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O feminismo não tem sexo

Junho 28, 2008

O congresso feminista reuniu 600 pessoas. Em torno do quê, é mais complicado de dizer. A introdução que nos é oferecida na página web que anuncia o congresso, não é sobremaneira esclarecedora. Assim como a definição que nos é dada por Maria José Magalhães, não prima pela claridade, a saber:

 

“O feminismo é um conjunto de ideias, movimentos sociais e perspectivas de estudos que têm em comum uma denúncia da situação de desvantagem, discriminação, subordinação, opressão e exploração das mulheres face a um sistema social que é dominado pelo masculino, enquanto grupo social.”

 

Por conseguinte, o feminismo é um movimento reactivo. Está contra e denuncia. Lendo a breve história do feminismo em Portugal que nos é apresentada na mesma página, fica-se com a sensação que nunca os intentos e orientações foram tão obscuros, ou deslaçados, ou indefinidos, como actualmente. Lutar pelo direito à educação e ao voto, são reivindicações compreensíveis, tangíveis nos seus resultados. Isto foi o início, segundo se lê.

Mais tarde, a condição da mulher, o reequacionar desta mesma condição, a interrogação sobre o feminino, pela mão de Beauvoir, e o seu segundo sexo, Luce Irigaray, isto em França. Outras, muitas, calcorrearam as mesmas avenidas. E alargaram horizontes, de tal forma que a ideologia patriarcal saiu fortemente afectada, para sempre, para nunca mais se recompor. Levou subsequentes machadadas pela mão de senhoras como Sontag, Buttler e o supremo sacerdote da nova religião, na sua versão radicalmente desconstruída, pós-estruturalista, irredentista, a fabulosa Dona Harraway. O feminismo sofreu uma translação de 180 graus (apetece dizer) e deixou de ser uma luta pela expansão da cidadania (ou esse deixou de ser o seu aspecto fundamental) para ser uma interrogação do discurso da masculinidade e da forma como este operou como um verdadeiro palimpsesto dos discursos no “feminino”.

(Aqui convém uma pequena nota, um comentário parentético: não é raro supreender, se bem que não necessariamente do forma totalmente exposta, esta diferenciação entre os plurais e o singular. De forma que, o feminismo se declina em diversas vozes “contra” um masculino em uníssono. Estranho antagonismo para quem professa deconstruções e outros palavrões. Mas enfim, o velho Carl Schmidt, que pouco tinha de feminista, aposto, esboçou a estratégia básica para as confrontações: elege um inimigo unitário e confronta-o para que ganhes tu próprio em unidade. Ou seja, a acção política tem que passar antes de mais pelo confronto com o “outro”, e assim recuperas, ou inventas, a tua identidade.

Contudo, actualmente apetece perguntar como fez Freud há uma porrada de anos atrás Was will das Weib?)

Na definição lê-se que o feminismo deve “denunciar a (…) discriminação, subordinação e opressão e exploração das mulheres”. Todavia, não parece ser isso que dizem os indicadores. Claro que quando se trata de indicadores corremos sempre o risco de sermos selectivos. Mas sirvo-me de Esping-Andersen, reconhecida autoridade nestas matérias (o artigo chama-se Inequality of income and Opportunities), e o que se verifica é que, contrariamente à desigualdade em geral, cujo incremento é notório, tudo indica que o hiato entre homens e mulheres no mundo industrializado tem vindo a ser colmatado em todas as áreas (empregos, remunerações, tempo de trabalho, paridade no orçamento familiar, etc, etc).

Ou seja, as diferenças entre os homens e as mulheres têm tendido a esbaterem-se, não apenas gradualmente, mas de forma acelerada. É esta situação semelhante em todo o mundo conhecido? Não, com certeza que não. Mas até no mundo árabe, o Irão, esse monstro do fanatismo e berço de todos os males da humanidade, as mulheres ultrapassam muito significativamente os homens no respeitante à obtenção de um curso superior. Para Portugal a situação é exactamente a mesma. As mulheres não só são a maioria nas universidades como são aquelas que mais altas habilitações possuem. Hélas, e aqui é que está o busílis, as posições no mercado de trabalho não correspondem às habilitações.

Teríamos assim que o feminismo actual se resume a um desejo de paridade. Na realidade, esgota-se nesse desejo, como parece indicar a estrutura do programa do congresso que dedica quatro páineis a esse candente problema que é “onde estão os lugares de poder?” Note-se que o femininismo de Simone Beauvoir, pela sua inclinação esquerdista, abjurava os lugares de poder. O poder era masculino e essa segunda natureza impressa culturalmente no corpo, chamada mulher, encontrava-se forçosamente presa, agrilhoada, ao mecanismo de sujeição imposto por um mundo dominado pelo masculino.

Por conseguinte, é interessante ver como este feminismo abraça a causa do poder com tanta ambição que parece que estamos em presença de uma marcha de CEOS de saias  freneticamente disposta a desalojar os homens dos seus lugares cativos no topo da hierarquia (pura especulação que não encontra, actualmente, nenhuma credibilidade empírica).

Talvez porque o feminismo tenha perdido o seu ímpeto de movimento – não luta por nada de concreto que pudesse ser adicionado a uma lista de grievances – e se tenha refastelado quer na difusa injunção de um discurso do e no feminino quer no ainda mais paralisante (no sentido de não emancipatório) grito do Ipiranga de “Mulheres ao poder”, que se possam encontrar lado a lado a Isabel do Carmo e a Leonor Beleza a dizerem umas baboseiras sobre aquilo que toda a mulher partilha e como são vítimas de uma sociedade comandada pelo homem (o masculino).

Nada é mais aterrador do que esta consciência da transversalidade (ao homem uni-dimensional opõe-se agora a mulher transversal), de uma partilha subterrânea de uma condição que abole diferenças ideológicas, políticas, económicas, sexuais, práticas, etc. Temos assim que essa entidade flutuante denominada mulher (um floating signifier) se opõe, ou recria, de um outro lado de uma barreira imaginária, uma outra entidade flutuante designada homem. Mas ainda do lado do feminino, esta erosão provocada pelo simples invocar do sacrosanto nome “mulher”, qual toque de midas que transforma tudo o que toca, permite que católicas andem de braço dado com lésbicas e pró-aborcionistas, neoliberais empedernidas se sentem na mesma mesa de anti-globalizadoras destemidas, num ecumenismo saloio que esconde simplesmente o essencial: não há mulher nenhuma para além da mulher hifenizada – a mulher-assalariada, a mulher-empresária, a mulher-empregada-de-mesa, a mulher-…

Assim como não há homem para além daquilo que lhe é exigido, ou seja, um homem igualmente hifenizado.

O facto espantoso de a antiga presidente para a Igualdade e direitos da Mulher ser simultaneamente a líder do movimento Nós somos Igreja deve não apenas nos deixar perplexos como abalar profundamente os nossos fundamentos ônticos.

 

que “vivemos numa sociedade em que há desequilíbrios profundos, entre ricos e pobres e também de géneros”, uma mudança que tem que se basear no princípio de que “os homens e as mulheres estão interligados e agem em sociedade”, diz Ana Vicente, 65 anos, dirigente do movimento católico Nós Somos Igreja e antiga presidente da Comissão para a Igualdade e Direitos da Mulher.

 

 Não é a posição da mulher na visão da Igreja Católica qualquer coisa entre um úbere reprodutor e a nossa senhora de fátima? Entre a humildade sarnenta da Madre Teresa de Calcutá e a mãe poderosa encarnada na dona Isabel Herédia, nossa rainha com-sorte?

Não admira portanto que num congresso onde desfilam mais de cinquenta painéis, apenas dois sejam dedicados à questão, pelos vistos totalmente residual no presente programa das feministas portuguesas, da sexualidade.

E não vale a pena disfarçar o viés com uns pós de lesbianismo para inglês ver, mostrando que até se dá palco a orientações sexuais alternativas. Salta à vista que a concessão é o fetiche de um feminismo monolítico.

Daqui a uns anos, à pergunta o que é o feminismo, responderemos: é aquela coisa sem sexo. 

 

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One Comment leave one →
  1. Julho 2, 2008 6:25 pm

    Caro Nuno,
    Definir é sempre excluir. Se a definição é necessária, a exclusão vem necessariamente. A leitura, essa, pode ser mais livre e estranho que não se tenha lembrado de questões como a prevenção (serão também essas reactivas?). Divergências (ou aproximações) teóricas à parte, é profundamente falacioso dizer-se que foi um congresso sob(re) o grito “mulheres ao poder”, se entendido como poder político. Basta ver a diversidade temática -e que painéis sobre esse tema existiu apenas 1.
    Saudações feministas (neste caso, reactivas 😉

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