro. Para quê então esta comiseração periódica que passa por ser o entendimento colectivo de um destino transviado?

Voltemos a Eça. Referência maior da literatura nacional, é difícil não nos sentirmos tentados a concluir que ele tem um peso marcante na nossa, chamemos-lhe assim, consciência colectiva. E é nele que se podem recensear todos os defeitos do debate actual. Se Eça é irónico nunca o é o suficiente para pôr o dedo na ferida – ou melhor, ele identifica a ferida, mas dá-lhe a volta ideologicamente recambiando para o âmbito dos valores aquilo que mais apropriadamente seria da responsabilidade estrutural. É que convenhamos, quando se fala do estado da nação (ou da sociedade) é preciso ter presente que não existe apenas um estado da nação. E não se trata do arrazoado patético de saber se há bons ou maus portugueses e se eles existem, onde se escondem. Trata-se, porventura ingloriamente, de observar que o pais não está em crise para todos; e são justamente aqueles que parecem ter procuração para falar sobre as crises nacionais que se encontram melhor do que nunca.

Ora isto é uma distorção da memória colectiva, pelo menos daquele substrato socio-simbólico do qual nós fazemos uso para darmos sentido a esta merda. Ricos, mais ricos. Produtos de luxo (casas, carros, quintas, jóias) em alta. Conclusão, a crise é assimétrica. Por isso não podemos ter sistematicamente quem anda a lucrar com a crise a tecer considerações sobre ela. Quem devíamos escutar era quem dela é vítima. Não me interessa nada ouvir as insistências dos “Egas” de ocasião que vêm verberar os valores dos portugueses; assim como não tenho nenhuma predilecção por versões apatetadas do hino da selecção cantaroladas com os préstimos das ordens corporativas: ai que bons que somos!

Talvez…se o modo da discussão é psicopatológico, a solução tenha que forçosamente passar por aí. E por isso, como nos canhanhos da psicoterapia para ingénuos, será à força de nos motivarem que começamos a acreditar que somos… Não! Pois eu digo que o problema é o ordenado mínimo, ao qual se soma o médio. E tudo mais são patranhas.

Na quatro

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O jornal da TVI é um veículo cultural indispensável. Quem é que se encontra à altura de substituir Julio Magalhaes com a sua voz arrastada de cangalheiro, a dizer coisas como “Mandela, que é conhecido por todos pelo menos de nome”? Mas não nos enganemos: a sobriedade funéria deste locutor concilia-se naturalmente com a seriedade das notícias. O jornal da TVI oferece um panorama sobre o país “irreal”. E nestas coisas, convém ter um ar composto e fleumático. Por isso, a carranca esfíngica de JM vai debitando, imperturbável, um rol de acontecimentos de estarrecer, com gente exótica e mesmo extraterráquea, a dizerem coisas de empalidecer. Como por exemplo aquela notícia que versava sobre uma ocupação digna para os incapacitados mentais, algures na província (esse lugar já de si estranhamente singular), onde se lembraram de os pôr a recolher lixo nas traseiras das empresas. E foi com distinta parcimónia que o rosto de gesso de JM se juntou a um empresário que afirmava estar contente com a iniciativa: “eles andavam aí pelas ruas, e a gente até tinha medo deles; agora a gente sabe que eles podem ajudar e eles também andam contentes”.

Uma tal manifestação de magnanimidade só poderia ser explicada pelos 1.000 euros que os incapacitados já deram a ganhar à associação que, supostamente, por eles zela. E uma senhora muito bem posta, com ademanes de tia de Cascais, mas seria com mais certeza, mulher de empresário, catolicíssima, crismada e ferrada, mostrando a desenvoltura de uma festa de “taparuere”, afirmando que aquilo era uma iniciativa excelente para o rebanho à sua guarda. E pagos, eram pagos? A notícia dizia que sim…só não dizia era quanto. Mas isso são minudências perto do prazer – individual e comunitário – de ter os incapacitados na recolha do lixo para reciclagem. Os rapazes, nos seus rostos tão descomplexados quanto desfeados, sorrindo desfiguradamente, lá iam arrebanhando caixotes e outras sobras para dentro de uma camioneta. Faltava-lhes cantar “Oh Lord, Oh Lord – Let my people go!”. Que exagero! Havia contentamento genuíno naqueles malares salientes. Os dos empresários, quero dizer, que se diziam satisfeitos por ter menos esta preocupação. Só não se percebeu quem antes fazia o serviço. Ou talvez não fizesse. E se não fazia, para onde iam as sobras, a imundice? Naturalmente, que também não se mencionava se os empresários pagavam alguma coisa. E para quê? Não é paga suficiente o deixar os incapacitados esgaravatarem nos nossos monturos? Que melhor prova de solidariedade pelos excluídos das nossas vilas? Pelos defeituosos que andam para aí a “meter medo” na rua às pessoas de trabalho honesto? Quem é que não ficaria satisfeito com um atrasado mental a limpar-nos as traseiras a bem da comunidade?

Quem mete medo a quem nesta estória?

O complexo de Salieri

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Gosto muito do Saramago. É um homem tremendamente inteligente que não está com merdas. O que são “merdas”? “Merdas” são aquilo que a maioria dos escritores da nova geração (e algumas mais vetustas personalidades) usam e abusam quando botam palavrório; coisas do estilo: “vá lá: diz Wittgenstein…” ou “…é como se fosse o Malhestrom”, e ainda “escrever é uma forma de viajar”, e etc. É isto que constitui o “merdismo” no campo literário. O “merdismo” tem diversos adeptos na nova inteligentsia quer de esquerda quer de direita, por isso não existe um quadrante político que tenha a particularidade de ser fundamentalmente “merdista”. O “merdismo” abunda e é apachentado pela comunicação social, palco propício para “merdismo” de diverso teor e expressão.

Saramago é puro e directo – quem quer gosta, quem não quer não gosta. E quem não gosta, só pode estar de má-fé ou ser um burgesso. Alvitro que a primeira hipótese se aplica sem espinhas aos agentes da “Casa Fernando Pessoa”. Aí, exuda-se uma tal verrina em relação a Saramago e à sua obra que, não acreditando que os seus representantes sejam propriamente ignorantes, iletrados tão-pouco, só pode esta ser atribuída à antipatia que por ele nutrem.

Mas Saramago é um homem estigmatizado, pelos seus compatriotas e pela imprensa que calhou em sorte a estes. Só assim se compreende que uma entrevista ao maior escritor português vivo comece por “considera-se uma pessoa polémica?”. Claro está que um começo tão auspicioso é de molde a indispor imediatamente mesmo o mais tranquilo dos homens.

Contudo, Saramago está acima destas questiúnculas. Virou o cu a Portugal farto do excesso de açoites que as luminárias pátrias sistematicamente lhe prodigalizavam. E é pena. Sucede que Saramago é profundamente português. É tão português que, logicamente, só se podia ter zangado com Portugal.

Depois há Filomena Mónica. Dificilmente se imagina alguém que ressude tamanha verrina contra a esquerda  e em particular contra Saramago– excluindo, evidentemente, o seu compagnon de route, VPV.

Seguia-se um texto de José Saramago sobre o sorriso. Não vou falar do suposto mérito literário do “nosso” Nobel, mas desejo reiterar que me parece absurdo fomentar a leitura com base em autores contemporâneos. Nem estes são de leitura acessível nem, mais importante, sabemos se têm mérito: um grande escritor é-o quando resistiu à erosão do tempo. Na segunda metade do século XIX, a elite nacional decidiu que o maior poeta português era Tomás Ribeiro, o qual, em 1862, publicara um poema intitulado “D. Jaime”. O mais conceituado crítico da época, António Feliciano de Castilho, teve o desplante de considerar a obra como mais importante para o estudo da língua portuguesa do que “Os Lusíadas”, o que não suscitou arrepios. Mas alguém é hoje capaz de ler, sem se rir, as linhas com que abre o “D. Jaime”: “Meu Portugal, meu berço de inocente,/ lisa estrada que andei débil infante, variado jardim do adolescente,/ meu laranjal em flor sempre odorante/…”? Quem me garante que José Saramago não é o Tomás Ribeiro do século XX?

Filomena quem?

Marinho Pinto

Ouvindo a entrevista do Bastonário da Ordem dos Advogadas a Judite de Sousa é difícil não identificar os vícios da maioria das instituições portuguesas, bem para lá daquilo que se confina aos magistrados. Nesta entrevista, o bastonário traçou um esquisso das teias de poder, clientelares, familiares, e dos privilégios da magistratura, mas o seu modelo poderia ser utilizado, mutatis mutandis, para muitas outras ordens de privilégio.

Que uma Judite de Sousa assanhada, a surgir como um juiz vexado pelo discurso desabrido do bastonário, tivesse aparecido nesta entrevista, só reforça aquilo que Marinho Pinto salientou por diversas vezes: a existência de uma promiscuidade pouca saudável entre instâncias judiciárias e os meios de comunicação social. Porém, aparte esta mescla estratégica que se revela em sinecuras e negociatas que apenas se tornam perceptíveis quando há broncas, o que fica claro é que a plutocracia é o princípio da nossa ordem cívica. Quem diz magistrados, diz médicos, diz engenheiros, diz professores universitários…um pendor para a agiotagem que perpassa por qualquer sistema de troca em Portugal. Onde há troca – de serviços, de bens, de competências, etc -, avulta a fraude. O comportamento fraudulento não se reveste necessariamente da forma de calotes monumentais (estilo BCP) ou sequer de acções de natureza criminosa. O que é fraudulento é a invenção de privilégios equacionados enquanto obrigações. Por exemplo, Marinho Pinto referiu a formação de advogados estagiários como um negócio de milhões, através do qual os fundos estruturais da UE teriam sido canalizados para os bolsos de uma clique. Ora esta clique estaria na origem do crescente número de cursos de direito e da instigação ao “livre curso das vocações” – como Judite de Sousa fez questão de sublinhar – apesar da situação de superavit de formados em Direito. O paralelo pode ser facilmente traçado em relação a outros ofícios com os respectivos cursos de formação – absolutamente inúteis, mas que encheram os bolsos a uma informe categoria profissional designada por formadores. Mas a esbulha dos fundos estruturais através dos cursos de formação atravessou o tecido produtivo português. Assim se gastaram milhões em cursos de formação para marinheiros e outros oficiantes das tarefas marítimas, num país em que a frota marítima já quase não existe. As razões subjacentes podem ser as mais variadas: desde aumento dos números do pessoas qualificadas para show off nas estatísticas europeias, até sinceras tentativas de induzir ao crescimento através da requalificação. Todavia o resultado foi somente um: o enriquecimento de cliques estrategicamente colocadas para o açambarcamento dos cursos de formação. E isto, é a ponta do Iceberg.

No domínio dos privilégios, observando as manobras da nova presidente do PSD não podemos de deixar de nos escandalizar de tal forma são claras as suas intenções. O novo moinho de vento, depois da preocupação com as desigualdades, contra o qual a senhora arremete são as obras públicas. Numa versão inovadora das necessidades ingentes do país. Manuela vem alertar-nos para o despesismo. Começando pelo TGV. Onde na altura em que estava no governo, Manuela sustentou uma solução com cinco linhas, vem agora bramir que duas linhas são mais do que suficientes, poupando-se assim agruras desnecessárias a um país já de si tão espoliado. Estranha inflexão. E se é verdade que as pessoas podem mudar (mal delas) são as razões que as assistem que aquilatam a honestidade da mudança. Vendo bem, o que Manuela se preocupa, e o seu partido, é com a possibilidade de se lançarem obras públicas fora de um ciclo político PSD. A política, nos nossos actuais regimes dicotomizantes, deve ser entendida como uma distribuição de regalias à outrance: quem consegue, durante um ciclo político, assegurar mais privilégios no sector privado. Por isso é que a eterna discussão entre privatização e estado social serve simplesmente para confundir os termos do que se negocia. Importa escrutinar a acção dos políticos enquanto jogadas para futuras coligações, de bastidores, entre sectores do Estado e actividades privadas. Actualmente, não existe qualquer separação entre interesses privados e o Estado. Com efeito, o discurso dos partidos conservadores de sistemática crítica contra o Estado e a sua extensão serve apenas de cortina de fumo ideológica para resguardar do eleitorado aquilo que é a verdadeira situação. Os grandes empreendimentos inserem-se nesta lógica. Donde, o que preocupa verdadeiramente o PSD é a possibilidade de ficar de fora, durante mais um ciclo político, da distribuição de sinecuras. Nada de novo, a bem dizer.

E Marinho Pinto? Pois, por aquilo que ele disse, sem constrangimentos, sem papas na língua, de forma não sofismática, de tal forma que desarmou a argumentação de Judite, habituada que está à retórica rasteira e a um discurso tão formulaico quanto vazio, parece ser uma espécie de figura providencial. A páginas tantas, durante a entrevista, Judite lembrou os apodos pouco simpáticos com os quais Júdice rotulou o bastonário – e como responde às acusações que o consideram um Hitler, um Chavez, um Mussolini… – Pois, eu sei que o dr. Júdice me compara ao Hitler, Mussolini e ao Primo de Rivera – são heróis da sua juventude! Ponto alto da entrevista. Precisávamos de mais Marinhos Pintos.