A vitória esperada

Cape Town

 

O que é que constitui a especificidade do apartheid? A abertura de um estado de excepção para um grupo perfeitamente identificado da população. No caso concreto, um grupo que é identificado pelo fenótipo. Mas para além disso, uma inclusão desse grupo nas estruturas produtivas da sociedade, só que num patamar de permanente inferioridade. O apartheid não é, portanto, confundível com um racismo diferencialista ou exclusivista onde as diferenças se pretendem estanques e esses mesmos grupos portadores do sinal da diferença forçosamente incompatíveis – la France aux français! Um tal slogan dificilmente seria admissível no país que mais levou a sério o apartheid, a África do Sul. O apartheid nunca propôs uma África do Sul para os afrikaners; mas programou e praticou uma África do Sul em que os brancos se encontravam numa situação de privilégio e os negros numa situação de despossessão óbvia. Neste contexto, o que se procurava, e o que foi obtido com maior ou menor sucesso, era uma justificação para a estabilização da exploração. Esta justificação encontra-se no cerne da ideologia do apartheid e resume-se na capacidade de manter um sistema de exploração dentro de um contexto institucional democrático. Como justificar as diferenças de privilégios no interior de contextos institucionais cujo fundamento é o funcionamento democrático? A resposta está na ficção da inferioridade e do seu complemento a institucionalização da não-equitatividade. Se a democracia tem por pretensão criar as condições de igualdade processual, i.e., igualdade perante o voto, o que equivale a dizer a extensão da capacidade de escolha de um governo a todos aqueles que forem abrangidos pela sua constituição então o apartheid tinha que ser justificado através da noção (fictícia) de que um grupo de pessoas se encontrava “naturalmente” em condição de desigualdade perante essa mesma constituição. Só assim se integrava nas instâncias formalmente democráticas a prática extensiva da exploração, mas desta feita, legal. É de notar que o apartheid sul-africano traz uma modificação fundamental em relação aos tradicionais sistemas coloniais. Na medida em que a metrópole se encontrava na cúpula do império e a relação política entre esta e a colónia se fazia pela extensão do poder territorial, a soberania encontrava-se sempre para além da geografia propriamente colonial. A metrópole era o centro donde o poder irradiava e ao qual as estruturas coloniais de implementação da supressão de liberdades e de controlo estabelecido a mais das vezes por uma distinta fronteira racial, reportavam (ver Arendt). Neste sentido, a geografia do poder pode manter uma relação aproblemática com a aparente disfuncionalidade derivada da existência de, por um lado estruturas institucionalizadas de distribuição de poder (metrópole) por outro, estruturas institucionalizadas de supressão da liberdade (colónia). Quando, como foi o caso da África do Sul, esta relação é internalizada no mesmo espaço geográfico as brechas a que ela resistia em virtude da distância geográfica destes dois sistemas tão antinómicos deixa de ser sustentável. Daí que o apartheid sul-africano teve que ceder internamente, por efeito das próprias estruturas democráticas e pela incapacidade de fazer perdurar uma relação perfeitamente disfuncional. Não existiu nenhuma revolução nem tão-pouco uma guerrilha que se prolongasse no tempo com o seu sistema de alianças internacionais e os seus desígnios independentistas como aconteceu em tantas das antigas colónias. Como protesto civil, as próprias forças que impulsionavam este protesto acabaram por ser assimiladas a um sistema pré-existente, embora, em consequência da discrepância representacional entre minoria branca e maioria negra, esta mudança trouxesse consigo uma mutação expressiva, mas só aparentemente fundamental. Com efeito, se a democracia em vigor incorpora, como não podia deixar de ser, uma maioria outrora deixada de fora do processo de decisão democrático, não é menos verdade que pouca coisa mudou em termos de estruturas de desigualdade. A população negra continua a ocupar os patamares mais baixos da estratificação social e a ter acesso a menos estruturas de oportunidade do que a população branca.

Free Mandela…again

Ainda sou do tempo em que um pacote de arroz custava…Não era isto que eu queria dizer. Recomeçar. Ainda sou do tempo em que os Estados Unidos da América apoiavam, sem reservas, e contra a maioria da chamada comunidade internacional, o apartheid sul-africano. Lembro-me do tempo em que se cantava “Gime hope Joanna…” e “I don´t wanna be in Sun City”, sem que isso fizesse vacilar o então apoio norte-americano e inglês ao apartheid na sua missão de impedir o ANC de chegar ao poder.

 

Botha, instigado pelo agora estimadíssimo Huntington, impôs um Estado de segurança máxima para que o apartheid resistisse ao seu último extertor, um prolongamento infame de uma sociedade de privilégios instituídos apoiada pelos Estados Unidos por causa das suas ligações económicas.

 

Por isso, ver a CNN a dar emissões contínuas a chamar a Mandela um homem “extraordinário” sem mencionar tão-pouco o facto de o ANC ter sido considerado um movimento terrorista arrolado à lista negra do departamento de estado norte-americano, é caso para se ficar perplexo. E que dizer da festa celebrada em Londres, cujo governo apoiou o apartheid até que De Klerk, confrontado com a impossibilidade de manutenção de uma situação de exclusão absoluta, encetou a sua reforma? A CNN, com a sua isenção habitual, deixa passar em claro que apenas agora (2008 portanto) Mandela e o ANC foram resgatados da lista de terroristas internacionais. E é com muito fire crakers e manifestações jubilosas dos jornalistas que esta verdade crucial é abafada.

 

Os olhos de Mandela a sobrevoarem a multidão que se juntou para comemorar os seus noventa anos parecem dizer: mas quem é esta gente que nada tem a ver com a minha luta? Pássaros de arribação, como a boazuda da Geri das Spice Girls surgem a afirmar solidariedade com Mandela, embora não saibam bem porquê. Será por causa da luta anticapitalista movida pelo socialismo do ANC? Será porque foi considerado um movimento terrorista com ramificações sindicais? Será porque contém o pequeno Partido Comunista sul-africano? Ou por tudo isto? Will Smith, o evangélico, crente ferveroso, também lá está com os olhos a brilharem de emoção por se encontrar a cantar na festa do homem que simboliza o fim do apartheid.

 

I had a dream, a famosa frase de Luther King. Depois limparam-no. Podiam ter feito o mesmo a Mandela, mas isso era mais complicado, seria criar um mártir. Por isso sempre foi melhor encerrá-lo vinte sete anos em Robben Island. A CNN não dá destaque a estas trivialidades. Prefere salientar coisas imorredoiras como “foi Mandela bom pai para os seus filhos?” e “era muito mulherengo?” e “encolerizava-se facilmente?”. Interessantes platitudes que transmudam Mandela numa equivalência masculina da Princesa Diana.

 

Mandela avisa, com a voz sumida, que o trabalho ainda está por acabar. Enquanto houver fome, miséria, doença, excesso de riqueza, há um trabalho para fazer. Não creio que sejam Geri e Will Smith que irão encabeçar esse trabalho, embora se encontrassem visivelmente excitados ladeando o ídolo da sua juventude. Nem tão-pouco a alcoólica Amy Winnouse, que quando Mandela fazia a sua luta, andava ainda de fraldas. Por isso, a voz de Mandela debitava um texto sem convicção, sabendo que aquela não era a multidão que devia ouvi-lo.

 

I have a dream. Depois foi morto. O que entretanto foi esquecido é que o sonho era um sonho socialista, e não apenas o da igualdade racial. Também era; mas foi sobretudo um sonho de igualdade, tout court. Como o de Mandela. Sonho que não nos é mais contado. Sonho que a CNN prefere substituir pela vida “real” de um homem “extraordinário”. Sinais do tempo. Tempo sem sinais.  

O feminismo não tem sexo

O congresso feminista reuniu 600 pessoas. Em torno do quê, é mais complicado de dizer. A introdução que nos é oferecida na página web que anuncia o congresso, não é sobremaneira esclarecedora. Assim como a definição que nos é dada por Maria José Magalhães, não prima pela claridade, a saber:

 

“O feminismo é um conjunto de ideias, movimentos sociais e perspectivas de estudos que têm em comum uma denúncia da situação de desvantagem, discriminação, subordinação, opressão e exploração das mulheres face a um sistema social que é dominado pelo masculino, enquanto grupo social.”

 

Por conseguinte, o feminismo é um movimento reactivo. Está contra e denuncia. Lendo a breve história do feminismo em Portugal que nos é apresentada na mesma página, fica-se com a sensação que nunca os intentos e orientações foram tão obscuros, ou deslaçados, ou indefinidos, como actualmente. Lutar pelo direito à educação e ao voto, são reivindicações compreensíveis, tangíveis nos seus resultados. Isto foi o início, segundo se lê.

Mais tarde, a condição da mulher, o reequacionar desta mesma condição, a interrogação sobre o feminino, pela mão de Beauvoir, e o seu segundo sexo, Luce Irigaray, isto em França. Outras, muitas, calcorrearam as mesmas avenidas. E alargaram horizontes, de tal forma que a ideologia patriarcal saiu fortemente afectada, para sempre, para nunca mais se recompor. Levou subsequentes machadadas pela mão de senhoras como Sontag, Buttler e o supremo sacerdote da nova religião, na sua versão radicalmente desconstruída, pós-estruturalista, irredentista, a fabulosa Dona Harraway. O feminismo sofreu uma translação de 180 graus (apetece dizer) e deixou de ser uma luta pela expansão da cidadania (ou esse deixou de ser o seu aspecto fundamental) para ser uma interrogação do discurso da masculinidade e da forma como este operou como um verdadeiro palimpsesto dos discursos no “feminino”.

(Aqui convém uma pequena nota, um comentário parentético: não é raro supreender, se bem que não necessariamente do forma totalmente exposta, esta diferenciação entre os plurais e o singular. De forma que, o feminismo se declina em diversas vozes “contra” um masculino em uníssono. Estranho antagonismo para quem professa deconstruções e outros palavrões. Mas enfim, o velho Carl Schmidt, que pouco tinha de feminista, aposto, esboçou a estratégia básica para as confrontações: elege um inimigo unitário e confronta-o para que ganhes tu próprio em unidade. Ou seja, a acção política tem que passar antes de mais pelo confronto com o “outro”, e assim recuperas, ou inventas, a tua identidade.

Contudo, actualmente apetece perguntar como fez Freud há uma porrada de anos atrás Was will das Weib?)

Na definição lê-se que o feminismo deve “denunciar a (…) discriminação, subordinação e opressão e exploração das mulheres”. Todavia, não parece ser isso que dizem os indicadores. Claro que quando se trata de indicadores corremos sempre o risco de sermos selectivos. Mas sirvo-me de Esping-Andersen, reconhecida autoridade nestas matérias (o artigo chama-se Inequality of income and Opportunities), e o que se verifica é que, contrariamente à desigualdade em geral, cujo incremento é notório, tudo indica que o hiato entre homens e mulheres no mundo industrializado tem vindo a ser colmatado em todas as áreas (empregos, remunerações, tempo de trabalho, paridade no orçamento familiar, etc, etc).

Ou seja, as diferenças entre os homens e as mulheres têm tendido a esbaterem-se, não apenas gradualmente, mas de forma acelerada. É esta situação semelhante em todo o mundo conhecido? Não, com certeza que não. Mas até no mundo árabe, o Irão, esse monstro do fanatismo e berço de todos os males da humanidade, as mulheres ultrapassam muito significativamente os homens no respeitante à obtenção de um curso superior. Para Portugal a situação é exactamente a mesma. As mulheres não só são a maioria nas universidades como são aquelas que mais altas habilitações possuem. Hélas, e aqui é que está o busílis, as posições no mercado de trabalho não correspondem às habilitações.

Teríamos assim que o feminismo actual se resume a um desejo de paridade. Na realidade, esgota-se nesse desejo, como parece indicar a estrutura do programa do congresso que dedica quatro páineis a esse candente problema que é “onde estão os lugares de poder?” Note-se que o femininismo de Simone Beauvoir, pela sua inclinação esquerdista, abjurava os lugares de poder. O poder era masculino e essa segunda natureza impressa culturalmente no corpo, chamada mulher, encontrava-se forçosamente presa, agrilhoada, ao mecanismo de sujeição imposto por um mundo dominado pelo masculino.

Por conseguinte, é interessante ver como este feminismo abraça a causa do poder com tanta ambição que parece que estamos em presença de uma marcha de CEOS de saias  freneticamente disposta a desalojar os homens dos seus lugares cativos no topo da hierarquia (pura especulação que não encontra, actualmente, nenhuma credibilidade empírica).

Talvez porque o feminismo tenha perdido o seu ímpeto de movimento – não luta por nada de concreto que pudesse ser adicionado a uma lista de grievances – e se tenha refastelado quer na difusa injunção de um discurso do e no feminino quer no ainda mais paralisante (no sentido de não emancipatório) grito do Ipiranga de “Mulheres ao poder”, que se possam encontrar lado a lado a Isabel do Carmo e a Leonor Beleza a dizerem umas baboseiras sobre aquilo que toda a mulher partilha e como são vítimas de uma sociedade comandada pelo homem (o masculino).

Nada é mais aterrador do que esta consciência da transversalidade (ao homem uni-dimensional opõe-se agora a mulher transversal), de uma partilha subterrânea de uma condição que abole diferenças ideológicas, políticas, económicas, sexuais, práticas, etc. Temos assim que essa entidade flutuante denominada mulher (um floating signifier) se opõe, ou recria, de um outro lado de uma barreira imaginária, uma outra entidade flutuante designada homem. Mas ainda do lado do feminino, esta erosão provocada pelo simples invocar do sacrosanto nome “mulher”, qual toque de midas que transforma tudo o que toca, permite que católicas andem de braço dado com lésbicas e pró-aborcionistas, neoliberais empedernidas se sentem na mesma mesa de anti-globalizadoras destemidas, num ecumenismo saloio que esconde simplesmente o essencial: não há mulher nenhuma para além da mulher hifenizada – a mulher-assalariada, a mulher-empresária, a mulher-empregada-de-mesa, a mulher-…

Assim como não há homem para além daquilo que lhe é exigido, ou seja, um homem igualmente hifenizado.

O facto espantoso de a antiga presidente para a Igualdade e direitos da Mulher ser simultaneamente a líder do movimento Nós somos Igreja deve não apenas nos deixar perplexos como abalar profundamente os nossos fundamentos ônticos.

 

que “vivemos numa sociedade em que há desequilíbrios profundos, entre ricos e pobres e também de géneros”, uma mudança que tem que se basear no princípio de que “os homens e as mulheres estão interligados e agem em sociedade”, diz Ana Vicente, 65 anos, dirigente do movimento católico Nós Somos Igreja e antiga presidente da Comissão para a Igualdade e Direitos da Mulher.

 

 Não é a posição da mulher na visão da Igreja Católica qualquer coisa entre um úbere reprodutor e a nossa senhora de fátima? Entre a humildade sarnenta da Madre Teresa de Calcutá e a mãe poderosa encarnada na dona Isabel Herédia, nossa rainha com-sorte?

Não admira portanto que num congresso onde desfilam mais de cinquenta painéis, apenas dois sejam dedicados à questão, pelos vistos totalmente residual no presente programa das feministas portuguesas, da sexualidade.

E não vale a pena disfarçar o viés com uns pós de lesbianismo para inglês ver, mostrando que até se dá palco a orientações sexuais alternativas. Salta à vista que a concessão é o fetiche de um feminismo monolítico.

Daqui a uns anos, à pergunta o que é o feminismo, responderemos: é aquela coisa sem sexo. 

 

Uma entrevista assustadora de McCain que mostra que há gajos que ou são malucos ou mesmo maus

 

The assassination of Benazir Bhutto in December was an “unfortunate event,” says Black. “But his knowledge and ability to talk about it reemphasized that this is the guy who’s ready to be Commander-in-Chief. And it helped us.” As would, Black concedes with startling candor after we raise the issue, another terrorist attack on U.S. soil. “Certainly it would be a big advantage to him,” says Black.

 

Charlie Black, John McCain’s chief strategist

E o Japão aqui tão perto (a propósito de Murakami e dos seus monstros)

A ideia do Happening de Shyamalan nem sequer é original. É um plágio do Suicidal Circle que é bem mais gore e bem mais arriscado (no sentido da transgressão) do que o pobre Happening. E sem dúvida o Happening é sintomático de um Hollywood após holocausto do 11 de Setembro. Salientar que o grupo alvo (target group) actual da produção de Hollywood são os adolescentes de 14 anos da Baía de São Diego. Ou seja, são as características deste grupo em particular que o cinema actual de Hollywood procura cativar. Não admira que hoje em dia se saia frequentemente do cinema com a sensação de se ter sido brindado com um banho de estupidez. O adolescente de São Diego é estúpido, logo os filmes que o têm como alvo só podem ser estúpidos. A middle mind segundo a designação de Curtis White.

 

 

 

Infatilização­=Disneyficação (Disneyfication, segundo a expressão de Hedbige), e aqui inserem-se as figuras cutties e minimais de Murakami. E o Japão aqui tão perto. Reza a análise destas coisas que a arte contemporânea Japonesa é um exorcismo dos dois momentos de corte com o passado tradicional japonês. Corte traumático inscrito quer na devastação das duas bombas atómicas quer na ocupação americana e no seu processo acelerado de americanização, aliás, infantilização.

 

Quando McCarthur chegou ao Japão para o governar, substituindo desta forma Hiroito, o velho imperador, referiu-se ao país do sol nascente como o “little Boy” (“compare to our civilization, Japan is like a 12 years old boy”)  que era preciso ajudar a crescer. O projecto imperialista americano e a sua arrogância, indeed prepotência, dava os seus primeiros passos…efectivos. Murakami repega no tema “little boy” e converte-o em arte. Espécie de vingança estética de um Japão que aceita o seu estado de infantilização erigindo-o enquanto supremo símbolo, gadget, orientação estética, da sua cultura.

 

 

Depois a bomba. Os seres deformados de Akira, os cogumelos e as catástrofes ambientais, são japonesas. Hipótese: o sentimento catastrofista que se vive actualmente nada tem a ver com a iminência de um desastre ecológico de dimensões incontroláveis (The day after tomorrow, Armagedon) e muito menos com o medo dos ataques terroristas, mas deve-se antes à cultura pop Japonesa e as suas alusões sistemáticas, conquanto veladas, a Hirochima e Nagazaki. Teria sido aí que a mitologia da Catástrofe se insinuou na cultura consumista. Veja-se a sub-cultura manga-anime.

 

 

 

 

 

Manga-anime como reciclagem da infantilização disney, aliás superidentificação, inscrita no fenómeno cuttie ou nos gigantescos avatares de Mickey Mouse nas esculturas e pinturas de Murakami.

 

A resposta japonesa é, desta forma, a conjunção entre a catástrofe da bomba, a disneyficação forçada e a sua excrescência: a perversão. Quanto a esta última, o fenómeno manga e a representação das mulheres como insaciáveis máquinas de prazer que, não obstante, parecem encerradas num corpo infantil de proporções paradoxais (caras infantis com grandes seios, roupas infantis com práticas sado-maso) que nunca muda, envelhece ou adquire maturidade, que apenas existe pela sua performatividade – reflexo da sociedade japonesa, do fenómeno gueixa reciclado para a cultura pop e para estética consumista, fenómeno propriamente performativo, no qual a idade é substituída pela ritualização dos actos. Também aqui as infantis, mas com atributos de mulheres, personagens da manga e da anime respondem a um imaginário falocêntrico. O sado-cute segundo a expressão de Hebdige, carregado de referências porno, misto de inocência com perversão, cujo paroxismo se encontra na dupla Lonesome comboy e Hiropon. Dupla que, sob a aparência de excessiva potência sexual (o jacto de esperma ou o repuxo de leite) é na realidade uma potência que se esgota na mais imediata fantasia onanista, como se o crime de onan ficasse para sempre imortalizado nas máscaras infantis desta dupla que nunca se olha de frente, cujo referente é abolido, mera potência estática que nunca se consuma no acto. Contraste com o kitch de Jeff Koons, por exemplo, que embora recorrendo a semelhantes invocações hiper-sexualizadas são estas representadas em acto, em consumação. Estamos ainda num universo de erotização adulta.

 

 

 As figuras manga ou as criações de Murakami não devem ser confundidas com um impulso para a estetização pedófila; como tendências perversas de pedófilos à solta cuja fantasia encontrasse escape na projecção das pequenas entais e das voluptuosas manga girls. Deve ser antes perspectivado como o sintoma de uma sociedade envelhecida, com a taxa de natalidade mais baixa do mundo industrializado, uma sociedade que procura escapar ao seu destino através da reivenção permanente de adereços, a indução do novo através de mecanismos consumistas de produção da “novidade”. Donde a juvenilização da sua cultura, do pop à estética e ao design. Mas esta juvenilização não se encontra  autocontida, espécie de fenómeno que não franqueia a cultura japonesa. Bem pelo contrário, tem servido de eixo de referência para a diversificação consumista. Exemplo: a marca Hello Kittie, criada por Murakami ou o padrão Luis Vuitton, desenhado pelo mesmo artista.

 

 

Os exemplos podem ser repetidos indefinidamente, basta que façamos um esforço de memória para que depressa indentifiquemos casos de infantilização na nossa cultura consumista. Não são a maioria das canções pop comerciais sintomas de uma infantilização crescente, com os seus refrões simplificados a um mínimo de sentido, despojados de uma dimensão metafórica, exigindo uma adesão expontânea que não passe pela interpretação? Lembra obviamente a repetição exaustiva, e inconsequente, das cantilenas infantis que uma criança repete por vezes incessantemente.

 

 

O paradigma da repetição minimalista é o karaoke. Aí o esforço de imaginação é reduzido a zero. Contrariamente aos velhos rituais comunitários onde as canções populares se forjavam na proximidade e na partilha de experiências,

no caso do Karaoke é atingida através de mimetismo. Não apenas mimetismo de acções, que consolidariam o laço social, no sentido que Tarde, e de certa forma Durkheim, atribuem à imitação ritualizada, mas antes mimetismo em relação a um produto. Colagem a uma marca, reinvestimento identitário em algo que foi consolidado através de um mecanismo de mercado, vendido e marketizado. A sobreposição entre a fruição individual e a imagem de um produto gera um hedonismo específico das sociedades industrializadas actuais: a japonização (por oposição à brazilianização).

 

Zizek não conhece o Japão…

Zizek e o Palácio de Inverno – ou como o barão de Munchausen se tornou um revolucionário

Um governo, ou melhor uma representação, mas desde que seja da “part of no part” (no sentido de Ranciére). Quem são estes actualmente? O conceito de proletariado deixou de ser operativo, mas o seu equivalente funcional – chamemos-lhe assim – é a população excluída dos slums; aqueles que se encontram fora da alçada da lei, que embora não tendo sido evacuados do sistema económico, dado que participam do mercado dual, não têm nada a perder.

Zizek parece abraçar aqui um certo imaginário western que vê no fora da lei o elemento disruptor que vem do exterior para impor uma nova ordem. Normalmente esta figura possui igualmente uma dimensão messiânica, de justiceiro solitário que, inadvertidamente, purifica a velha ordem danificada por um xerife corrupto e ganha os favores da população, nomeadamente da rapariga casadoira, da beleza da vilória.

Para Zizek, os excluídos, no sentido aqui definido – o pessoal das barracas, mais prosaicamente – serão o próximo sujeito revolucionário; é aqui que existe um potencial evenementiel emancipatório, o site evenementiel dos tempos vindouros.

Agora Zizek lembra, e bem, que no espaço diametralmente oposto, desta tipologia de posições, se encontra a classe simbólica. E aqui dá-se o leap of faith que não encontra nenhum argumento sólido. O problema destas massas dos slums é que são…massas. Por isso mesmo necessitam de um eixo disciplinador, uma intervenção (talvez divina) que as leve à organização. Não é o patrtido nem a vanguarda, ambos resquícios das deturpações socialistas do verdadeiro potencial democrático, a saber, a igualdade radical, ou, na expressão de Balibar, a egaliberté. O desejo é que um sector progressivo da classe simbólica possa estar à altura da tarefa. Mas porque razão haveria a classe simbólica de aceitar tão atípica aliança? Não está a classe simbólica bem de vida, e mesmo o seu sector progressivo gosta de perorar o estado das coisas mas à distância.

 

Agir do interior do Estado, tomando o poder, ou inventar novas formas de poder, subtraindo-se ao Estado. A contenda é fundamentalmente com Crowley e Badiou. Para o primeiro, a estratégia é retirarmo-nos do âmbito do estado e bombardeá-lo com “infinite demands” de tal forma que o seu colapso – ou a revelação da sua mentira enquanto estado democrático – seja iminente. Para o segundo, na medida em que quer o partido quer as organizações burocráticas, estatais, se revelaram totalitárias, é preciso reinventar espaços fora do estado, subtraindo-nos às suas leis, lógicas e regras, ou seja, à sua situação, em termos badounianos, e pela negação em nele participar abrir uma fissura que lhe seja letal – metáfora do ensaio sobre a lucidez de Saramago.

 

Zizek acha que o estado e assim como o poder que ele representa deve ser tomado…desde que seja pela “part of no part”. Numa democracia, a parte dos supranumerários é aquela que não se encontra inserida nas estruturas sociais. No exemplo grego, o demos é o que não pertence à oligarquia aristocrática. Mas ao ter voz, representa forçosamente o universal. Porque diz: eu sou o povo e não pertenço a nenhum lugar específico do corpo social. Razão puramente formal que atribui a “part de nulle part” o lugar da universiladidade igualitária. Daí a recuperação da ditadura do proletariado, só que como este é uma noção atávica que deixou de ser operativa, é portanto substituída pela mais abstracta, e fluida, noção de excluídos.

 

Por conseguinte, é consoante o eixo inclusão-exclusão que Zizek acha que se pode pensar uma política emancipatória. Recuperação, tardia, de uma fórmula sobejamente usada por sociólogos e outros cientistas sociais. O problema é que não existe, como Zizek parece pressupor, um antagonismo excluídos-incluídos que replicasse o antagonismo marxista de classe. Zizek reconhece que a noção de classe, e sobretudo de proletariado, assim como Marx a tinha elaborado, não é mais aplicável às sociedades actuais. Embora refira que o antagonismo de classes se encontra difundido por todo o corpo social (noção que Zizek frequentemente usa sem especificar exactamente o seu significado: que devemos entender por corpo social?). Todavia insiste, aparentemente, na verificação de um antagonismo entre duas realidades autocontidas, perfeitamente identificáveis e separáveis, à maneira de proletários contra burgueses. Ora, o que me parece específico das sociedades actuais são as múltiplas exclusões assim como as múltiplas inclusões. Ninguém é totalmente excluído, assim como ninguém se encontra totalmente incluído. Na vida dos indivíduos e dos grupos, as suas situações encontrar-se-ão, porventura, mais alinhadas com um dos pontos deste continuum analítico que é o eixo exclusão-inclusão. Nem este posicionamente é permanente, podendo variar ao longo de um outro eixo, que será o temporal.

 

Então, o que pode realizar o universal? Qual é o factor que todos nós partilhamos e sobre o qual devemos realizar as condições de igualdade que a verdadeira democracia exige? O ambiente. É a presença da catástrofe ambiental a impender sobre as nossas cabeças que nos deve unir. Mas esta união não é automática, não se encontra na natureza das coisas, como a tendência gregária dos seres humanos ou o instinto de sobrevivência. Ela só resiste, perdura, e impõe-se através do terror (cont.).