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A tragédia da praça das flores

Junho 10, 2008

O mais intrigante na polémica em torno da praça das flores (aquela praceta engraçada, onde pontuam umas árvores tão vetustas quanto nobres e uma fonte delapidada, literalmente, posto que ainda por lá boiavam calhaus, onde os pombos se dessedentam e alguns agarrados, como na professia dos uhf, se sentam ao sol, a tisnar as veias que hão-de receber o próximo caldo, cálidas de desejos de alienação e benevolência afectiva) mas dizia, o mais intrigante na porfia que tem juntado bloguistas e homens de intervenção por igual, é que parte dos polemicistas, da nova esquerda, vivem ou na referida praça, ou nas ruas adjacentes. Preocupação aceitável de quem vai de manhãzinha beberricar um café tão espesso quanto o preço a uma esplanada in que bordeja a humilde praceta.

Desta polémica desabrida, consta, como ponto de ordem, a apropriação neo-liberal do espaço público. Uma praça é um espaço público, assim como uma rua, mas eu arriscaria mais, se quisermos ser ambiciosos, espaço público é todo o espaço habitável antes de ser privatizado. Definição com certeza polémica, assim como a polémica da apropriação selvagem pela Kia, do fechamento da praça, da obstrusão à passagem de agarrados, acólitos da nova esquerda e das profissões in (contam-se entre estas, como é sabido, todas aquelas que estiverem ligadas à produção mediática) e brazonados de alto coturno, que figuram nos manuais de heráldica que se podem comprar nos alfarrabistas do Chiado, que se viram de repente privados das benfazejas sombras das amoreiras (serão amoreiras, ou isso é de uma outra, igualmente nobre praça?).

Ora esta preocupação, sem dúvida nenhuma saudável, parte de quem comprou, ou alugou, o metro quadrado mais caro da cidade de Lisboa. O metro quadrado do Princípe Real e adjacências, figura, a par da Lapa, como o mais caro de Lisboa. É claro que se pode conviver com o facto de se possuir o mais caro metro quadrado de Lisboa mas não se poder atravessar a mais barata das praças de Lisboa, descontando o tal café. Políticos em férias, artistas de vários talentos e compulsões, por lá sentam o heráldico rabo. E até nem é raro, deputados na pausa dos seus afazeres de comunhão com o bem-estar da nação, por lá passarem, para desfrutarem de uma omelete de gambas a preço de lagosta. E isto foi-lhes agora vedado, numa privatização assassina da referida praça. Claro (e há sempre um claro) que houve um trade-off, como dizem os camones: troca-se o fecho da praça pela recuperação da mesma. Mesmo que isso custe aos cidadãos de Lisboa, aka cidadãos do Princípe Real e São Bento a discontinuidade do seu lazer. E, bem vistas as coisas, é um negócio de merda. Todavia, numa Câmara cujas finanças se encontram nas lonas, que não tem dinheiro nem para matar um pombo com milho roxo, é, alvitro, o melhor negócio possível.

Fosse lá a praça dos bons amigos no Cacém e ninguém tugia, quanto mais mugir. Mas como é a bela e formosa, mas não segura, praça das queques-flores-do-mijo-dos-agarrados-e-bêbados, é um deus nos acuda que estão galopantemente a privatizar o espaço público.

Diga-se em abono da verdade que na praça das flores propriamente dita, apesar de lugar estival ou de quadrado açoitado por correntes de ar no Inverno, ninguém punha lá os coutos. É mesmo assim. Alguém se sentava na dita a folhear o espesso ainda o pão estalava a sair dos fornos da panificadora da Ajuda? Não. Alguém por lá corria, veloz e destemido, a rasgar joelhos na gravilha das suas áleas? Não. A praça era o retrato do abandono. E estava mal.

Por isso, a razão da polémica, a verdadeira, a cunning of reason, é o café, pois é. Foi a passagem para o café que ficou lixada, atravancada, bloqueada, incontornada, e sei lá que mais. O dono queixou-se? Não possuo dados suficientes, por isso não confirmo nem desminto. Os utentes, esses sim: piquetes de greve à matinal bica e tonitruantes acusações contra a edilidade que nos recupera as praças. E então lá surgiu a insinuante privatização do espaço público. Não é que ele não se encontrasse de há muito privatizado. Quando os preços de uma casinha, de uma modesta casinha, rondam as galáxias de euros, então ficamos a saber que ali só se vive acima de uma determinada fasquia. A praça era pública…pelo menos até ao momento em que Sá Fernandes decidiu entregá-la para os coquetails da Kia e do jet set que costuma chafurdar em tais efemérides. Mas o espaço circundante, meus senhores!, há muito que o deixara de ser! E justamente pelo contributo de aqueles que agora protestam contra a privatização da típica praceta. Viver no Princípe é só para alguns. E a privatização, caso alguém tenha esquecido esta verdade elementar, começa aí.

Quanto ao fecho da praça para as brincadeiras marketizadas da Kia, sinceramente, é para cagar.

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