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The big self

Maio 19, 2008

 

Levantei-me cedo. Belo dia de sol. Um domingo perguiçoso como muitos outros. Que fazer? Bom, vou ver o Zizek ao auditório central. E assim fiz. Calcei as minhas peúgas de há três dias, escovei o cabelo, pus o meu bibe e lá fui para o meio da audiência. Gostei. Gostei mesmo muito.

A primeira reacção foi de espanto. Porque a merda do auditório não estava cheio, a abarrotar, com gajos a trepar pelas colunas de som para arranjarem um lugar sentado e gajas a estenderem o seu aparatus cosmético por diversas cadeiras para guardarem o lugar às amigas (ihhh, que imagem tão sexista!). A minha primeira impressão – espanto-receio – confirmou-se no final, coroado que foi apenas com uma intervenção de um careca ruivo (uma aberração!) a fazer uma pergunta complicadíssima sobre o humanismo em Hegel. É claro que Zizek esfregou as mãos de contente e vai daí lá lhe deu com a negação da negação e pôs-lhe a coruja de Minerva a voar através das gelosias. O homem deu-se por satisfeito.

Resumindo uma palestra que durou uma hora e meia de Zizek a falar ininterruptamente, pareceu-me que ele, o filósofo, se aproxima cada vez mais de campos como a sociologia, a antropologia e as ciências cognitivas. Claro, podem sempre obstar: – ele o filósofo? Então e o psicanalista? Para ser franco, julgo que ele não se mostrou muito. Porque a tese de Zizek sobre a necessidade do regresso ao comunismo parte de três constatações que são vistas como ameaças iminentes: a) o perigo de uma catástrofe climática; b) a investigação genética e o perigo da privatização do biológico; c)

Ora isto está muito próximo das teses da risk society de gajos como Beck e Luhmann.

São estas três ameaças que, segundo Zizek, impendem sobre as nossas cabeças e para as quais o capitalismo não tem resposta adequada. É preciso, por conseguinte reinventar o comunismo, não como a letargia estalinista ou a cartilha leninista, mas sim como o domínio do comum. A tarefa do comunismo do futuro é inventar novas formas do comum.

Se a tese do risco está próxima dos dois nomes acima citados, já a sua solução distancia-se irremediavelmente. Segundo os outros dois, o capitalismo tem capacidade para inventar as suas próprias soluções. Aliás, só dentro do capitalismo elas podem ser equacionadas. Zizek não concorda. Mas numa coisa foi inteiramente franco: não faz ni puta idea de qual possa ser a saída. Faz sentido a sua estratégia preventiva, a preemptive war adoptada à transformação  social. Porque, diz Zizek, o problema não é com o que temos actualmente, o problema é com o que vem aí. Porque ainda, nunca antes se viveu tão bem como no período que medeia os dias de hoje com o pós-guerra, e isto sobretudo, ou unicamente, na Europa. A estratégia preventiva visa evitar o pior que aí vem, que já se vislumbra no horizonte.

Ficou a pairar uma questão no ar (fica sempre). Se na Europa se vive bem, nunca se viveu tão bem, por que razão será o evitamento das três ameaças uma missão particular da esquerda?

 

Vou concluir com um best of desta palestra segundo a minha humilde opinião:

 

– as crianças são o testemunho inocente da depravação dos pais. Daí a dessexualização das crianças e a perseguição à pedofilia.

 

– Fritzl não é uma monstruosidade, mas sim a materialização extrema do Ur-vater freudiano  – é a mim que me deves a vida, por isso disponho dela como me apetecer. Citando Zizek, Fritzl é Menschlich, allzu Menschlich!

 

– Que os sionistas em Israel utilizam os mesmos termos dos nazis para acusarem os judeus menos radicais (tais como shit jew e coisas afins)

 

– MacCain é preferível a Hillary Clinton

 

– Yes, we can change! But change for what?  

 

 

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One Comment leave one →
  1. brunopeixe permalink
    Maio 19, 2008 10:02 am

    Eu diria que a ideia do património genético e ambiental como o comum que tem de ser defendido contra a apropriação privada é mais devedora do Negri do que dos teóricos da sociedade do risco.

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