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Free Mandela…again

Junho 29, 2008

Ainda sou do tempo em que um pacote de arroz custava…Não era isto que eu queria dizer. Recomeçar. Ainda sou do tempo em que os Estados Unidos da América apoiavam, sem reservas, e contra a maioria da chamada comunidade internacional, o apartheid sul-africano. Lembro-me do tempo em que se cantava “Gime hope Joanna…” e “I don´t wanna be in Sun City”, sem que isso fizesse vacilar o então apoio norte-americano e inglês ao apartheid na sua missão de impedir o ANC de chegar ao poder.

 

Botha, instigado pelo agora estimadíssimo Huntington, impôs um Estado de segurança máxima para que o apartheid resistisse ao seu último extertor, um prolongamento infame de uma sociedade de privilégios instituídos apoiada pelos Estados Unidos por causa das suas ligações económicas.

 

Por isso, ver a CNN a dar emissões contínuas a chamar a Mandela um homem “extraordinário” sem mencionar tão-pouco o facto de o ANC ter sido considerado um movimento terrorista arrolado à lista negra do departamento de estado norte-americano, é caso para se ficar perplexo. E que dizer da festa celebrada em Londres, cujo governo apoiou o apartheid até que De Klerk, confrontado com a impossibilidade de manutenção de uma situação de exclusão absoluta, encetou a sua reforma? A CNN, com a sua isenção habitual, deixa passar em claro que apenas agora (2008 portanto) Mandela e o ANC foram resgatados da lista de terroristas internacionais. E é com muito fire crakers e manifestações jubilosas dos jornalistas que esta verdade crucial é abafada.

 

Os olhos de Mandela a sobrevoarem a multidão que se juntou para comemorar os seus noventa anos parecem dizer: mas quem é esta gente que nada tem a ver com a minha luta? Pássaros de arribação, como a boazuda da Geri das Spice Girls surgem a afirmar solidariedade com Mandela, embora não saibam bem porquê. Será por causa da luta anticapitalista movida pelo socialismo do ANC? Será porque foi considerado um movimento terrorista com ramificações sindicais? Será porque contém o pequeno Partido Comunista sul-africano? Ou por tudo isto? Will Smith, o evangélico, crente ferveroso, também lá está com os olhos a brilharem de emoção por se encontrar a cantar na festa do homem que simboliza o fim do apartheid.

 

I had a dream, a famosa frase de Luther King. Depois limparam-no. Podiam ter feito o mesmo a Mandela, mas isso era mais complicado, seria criar um mártir. Por isso sempre foi melhor encerrá-lo vinte sete anos em Robben Island. A CNN não dá destaque a estas trivialidades. Prefere salientar coisas imorredoiras como “foi Mandela bom pai para os seus filhos?” e “era muito mulherengo?” e “encolerizava-se facilmente?”. Interessantes platitudes que transmudam Mandela numa equivalência masculina da Princesa Diana.

 

Mandela avisa, com a voz sumida, que o trabalho ainda está por acabar. Enquanto houver fome, miséria, doença, excesso de riqueza, há um trabalho para fazer. Não creio que sejam Geri e Will Smith que irão encabeçar esse trabalho, embora se encontrassem visivelmente excitados ladeando o ídolo da sua juventude. Nem tão-pouco a alcoólica Amy Winnouse, que quando Mandela fazia a sua luta, andava ainda de fraldas. Por isso, a voz de Mandela debitava um texto sem convicção, sabendo que aquela não era a multidão que devia ouvi-lo.

 

I have a dream. Depois foi morto. O que entretanto foi esquecido é que o sonho era um sonho socialista, e não apenas o da igualdade racial. Também era; mas foi sobretudo um sonho de igualdade, tout court. Como o de Mandela. Sonho que não nos é mais contado. Sonho que a CNN prefere substituir pela vida “real” de um homem “extraordinário”. Sinais do tempo. Tempo sem sinais.  

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One Comment leave one →
  1. Julho 3, 2008 11:34 pm

    Desta vez não podia estar mais de acordo contigo, pá. E por falar em Will Smith, viste o Hancock? Vale a pena?
    Ainda hoje ouvi o concerto em Sol do Ravel, de que tanto gostavas. O Adagio continua a ser do caralho.
    abraço

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