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A SIDA em mirandês

Junho 17, 2008

O João Miranda é um dos tipos que mais jus faz ao subtítulo do seu blogue: o Blasfémias. Refiro-me à alusão ao estado de bovinidade grassante. Nele essa insidiosa percepção revela-se em todo o seu esplendor.

Em “mirandês” diz-se: A população tem que ser segmentar em grupos de risco e não em comportamentos de risco pela simples razão que é muito mais identificar as pessoas de um dado grupo de risco do que as pessoas com um dado comportamento de risco.

Como João Miranda se refere a grupos como homossexuais, drogados e prostitutas, temos que, por perclara sapiência, que em “mirandês” é mais fácil identificar paneleiros do que pessoas que não usam preservativo tendo contactos sexuais de natureza promíscua. Nada mais certo. É que há uma coisa chamada “o faro Miranda” que detecta paneleiros a uma distância que assegura que estes não nos venham ao cu. E isto não é um comentário ordinário; é o reconhecimento da infalibilidade do método.

Ora o paneleiro é detectável na rua pelos seus ademanes exagerados, gritos esganiçados, sobretudo em contundentes momentos em que os pobres lascam o verniz das unhas, cabeleiras exageradamente penteadas, chegando mesmo a utilizarem o “curling” de forma marcadamente abusiva.

As putas nós até compreendemos. Não é necessário recorrer ao método mirandês para as detectar – são aquelas senhoras que normalmente se encontram à beirinha da estrada, recalcitrantes, hesitando em atravessar, envergando umas botas altas, de salto geralmente não-ergonómico, acarretando perigo para as vértebras e potenciadores de bicos de papagaio (e não só), de preferência com decotes exageradamente abertos que revelam toda a sua condição feminina de escravas da pulsão sexual (aqui deverá ser feita uma devida vénia à Drª Patrícia Lança que desde sempre me tem inspirado…).

Os drogados também não difícil. Arrastam-se pelas avenidas, tendo dificuldade em dobrar esquinas, sobretudo quando estas são vergastadas por correntes de ar. Possuem um ar macilento que lhes colora a cara, não excluindo a coloração biliosa dos seus membros. Podem ser identificados quando de manga curta ou t-shirts de mangas cavas, situação em que se encontram mais vulneráveis, dado que revelam desabridamente inúmeros buracos geometricamente dispostos nos seus braços esquálidos.

Para estes dois grupos de risco tem a ciência os instrumentos necessários que permitem a sua rápida identificação e posterior isolamento. Permanece, relapso e contumaz, o problema da identificação dos paneleiros. Com a agravante de que alguns não coincidem com o modelo que deles temos. O que causa problemas de maior na segmentação populacional. Prima facie, segregar todos os homens que dessem pulos de contentamento porque a princesa Letícia engravidou, afigurava-se ser um método quase que infalível na triagem das criaturas. Mas conta-se que alguns não o fazem, chegando mesmo a afirmarem que, não obstante a paneleirice de que são vítimas, se estão a cagar para a princesa e mais para a família real espanhola. O que baralha imensamente as estatísticas. Outros são tão mas tão paneleiros que uma noção como a de grupo de risco se afigura curta para cobrir tamanha paneleirice. Estes estão para lá de outliers, chegando mesmo a ocupar uma dimensão radicalmente diversa.

A conclusão a retirar é que é muito mais fácil identificar “grupos de risco” como putas e paneleiros do que comportamentos de risco – a tal coisa abstrusa que passa pelo uso ou não do preservativo.

Em “mirandês” a questão crucial traduz-se no seguinte: não interessa nada identificar comportamentos de risco, porque já estamos seguros de termos triado os grupos que estão na origem dos mesmos. É que em “mirandês” é totalmente irrelevante identificar comportamentos de risco. Porquê? Não sendo possível segmentar a população de acordo com os comportamentos, é necessário usar um proxy desses comportamentos. E o melhor proxy que existe é a pertença a grupos de risco.

Como ficou demonstrado atrás, é por demais evidente que os grupos de risco são facilmente identificáveis.

O pior é que, os cultores do mirandês, quando se apanham com responsabilidades públicas, acreditam no seu credo (Credo!).

E acrescenta,

Como as autoridades públicas não têm informação sobre quem tem comportamentos de risco, então a probabilidade subjectiva tem que ser estimada com base na pertença aos grupos de risco. Se as autoridades soubessem quem tem comportamentos de risco e quem não tem, não haveria qualquer necessidade de recorrer ao conceito de grupos de risco. Mas dado que não é possível saber quem tem comportamentos de risco, as autoridades têm que se basear na pertença a grupos de risco.

É certo e sabido que as autoridades possuem arquivos bem apetrechados de fichas de toda a paneleiragem, putaria e junkies que anda prá aí a passar SIDA. Para um mirandês convicto (mirandês, segundo o dicionário da academia, é todo aquele que professa um espírito Miranda) aquilo que constitui a trave mestra do seu raciocínio, a saber, a possibilidade de identificar grupos de risco, é tida como uma evidência, nem sequer questionável segundo os nobres preceitos da correcção científica. O que leva à brilhante conclusão: Os indivíduos que têm comportamentos de risco mas não pertencem a grupos de risco são muito poucos e difíceis de identificar e localizar.

Sério? Deve ser por isso que a SIDA em África atinge maioritariamente a população heterossexual. Ou será este um novo grupo de risco que deverá caber na lista exaustiva compilada pelo método “mirandês”?

Voltando ao subtítulo do blog: o estado de bovinidade parece ser uma indesmentível realidade – para quando a blasfémia?

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