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Interpassividade

Junho 3, 2008

  Nas sociedades contemporâneas, existe um aspecto na interrelações afectivas e na erotização do quotidiano que as singulariza em relação ao passado, mesmo ao passado recente: a interpassividade. O termo provém de Zizek e da análise que ele faz da função do Corifeu nas antigas peças gregas. Inspirando-se em Lacan, e nesse mesmo exemplo, a função do Corifeu é substituir o sujeito na sua faculdade de juissance. No caso dos coros gregos, como é sabido, estes riem ou choram, tecem comentários e imitem opiniões, produzem exclamações e interjeições, substituindo assim o espectador e as suas esperadas reacções. Outros exemplos que Zizek dá, são as carpideiras ou o riso off.  Em ambos os casos alguém (ou alguma coisa) é suposto substituir-nos, passando nós a sermos apenas entes passivos na relação com o objecto. Segundo Zizek, é esta a função do Big Other.

Talvez o exemplo mais paradigmático da interpassividade seja os sites de flirts, encontros, procura de relações e outras práticas mais heterodoxas. Aqui o indivíduo delega numa mensagem, geralmente acompanhada de fotografia, o trabalho de seduzir o outro num encontro de proximidade. Não existe nenhuma implicação em termo real com este mesmo trabalho de sedução. Milhares de pessoas visitam-se diariamente conhecendo apenas uns dos outros um conjunto de características ditas estruturantes de uma personalidade; o mínimo para que seja possível distinguir dentre de um lote sortido que oferece variadas opções. A interactividade entre aquele que oferece e aquele que busca – bem à maneira de um mercado de concorrência perfeita – pelo facto de ser algo estático, petrificado no tempo, que não implica uma relação directa com o objecto do desejo, distendido infinitamente no espaço, torna-se, na realidade, interpassividade.

É nas sociedades da Europa do norte, onde as pessoas evitam confrontar-se com o olhar do outro e onde o contacto físico em situações públicas é cuidadosamente calculado, que se verifica um incremento assinalável destes sites e dos seus clientes. A questão a ser colocada é justamente por que razão isso acontece? Ou seja, em que medida as sociedades actuais se estão a tornar – apesar da aparência de possibilidades comunicativas e relacionais cada vez mais intensificadas -, gradualmente em sociedades compostas por redes de interpassividade?

O caso dos sites de procura de parceiros possui ainda um outro elemento curioso: entre a aparência do produto que nos é oferecido e o real desse mesmo produto – a pessoa – existe um hiato não colmatável. E nem é questão de se saber se a pessoa corresponde, com mais ou menos fiabilidade, à fotografia. O que se passa quando um indivíduo seduz através das estratégias do marketing, num meio para isso preparado, é que o produto não pode ter defeitos. Nenhum publicitário pensa em escancarar abertamente os defeitos de um produto. Em publicidade, pode-se brincar, até gozar com o produto, mas nenhum publicitário no seu perfeito juízo diria: “é mentira, este produto não faz isto! Este produto não lava mais branco! Apenas pretendemos que você acredite que lava mais branco!”. O mesmo acontece nos sítios de procura de parceiros. Porém, as pessoas têm defeitos; dir-se-ia mesmo, que os defeitos são consubstanciais à condição de pessoa. O esboço asséptico que é oferecido como convite a uma relação possui paralelos com a mesma inexistência de um laço afectivo caldeado na temporalidade que a compra de um qualquer produto. Quando compramos uma televisão, procuramos algo que cumpra eficazmente a sua função, quer técnica quer estética. Não admira portanto que os atributos descritos nos sítios de procura de parceiros possam facilmente ser divididos nestas duas categorias: atributos técnicos e estéticos. Assim temos que facilmente se pode ser “inteligente”, “engraçado”, “activo”, “conversador”, “corajoso” sem se saber a que correspondem estes atributos abstractos; o que os complementa para além da sua designação? Inteligente em quê? Engraçado com o quê? Conversador sobre o quê? Corajoso para quê? Activo com que finalidade? Estes “quês” ficam irrespondidos. Estes “quês”, numa sociedade consumista como a nossa, convém que não estejam demasiado sujeitos à indagação. Mas são justamente estes “quês” que funcionam como elementos conectores entre duas pessoas. De uma forma menos “tecnicizante”, se quisermos, são estas incógnitas que traduzem as diferenças entre indivíduos. Quando reduzidas à mera categorização, o que temos é um só indivíduo, sempre igual, repetetido indefinidamente, cuja monolitização se inscreve, paradoxalmente, numa miríade de rostos.

Se é verdade que quem vê caras não vê corações, quando estes últimos são padronizados segundo uma única unidade de medida, então as caras passam a ser, em última análise, a única coisa que interessa diferenciar.

Três hipóteses: a) as relações assim estabelecidas evitam o risco do confronto com algo que não é controlável, i.e., um excesso identitário para o qual não estamos preparados e do qual queremos ter a certeza da sua anulação; b) o que procuram estes clientes é uma interpassividade partilhada, sob a qual decorra alguma coisa que tenha a aparência de acontecimento, mas que deixe imaculada a situação que encontraram anteriormente; c) enquanto alvos de excesso de sedução pelos media quotidianos, querem uma anti-sedução, resumindo-se à auto-contemplação e a estratégias onanistas.

Não creio que subjacente a estas práticas se encontre um excesso de libertinagem, ou a dissolução dos costumes num mundo de absoluto hedonismo. Isso implicava ainda uma relação positiva (chamemos-lhe assim) com o objecto do desejo. O facto de se delegar o trabalho, o esforço, a inventividade, da sedução numa página de Internet e num perfil minimalista mostra bem que queremos, paradoxalmente novamente, a todo o custo evitar o contacto, agora nem sequer reduzido à sua expressão mais postural de contacto físico. Nem físico nem intelectual. O que restará então da sedução e como pode esta ser interpretada, mais ainda, representada, dentro dos padrões estabelecidos por este ersatz?

A verdade é muito simples. A sedução foi consumida numa pornotopia voyerista, bem como o seu corolário, a erotização do quotidiano. Se isto soa a palavreado complicado, basta lembrar que a maioria dos clientes estão ligados em webcam. Ver e ser visto é uma espécie de santo-e-senha desta imensa comunidade anónima. Estaríamos redondamente enganados se fossemos pela hipótese do “risk containment”. Nada pode ser mais arriscado para a identidade de cada um do que colocar-se “nu” perante o olhar de milhar de pessoas. Então terá que ser outra coisa qualquer; algo que desloque o erotismo do corpo para o meio – para a webcam, o chat, as descrições supostamente provocadoras. Uma gigantesca comunidade que não retira prazer senão do facto de se saber olhada. Os quinze minutos de fama não são mais do que quinze minutos de mama.

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