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Zizek e o Palácio de Inverno – ou como o barão de Munchausen se tornou um revolucionário

Junho 25, 2008

Um governo, ou melhor uma representação, mas desde que seja da “part of no part” (no sentido de Ranciére). Quem são estes actualmente? O conceito de proletariado deixou de ser operativo, mas o seu equivalente funcional – chamemos-lhe assim – é a população excluída dos slums; aqueles que se encontram fora da alçada da lei, que embora não tendo sido evacuados do sistema económico, dado que participam do mercado dual, não têm nada a perder.

Zizek parece abraçar aqui um certo imaginário western que vê no fora da lei o elemento disruptor que vem do exterior para impor uma nova ordem. Normalmente esta figura possui igualmente uma dimensão messiânica, de justiceiro solitário que, inadvertidamente, purifica a velha ordem danificada por um xerife corrupto e ganha os favores da população, nomeadamente da rapariga casadoira, da beleza da vilória.

Para Zizek, os excluídos, no sentido aqui definido – o pessoal das barracas, mais prosaicamente – serão o próximo sujeito revolucionário; é aqui que existe um potencial evenementiel emancipatório, o site evenementiel dos tempos vindouros.

Agora Zizek lembra, e bem, que no espaço diametralmente oposto, desta tipologia de posições, se encontra a classe simbólica. E aqui dá-se o leap of faith que não encontra nenhum argumento sólido. O problema destas massas dos slums é que são…massas. Por isso mesmo necessitam de um eixo disciplinador, uma intervenção (talvez divina) que as leve à organização. Não é o patrtido nem a vanguarda, ambos resquícios das deturpações socialistas do verdadeiro potencial democrático, a saber, a igualdade radical, ou, na expressão de Balibar, a egaliberté. O desejo é que um sector progressivo da classe simbólica possa estar à altura da tarefa. Mas porque razão haveria a classe simbólica de aceitar tão atípica aliança? Não está a classe simbólica bem de vida, e mesmo o seu sector progressivo gosta de perorar o estado das coisas mas à distância.

 

Agir do interior do Estado, tomando o poder, ou inventar novas formas de poder, subtraindo-se ao Estado. A contenda é fundamentalmente com Crowley e Badiou. Para o primeiro, a estratégia é retirarmo-nos do âmbito do estado e bombardeá-lo com “infinite demands” de tal forma que o seu colapso – ou a revelação da sua mentira enquanto estado democrático – seja iminente. Para o segundo, na medida em que quer o partido quer as organizações burocráticas, estatais, se revelaram totalitárias, é preciso reinventar espaços fora do estado, subtraindo-nos às suas leis, lógicas e regras, ou seja, à sua situação, em termos badounianos, e pela negação em nele participar abrir uma fissura que lhe seja letal – metáfora do ensaio sobre a lucidez de Saramago.

 

Zizek acha que o estado e assim como o poder que ele representa deve ser tomado…desde que seja pela “part of no part”. Numa democracia, a parte dos supranumerários é aquela que não se encontra inserida nas estruturas sociais. No exemplo grego, o demos é o que não pertence à oligarquia aristocrática. Mas ao ter voz, representa forçosamente o universal. Porque diz: eu sou o povo e não pertenço a nenhum lugar específico do corpo social. Razão puramente formal que atribui a “part de nulle part” o lugar da universiladidade igualitária. Daí a recuperação da ditadura do proletariado, só que como este é uma noção atávica que deixou de ser operativa, é portanto substituída pela mais abstracta, e fluida, noção de excluídos.

 

Por conseguinte, é consoante o eixo inclusão-exclusão que Zizek acha que se pode pensar uma política emancipatória. Recuperação, tardia, de uma fórmula sobejamente usada por sociólogos e outros cientistas sociais. O problema é que não existe, como Zizek parece pressupor, um antagonismo excluídos-incluídos que replicasse o antagonismo marxista de classe. Zizek reconhece que a noção de classe, e sobretudo de proletariado, assim como Marx a tinha elaborado, não é mais aplicável às sociedades actuais. Embora refira que o antagonismo de classes se encontra difundido por todo o corpo social (noção que Zizek frequentemente usa sem especificar exactamente o seu significado: que devemos entender por corpo social?). Todavia insiste, aparentemente, na verificação de um antagonismo entre duas realidades autocontidas, perfeitamente identificáveis e separáveis, à maneira de proletários contra burgueses. Ora, o que me parece específico das sociedades actuais são as múltiplas exclusões assim como as múltiplas inclusões. Ninguém é totalmente excluído, assim como ninguém se encontra totalmente incluído. Na vida dos indivíduos e dos grupos, as suas situações encontrar-se-ão, porventura, mais alinhadas com um dos pontos deste continuum analítico que é o eixo exclusão-inclusão. Nem este posicionamente é permanente, podendo variar ao longo de um outro eixo, que será o temporal.

 

Então, o que pode realizar o universal? Qual é o factor que todos nós partilhamos e sobre o qual devemos realizar as condições de igualdade que a verdadeira democracia exige? O ambiente. É a presença da catástrofe ambiental a impender sobre as nossas cabeças que nos deve unir. Mas esta união não é automática, não se encontra na natureza das coisas, como a tendência gregária dos seres humanos ou o instinto de sobrevivência. Ela só resiste, perdura, e impõe-se através do terror (cont.).

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