Skip to content

A fragilidade dos argumentos

Maio 29, 2008

 

César da Neves tornou-se uma espécie de jogral da intelectualidade em Portugal. Faltando as contribuições generosamente iluminadas de Pedro Arroja, reduzido agora a perorar num blog chato e fundamentalista, temos César das Neves em versão estentória a berrar contra o ateísmo nas páginas de um dos jornais diários mais lidos do país.

Nestas coisas de religião é sempre tramado quando enveradamos por argumentos logicamente sustentados que não se couracem contra a refutação à força de dogmatismos e proibições.

Temos assim que César das Neves começa por classificar de inconsistente a atitude ateísta, inconsistência essa decorrente da sua fragilidade intelectual. Por conseguinte, César das Neves anuncia o propósito de trilhar os caminhos da justificação e da falibilidade para provar a existência de deus e a sua necessidade.

Os argumentos, nos quais César das Neves depõe uma fé cega, foram rebatidos, logicamente, há bastantes anos por Russel. Trago Russel à colação para que a acusação segundo a qual o ateísmo é um produto difundido pelo marxismo não tenha qualquer cabimento. A menos que Russel fosse um agente duplo. Mas para além disso, Russel, num pequeno ensaio que serviu de tema a uma palestra, denominado “Porque não sou cristão” rebate os três argumentos que César das Neves apresenta como sendo de força maior. A verdade é que não são. Tanto mais quanto as contradições que encerram são supreendentemente fáceis de detectar como provou Russel em 1927.

O primeiro axioma – porque CN os refere como axiomáticos – prende-se com a questão das origens. Quem criou este universo? Qual é a causa de tudo? Como refere Russel, trata-se do problema da causa primeira. Para os católicos tem que haver uma causa primeira, e essa causa é Deus. Mas qual é a causa de deus? Não tem. Deus é o ser primordial. Porém, se podemos imaginar um ente sem causa, que seria Deus, o que nos impede de imaginar que há coisas que não têm causa? Ou deus tem causa, e por conseguinte, não é causa primeira, e outra coisa o será; ou deus não tem causa, e isso permite a proposição de que há coisas sem causa, logo o universo pode ser uma delas.

O segundo axioma católico é o do plano. Vejam bem como é que algo tão harmonioso poderia ter surgido sem um ser supremamente inteligente o ter planeado? Como é que as coisas se ajustam umas às outras, sem concebermos uma mente superior para as organizar? A primeira reacção de um ateu deve ser afirmar, não!, as coisas não se ajustam umas às outras. E, indo mais longe, pôr em causa a premissa da harmonia. Porque é esta que é aceite pelos católicos sem demais interrogações. Mas qual harmonia? Onde vê um católico harmonia? Nas leis naturais? Nos padrões climáticos? Eu, espantosamente, quiçá?, só vejo desarmonia. Considero as coisas que me rodeiam, tudo menos ajustadas, calibradas, articuladas (um pouco como o programa de Manuela Ferreira Leite segundo VGM, mas ao contrário). Deparo-me muito mais com desequilíbrios, incertezas, imprevisibilidade. Onde foram os católicos buscar esta percepção de harmonia? Só pode ser puramente ideológica, ou melhor, teológica.

A ideia do plano, porém, possui também uma refutação lógica. Novamente Russel: se Deus planeou, porque fez assim o universo e não de outra forma qualquer? Se se disser que fez assim por seu próprio capricho, então não existe qualquer plano e deus deixa de ser o supremo arquitecto. Se se disser que o fez assim porque há razões para que assim seja – a maior harmonia possível ou a bondade do criador, por exemplo – então deus opera segundo essas outras razões que são exteriores ao plano e está submetido a leis que lhe não são consubstanciais. Se assim for, deixará de ser causa primeira.

Terceiro axioma apresentado por CN, prende-se com a diferença entre o bem e o mal e o sentido de justiça. Diz CN que todos os humanos, todas as culturas, sentem esta “ânsia” de dissociação entre o bem e o mal. Trata-se do argumento moral para a existência de Deus. A refutação de Russel é, novamente, lapidar. A existência do bem e do mal decorre da vontade de Deus; ou seja, sem a existência de Deus, o bem e o mal não existiriam. Russel sublinha que para refutar esta proposição, é indiferente saber se existe realmente uma diferença entre o bem e o mal; importa sim saber se se acredita que essa diferença resulta de uma vontade divina. Se resulta de um mandato divino, então para deus deixa de haver diferença entre o bem e o mal e torna-se incongruente dizer que deus é um deus de bondade. Se, como afirmam os teólogos e aprendizes de teologia, deus é bom, então teremos que concluir que a diferença entre o bem e o mal são independentes da vontade divina, porque a vontade divina é boa, e não má, independentemente do facto de ser a Sua vontade. O que nos leva à conclusão de que o bem e mal são logicamente anteriores a deus.

O último axioma de CN entronca com aquilo que se designa pelo problema da finitude. Segundo CN a perspectiva da finitude a que um ateu está sujeito só pode lançá-lo no desespero. Atrás, no que começa a ser um expediente cada vez mais usado pelos teólogos actuais, CN referiu o bing bang como a hipótese científica que prova que algo pode vir do nada: “Porque existe ordem, não caos? A resposta ateia era recusar a questão, porque o universo sempre existira assim, mas a teoria do Big Bang explodiu essa certeza e deu solidez científica ao facto da Criação.” Se aceitarmos o Bing Bang como explicação do princípio teremos que aceitar que ele coloca como real a hipótese da finitude. Pois o que diz o Bing Bang é que todas as coisas caminham inexoravelmente para a morte. Aceitar o Bing Bang como explicação para um princípio (reciclado pela teologia que adapta a seu bel-prazer a teoria) é ter que aceitá-lo como explicação para um fim. Se há coisa que a teoria do Bing Bang induz é à confrontação com a morte – a morte de sistemas solares, de estrelas, de planetas, de vida. Morte sem qualquer objectivo, assim como a vida que antes a precedeu, também não o possuía. Morte e vidas cíclicas, sem plano nem direcção global.

“Bons e maus têm o mesmo destino vazio”, diz CN – sim, é exactamente isso. Como não há qualquer razão que sustente que o universo seja essencialmente justo, não há qualquer razão para acreditar que os destinos seriam distribuídos consoante o grau de bondade ou de iniquidade. Basta, para tanto, olharmos à nossa volta.

 

 

 

 

Anúncios
One Comment leave one →
  1. Nuno Castro Velho permalink
    Junho 14, 2008 11:05 am

    Blá blá bláa…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: