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Bater no ceguinho

Maio 28, 2008

Há um erro de apreciação no artigo de Mário Soares publicado ontem no DN. Soares insurge-se contra as excessivas desigualdades em Portugal reveladas recentemente pelo Eurostat e que tantos comentários, mormente de natureza política, têm merecido. E tem todo a razão em o fazer – é, efectivamente caso para nos insurgirmos. Se a insurgência se torna neste caso uma obrigação moral, será igualmente razão para apresentarmos argumentos morais que revelem de um definido sentido de injustiça. Claro que uma certa esquerda convive mal com razões morais, a que apelida criticamente de moralismo, presupondo-se assim que se insurge por razões que nada têm a ver com esta; eventualmente, alvitro, porque é chique insurgir-se.

Para além da apreciação catastrófica que Soares faz da situação actual nacional, aduz causas que segundo ele seriam externas. Ora as causas externas, como o preço atípico do barril de petróleo, o desregulamento dos mercados financeiros, a crise das subprimes ou as falências dos grandes bancos internacionais, que Soares enlenca, são com certeza bons factores para explicar o incremento das desigualdades e a pobreza extremada em que certas zonas do globo se encontram. Contudo, não explicam a peculiariedade do caso português e porque razão é este o país que mais desigualdades apresenta na Europa dos 25.

 

As condições que Soares identifica como estando na génese desta situação, afectam por igual todos os outros países. Se a explicação colhe, por comparação, em relação aos países da Escandinávia, onde os sistemas de segurança social se mantêm robustos e funcionais, dificilmente se percebe porque aparece Portugal atrás dos novos dez países de Leste. Aí, não apenas o sistema de apoio público tem vindo a ser desmantelado selvaticamente (com privatizações especulativas que geraram fortunas astronómicas de um dia para o outro) como a situação herdada do comunismo era de crise profunda em termos quer de produtividade quer de investimento.

 

Uma das razões que pode ser avançada é que justamente os países de Leste ainda não se encontram numa situação de descaracterização total dos seus sistemas de apoio público e que a herança socialista ainda perdura em certos sectores. Mas para contrabalançar, saliente-se que estes países só muito recentemente começaram a receber fundos estruturais que lhes permitissem equilibrar as suas deficitárias balanças de pagamento e incrementar o investimento. Dir-se-ia portanto que apesar de tudo Portugal, que recebe fundos estruturais há mais de vinte anos, teria que, necessariamente (senão obrigatoriamente), estar à frente em indicadores como a pobreza ou o nível de desigualdades dos dez novos membros. Assim não se verifica. Porém, o que mais incomoda e, seguramente, distorce a discussão, é que esta desigualdade é persistente; ou seja, não foi criada pelo governo Sócrates (mas que também, diga-se em abono da verdade, nada fez para a mitigar) como quer Soares quer sectores de direita sugerem. Sem termos isso em conta, estamos condenados a passar ao lado das verdadeiras causas da desigualdade em Portugal.  

 

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