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The Happening

Junho 19, 2008

 

A característica mais interessante do último filme de N. Shyamalan – The Happening – é o facto de não acontecer nada. Este acontecimento é um não acontecimento – no duplo sentido: de um filme em que não acontece nada e de um filme que, apesar da expectativa, redundou em nada.

Suponho que Shyamalan saiu grandemente afectado do seu último pesadelo – A Senhora na Água. Para mal dos nossos pecados, reincidiu.

Infelizmente, para nós e para o realizador, o Happening até tem por base uma boa ideia, mas que é completamente desperdiçada, assassinada, num ritual de desmazelo raramente visto no cinema, mesmo o de Hollywood. Dir-se-ia que Shyamalan queria punir-se pelo tremendo falhanço do seu filme anterior. Mas também não era preciso exagerar o castigo.

 

Um conjunto de mortes, mais concretamente suicídios, começam a acontecer pela cidade de Nova York de forma inexplicável. Os sintomas são: as pessoas estacam, começam a dizer baboseiras, ou então começam a andar para trás, como nos jogos infantis; depois suicidam-se. Com o decorrer do filme fica-se a saber que as plantas são as causadoras da praga de suicídios. Chateadas com os humanos, com o elenco de calamidades que estes lhes infligem, resolvem contra-atacar. E fazem-no libertando uma toxina que supostamente inibe o nosso sentido de autopreservação. Daí os suicídios em massa. Que um indivíduo seja despojado do seu sentido de sobrevivência não significa que se tenha que suicidar das maneiras mais atrozes, como deixar passar-se a ferro por um cortador da relva ou espetar um ganjo de cabelo no pescoço. Porque não recorrer ao despretensioso coktail de comprimidos? Por esta descrição há quem já esteja a salivar de contentamento pelo festival gore que deve ser o “The happening”. Desenganem-se. Bom era que assim fosse. Mas apesar de ter sido classificado com um R – o que terá sido devido mais à paranóia com o terrorismo do que propriamente às imagens impressionantes – o filme é típico Shyamalan: faz que mostra, mas depois não mostra. E isto até podia ser eficaz, como mostram filmes como “Seven” de Fincher ou, essa inspiração directa do The Happening, o clássico de Hitchcock, Os Pássaros.

 

Porém, Shyamalan não é Hitchcock. E disso mesmo depressa nos apercebemos através do atabalhoado trabalho dos actores que o filme nos oferece. Walberg, habituado a fazer de duro e a partir de tudo por onde passa, é aqui um professor meio aparvalhado que faz lembrar uma versão cinematográfica do Prof. Pardal, mas sem a genialidade deste último, contracena com Zooey-Deshanel, misto de ingenuidade maléfica com infantilidade retardada mental, naquilo que pode ser classificado como um dos pares mais cabotinos da história de Hollywood – descontando Rock Hudson e Jane Wyman.

 

Chegados aqui, estaríamos tentados a fazer uma análise à la Zizek, ou seja, interpretar o par Walberg – Deschanel enquanto representantes da “produção do casal Hollywoodesco” a que Zizek faz referência na sua análise do mito familiar nos blockbusters norte-americanos. Mas nem vale a pena ir muito longe. O filme é de facto sobre um casal em desagregação, e o “acontecimento” serve apenas como mise-en-scéne da história principal: como se irão reencontrar Walberg e Zooey? No meio de tudo isto, ficam uma sequência de diálogos completamente atabalhoados que nos revelam o esforço quase sobre-humano que os actores têm de fazer para darem o mínimo de consistência a um plot errático.

 

A certa altura do filme, as centenas de pessoas que foram evacuadas da área contaminada vêem-se obrigadas a abandonarem o comboio onde viajavam. O comboio parou em nenhures e as pessoas (às centenas presume-se) ficam naturalmente desorientadas, não sabendo para onde ir. Reunem-se num restaurante perto da estação, onde nos é dada a aperceber que pelos menos noventa por cento dos viajantes já se evaporaram. Como se isso não bastasse, ao saberem que a epidemia se dirige para o sítio onde se encontram, abandonam em pânico o restaurante fugindo para os…seus carros. Portanto temos que das centenas de pessoas que foram evacuados num comboio, a maioria tinha um carro à espera numa estação no meio de um descampado. Este desleixo repete-se inúmeras vezes no filme, deixando a sensação amarga que Shyamalan não sabia o que andava a fazer.

 

Poderia ser um filme interessante, no contexto de pânicos variados (ou do seu imaginário) que assolam o nosso quotidiano. Uma parábola à sociedade actual e ao medo difuso dos ataques terroristas. E até começa por ser. Mas depois é o descalabro. Cena após cena o ridículo instala-se. E no fim, e ao contrário do que era a marca de água de Shyamalan, nem sequer somos surpreendidos.

 

Um filme a evitar.

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