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Enquanto o diabo esfrega um olho…

Junho 5, 2008

O último filme do mestre Lumet “Before the devil knows you are dead” tem qualquer coisa de parábola católica, mas eu não arriscaria a dizer que esta estivesse nas intenções iniciais quer da argumentista quer do realizador.

O mal é comezinho. Não é metafísico, e é praticado por pessoas normais, ou mais precisamente, aparentemente normais. Pessoas que se vêem em circunstâncias anormais criadas por elas próprias. E aqui, a “a-normalidade” revela em toda a sua potência destrutiva, o que pode ser uma família quando deixada à sua própria loucura e mediocridade.

Roubar a loja dos próprios pais não é das acções mais dignas de admiração. Induzir a matar a própria mãe, também não. E de matança em matança, vamos assistindo ao potencial autodestrutivo de uma simples família americana. Porém, como as famílias são tudo menos simples, a marca da tragédia está sempre vigilante, a rondar, à espera de uma oportunidade para se revelar em todo o seu esplendor.

Hoffman, eventualmente o melhor actor americano da actualidade, empresta o carisma negativo que era expectável numa personagem tão repugnante. E no entanto (e no entanto) não podemos deixar de pensar que ele merecia outra sorte, que as circunstâncias não lhe foram favoráveis, que ninguém gosta de ser apanhado numa espiral de desagregação para a qual não encontra saída. Se Shakespeare pode aqui ser trazido à colação, a parábola que o filme encerra resume-se à expressão hamletiana, this mortal coil [For in that sleep of death what dreams may come/ When we have shuffled off this mortal coil].

Podem os homens criar as suas próprias condições de destruição? Podem. Pode esta emergir de actos falhados, escolhas intencionalmente obtusas, reacções desesperadas que provoquem desequilíbrios de tal forma intensos que levem à morte? Pode.

Lumet parece ser daqueles raros casos de longevidade que quanto mais velho mais apura. O trabalho dos actores ajuda e de que maneira, sem o qual este filme não resistiria. O argumento, a fazer lembrar um plot mametiano (de David Mamet), possui força suficiente para nos arrastar nessa mesma espiral. E as pessoas, fica escrito, não são mais do que a teia de mentiras em que se enredam.

Porque o filme nos leva a acalentar uma sensação de desespero, porque empatizamo com algumas das personagens (como seja o pai (Finney), o irmão (Hawk), a mulher (Tomei)) não conseguimos senão desejar que o desfecho pudesse ser diferente; que no torvelinho dos acontecimentos, houvesse um rasgo de bondade, de acerto, que corrigisse um caminho de sempre turtuoso. Mas não. Há apenas a ira. Porventura, divina. Pai porque me abandonaste?

Pode o divino ser comezinho? Pode. Basta lembrar a parábola de Abraão e seu filho Isaque.

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