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As selvas

Maio 26, 2008

 

 

A primeira selva foi a de “As Minas de Salomão” em tradução de Eça de Queirós que eu só percebi que não era o autor passado algum tempo. Tinha eu então dez anos. Sentava-me no quintal da minha avó – um rectângulo esconso emparedado entre prédios – e lia pela tarde fora as minas do famoso rei Salomão descritas em estilo queirosiano de tal forma Eça se apropriou do livro homónimo de Haggard. Como poderia eu saber que Alão Quartelmar era na realidade Allan Quatermain? A voz de Eça, na realidade, a sua presença obsessiva, encontra-se em cada página, descrição, diálogo de “As minas de Salomão”. Dir-se-ia que, não tendo Eça escrito nenhum romance cujo fulcro fosse o colonialismo português, se tivesse imbricado de tal forma a sua linguagem na tradução do livro de Haggard, que o Quatermain, não é mais do que uma projecção do próprio Eça na figura do seu Alão Quartelmar na sua gesta colonizadora. Veja-se a sonoridade e polissemia de Quartelmar, junção entre a empresa guerreira do colonialismo português e a odisseia por mares nunca antes navegados.

“As minas de Salomão”, o original, é o percursor dos romances de aventura na selva, dos mitos propalados entre secretismos e códigos apenas conhecidos pelos neófitos, das descobertas maravilhosas em regiões recônditas em terras distantes. E, por isso mesmo, ou apesar disso, aparece a tradução de Eça de Queirós. Note-se que África praticamente não aparece na literatura portuguesa de antes do 25 de Abril. Ou melhor, um romance passado em África, excepção feita a crónicas de viagens, como a de Serpa Pinto. Contudo, África encontra-se estranhamente ausente das obras dos grandes escritores portugueses do final do século XIX até metade do século XX. Há referências a África, ao tráfico negreiro, à África dos pretos e colonial. Dificilmente se encontra um romance cuja acção seja localizada em África. No após 25 de Abril, África entra pela literatura portuguesa adentro para nunca mais de lá sair. Não apenas África, como os escritores africanos que possuem dela uma visão interior cuja voz fala na primeira pessoa de uma experiência propriamente africana não mediada pelo olhar colonialista.

 

O mesmo não se pode dizer do Brasil. A imortalização da cultura da cana do açúcar nas belas páginas de “A Selva” de Ferreira de Castro, mostram como o Brasil era e sempre foi parte do nosso imaginário. A viagem feita ao contrário, ou seja, a viagem do colonizador em direcção ao país colonizado, tem por símbolo a esperança desencontrada de o protagonista de “A Selva”. Desencontrada porque a selva de Ferreira de Castro não é um lugar que abriga templos míticos ou aventuras excitantes. Pelo contrário, é um lugar de doença, de morte, de trabalho, de desespero, de desesperança. É uma selva de agruras e de traições. Uma selva que coarcta cedo os sonhos do jovem que embarca em Lisboa rumo ao Rio de Janeiro com o objectivo de fazer fortuna.

Uma outra selva que se apresenta como um desafio à capacidade humana, ao encontro entre o homem e aquela parcela desconhecida da sua interioridade, é obviamente a de Conrad. Sobretudo no Heart of Darkness, selva de perigos inusitados e de dissimulações; selva que surge como desafio à capacidade humana de tentar os seus limites. Mas sobre isso, escrevi mais detalhadamente aqui.

Há uma outra selva, a de Kippling, que se encontra na sua avidez de aventuras com a inicial de Haggard. Mas essa é para mim desconhecida.

Finalmente, uma selva luxuriante, ufana, prenhe de ilusões e de desejos, como a que encontramos em “Os passos perdidos” de Alejo Carpentier. Aqui a selva ganha contornos de poesia lírica; confunde-se facilmente com o intricado do desejo do protagonista por duas mulheres. Esta selva está repleta de significados, de máximas sobre a natureza humana com que Carpentier vai pontuando as densas descrições de uma paisagem que se adensa ela própria à medida que vai sendo penetrada.

Há muitas outras selvas, claro está. De Edward Rice Borroughs a Mel Gibson e o seu Apocalipto.

O que sobra destas selvas no último Indiana Jones? Não muito. A recusa de Silperg em ceder aos efeitos especiais para manter a personagem interpretada por Harrison Ford o mais rude e natural possível, provocou um efeito de jardim botânico. Explico: se, por exemplo, Gibson passou semanas a tentar deslocar a câmara na selva em condições adversas, Spielberg optou por não colocar Ford e os seus venerandos 65 anos em apuros. O resultado é um tanto ou quanto decepcionante na medida em que esta última selva soa a jardim botânico. Nem sequer é comparável às memoráveis cenas do início de Indiana Jones e a arca perdida. A selva descaracterizou-se. Tal como Indiana: lento, mas ainda assim disfarçando surpreendentemente bem os seus sessenta cinco anos. Simples: a selva foi digitalizada. Aliás, todo o setting foi digitalizado, das formigas aos macacos, de o arremedo de Machupichu às cataratas do Orenoco. Por isso, este Indiana soa a falso. Temos um Jones que se quer fazer passar pelo ainda jovem e atlético arqueólogo de há vinte anos atrás, e um cenário que é igualmente artificial.

Talvez a selva tenha perdido a sua aura enigmática. Talvez a chamada selva urbana seja incomparavelmente mais tenebrosa do que as brenhas que bordejam o tempestuoso Orenoco. 

 

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